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Conversas sobre governo de união fracassam no Afeganistão e crise se aprofunda

HAMID SHALIZI E SANJEEV MIGLANI - REUTERS

01 Setembro 2014 | 19h 43

Mohammad Mohaqeq, um dos candidatos a vice-presidente na chapa de Abdullah, disse à Reuters que os dois lados não concordam sobre os poderes do executivo-chefe

Massoud Hossaini/AP
Autoridades e diplomatas temem que o problema desencadeie conflitos étnicos, além da questão da insurgência

As conversas sobre um acordo de divisão de poder entre os candidatos presidenciais afegãos fracassaram, disse um líder proeminente nesta segunda-feira, reacendendo os temores de conflitos sectários por conta do polêmico resultado da eleição.

Nos termos do acordo mediado pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, o segundo colocado na votação deveria nomear um “executivo-chefe” em um governo de união nacional concebido para apaziguar as tensões políticas.

Abdullah Abdullah ficou em segundo lugar nos resultados oficiais do pleito. Mohammad Mohaqeq, um dos candidatos a vice-presidente na chapa de Abdullah, disse à Reuters que os dois lados não concordam sobre os poderes do executivo-chefe, acusando o grupo do vencedor da eleição, Ashraf Ghani, de endurecer sua posição.

“As conversas fracassaram dois dias atrás. O processo político está em um impasse agora, não vemos saída”, declarou Mohaqeq, líder da minoria hazara, em uma entrevista em Cabul, enquanto a luta pelo poder na sucessão do presidente afegão, Hamid Karzai, se arrasta há meses sem sinal de resolução.

Mais tarde, a campanha de Abdullah informou que irá se retirar do processo político se suas demandas não forem contempladas até terça-feira. Atta Mohammad Noor, aliado poderoso e governador da província de Balkh, no norte do país, exortou seus apoiadores a se prepararem para manifestações de rua.

O rompimento das negociações para um entendimento político acontece dias depois de a equipe de Abdullah abandonar uma auditoria da Organização das Nações Unidas (ONU) do segundo turno de 14 de junho, dizendo estar insatisfeita com a maneira como se estava lidando com os votos fraudulentos.

Juntos, os dois fracassos deixaram o acordo mediado pelos EUA em farrapos e aprofundaram a incerteza sobre o momento em que Karzai poderá entregar o cargo a um sucessor.

Anteriormente Karzai havia planejado a posse do novo mandatário para terça-feira, a tempo de comparecer a uma cúpula da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) no País de Gales dois dias mais tarde.

A data foi adiada depois que a ONU disse só poder concluir a auditoria perto do dia 10 de setembro.

Karzai não irá abandonar a função antes da conclusão do processo, declarou um porta-voz.

O impasse se dá no momento em que os Estados Unidos, maiores doadores de ajuda a Cabul, e outras nações da Otan retiram suas tropas após 13 anos de combates contra insurgentes do Taliban.

Autoridades e diplomatas temem que o problema desencadeie conflitos étnicos, além da questão da insurgência.

Ghani, ex-ministro das Finanças e economista do Banco Mundial, é membro da etnia pashtun, majoritária no sul e no leste do Afeganistão, e Abdullah é parte pashtun e parte tadjique, mas atrai a maior fatia de seu apoio do segundo grupo, dos hazaras e de outras etnias menores, sobretudo no centro e no norte afegãos.

(Reportagem adicional de Mirwais Harooni)