Aumenta suspeita do uso de armas ilegais no conflito em Gaza

Uso de fósforo e metal inerte denso (DIME) seria mais preciso, mas provoca danos a longo prazo, como câncer

Talita Eredia, estadao.com.br

13 Janeiro 2009 | 07h10

As imagens da ofensiva israelense contra a Faixa de Gaza nas últimas semanas mostraram que, além da alta tecnologia e do poderio militar israelense superior ao Hamas, os militares estariam usando bombas de fósforo branco e, segundo relatos de médicos, um novo artefato, o Explosivo de Metal Inerte Denso (DIME, Dense Inert Metal Explosive). Ambas são consideradas nocivas contra a população, mas segundo o pesquisador em Assuntos Militares da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Expedito Carlos Stephani Bastos, essas munições são empregadas para vender a ideia de bombardeios cirúrgicos, já que um artefato convencional provocaria um estrago muito maior.   Força aérea israelense bombardeia a Faixa de Gaza. Foto: AP   Proibido pela Convenção de Genebra, o uso do fósforo branco como arma contra civis e em ataques aéreos em regiões povoadas por civis é uma tática para gerar confusão no inimigo. A explosão é semelhante a fogos de artifício, e provoca uma cortina de fumaça, desnorteando os combatentes rivais. "Ela causa pânico na população e isso facilita a movimentação de soldados israelense no solo, para evitar que eles sejam expostos ao fogo inimigo. A ideia dessas bombas é essa", aponta Bastos. Esse tipo de bomba não destrói praticamente nada, mas além de causar queimaduras graves, chegando até aos ossos, pode matar por asfixia.   Veja também: Exército reforça controle nas áreas urbanas de Gaza Brasileiros em Israel protestam contra o PT  Conflito em Gaza vira guerrilha urbana  Secretário-geral da ONU apela por trégua Especial traz mapa com principais alvos em Gaza  Linha do tempo multimídia dos ataques em Gaza  Bastidores da cobertura do 'Estado' em Israel  Conheça a história do conflito entre Israel e palestinos  Veja imagens de Gaza após os ataques       "É um pó branco, como talco. É isso que gera a cortina de fumaça, tanto que as pessoas que morrem por conta dele ficam brancas. Ao atingir a pele, provoca queimaduras. É o contrário do explosivo de metal inerte denso, usado para evitar efeito colateral", afirma o pesquisador.   Segundo Bastos, o uso de munição comum, como granadas e bombas de fragmentação, atinge um raio muito grande. O uso desse novo tipo de armamento de metal denso, o chamado DIME, permite atingir uma pequena área e não acertar alvos não programados, embora possa causar danos a longo prazo. "Em vez de usar explosivo para acertar fragmentos de metal, você consegue, com os produtos de que ele é feito - que é a base de urânio empobrecido, transformar em pó, o que provoca a morte", explica. "O problema é que você atinge a população a longo prazo, porque o efeito do resíduo que ficar no ambiente será inalado, com a possibilidade de provocar câncer, leucemia".   O DIME seria uma evolução da munição de urânio empobrecido que os EUA usaram na Guerra do Golfo, em 1991, mas sua origem é da Segunda Guerra Mundial. Os alemães utilizaram o explosivo durante um ataque em 1943, contra a frente russa. Bastos aponta que EUA e Reino Unido desenvolveram esse tipo de artefato, mas que aparentemente Israel já possui capacidade para produzi-lo. O artefato possui partículas de tungstênio, em substituição aos estilhaços de metal, elemento que contém o alcance da explosão.   Segundo médicos noruegueses que atenderam feridos na Faixa de Gaza, muitos dos pacientes apresentam sinais dos efeitos desse novo explosivo. Segundo dados palestinos, mais de 900 pessoas morreram desde o início dos conflitos e outras 3.600 foram feridas - dados da ONU apontam que pelo menos um terço delas são civis, grande parte mulheres e crianças. Cerca de 1,5 milhão de pessoas vive no território palestino densamente povoado, e mais da metade dos habitantes são crianças, segundo dados da organização Save The Children.   Armamentos palestinos   Mísseis como os usados por Israel são armas precisas. Os foguetes palestinos, porém, são artesanais, de curto alcance e possuem apenas uma trajetória prevista. É com base nesta suposta rota que as cidades israelenses tocam as sirenes para que a população busque abrigos antiaéreos.   "Israel consegue acertar um míssil num veículo, num determinado andar de um prédio. Os palestinos não. Eles disparam um foguete e ele vai cair em algum lugar. Você tem uma trajetória balística, você sabe a que distância ele vai, mas ele pode cair em qualquer lugar, numa casa, numa rua, num campo vazio. Eles lançam na direção da cidade e sabem que vai cair em algum ponto lá. Mas eles não sabem que alvo vão acertar e nem se vão acertar algum alvo. É um tiro no escuro", explica o pesquisador.   Os foguetes palestinos são artesanais, fabricados em casa. "Você usa um cano de água, desses de metal, coloca pólvora, uma carga de explosivos e dispara". Segundo Bastos, o efeito dos projéteis palestinos na população de Israel é mais um fator psicológico do que uma ameaça. "Eles têm mais medo de que um foguete caia em uma casa do que quando um foguete cai, tanto que os disparos fazem pouquíssimas vítimas".   Custos da Guerra   Bastos aponta que, por conta dos altos custos, guerras modernas tem que ser rápidas. " Você não pode fazer uma como a segunda guerra mundial, que durou seis anos. Não tem economia que sustente isso". Estimativas apontam que um dia de confrontos chega a custar ao governo de Israel cerca de US$ 8 milhões.   "Gastos só conseguem ser mantidos por pouco tempo. Calculo que eles tenham no máximo um mês de guerra, mantendo esse nível, gastando o que estão gastando. Isso porque os custos atrapalham a economia também. Israel vive de turismo e de uma série de outras atividades que estão atualmente paradas". O pesquisador lembra ainda que os reservistas israelenses convocados no fim de semana para ampliar a ofensiva trabalham no país e interromperão suas atividades para integrar o Exército.   Bastos acredita, porém que a tecnologia tem limites e não é totalmente capaz de vencer uma guerra. "Para combater o Hamas, os soldados israelense terão de entrar nos centros urbanos, densamente povoados, e ocupar rua por rua, casa por casa, como um conflito de guerrilha. Nem sempre quem tem tecnologia consegue ganhar. Depende de quem conhece a região. Nas ruas, você não sabe quem é civil e combatente, já que eles se infiltram entre civis, usam roupas normais, e isso provoca confusão. O Exército de Israel é treinado para combater outro Exército. A partir do momento que entra numa guerra assimétrica, acaba sofrendo baixas".

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