Uma sociedade militar (dia 2)

Uma sociedade militar (dia 2)

adrianacarranca

13 de janeiro de 2011 | 23h56

E então veio um novo dia para me lembrar que estou em um país onde a guerra é iminente. A militarização da sociedade israelense é tão ostensiva que cria situações bizarras como a dessa jovem que eu fotografei, curtindo o fim de semana com uma amiga nas águas do Mar Morto, com a sua metralhadora a tiracolo.

O serviço militar é obrigatório em Israel – três anos para os meninos e dois anos para as meninas, a partir dos 18. Durante esse período, eles são responsáveis pelas armas que usam e devem tê-las consigo. Depois que deixam o Exército e até os 45 anos, os homens têm de cumprir um mês de serviço militar, para atualização, todos os anos e podem ser convocados a qualquer momento. Isso significa que quase a metade da população é formada por militares na ativa ou reservistas.

A história judaica é marcada tão profundamente por perseguições, batalhas, o Holocausto, que construiu uma sociedade paranoicamente amedrontada. Os israelenses admitem isso, mas não conseguem livrar-se do peso que o passado exerce sobre o povo judeu. Há vítimas dos horrores do nazismo ainda vivas, gerações afetadas pelas lembraças guardadas por seus pais e avós, e pela memória alimentada pelo Estado e as instituições. A essa memória somam-se os últimos 60 anos de conflitos, desde a criação de Israel. E tem-se um Estado na defensiva, que reage bruscamente ao menor sinal de perigo.

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No ano passdo, a ONU divulgou um relatóro, com base em evidências disponibilizadas por sete organizações locais, em que acusava Israel de violar a Convenção Internacional dos Direitos da Criança pelo que chamaram de “militarização” do sistema de ensino público. Uma das evidências apresentadas foi o desenho acima, um exercício dado às crianças israelenses do ensino infantil.

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Em um passeio a Masada, que antecedeu o início do programa na Universidade Hebraica de Jerusalém, fomos acompanhados por um segurança particular armado. Eu não tinha percebido a sua presença. Sempre ficava para trás do grupo, curiosa sobre uma coisa aqui e outra ali, e comecei a achar estranha a sensação de que alguém respirava no meu pescoço.

Até que me virei, bruscamente:

– “Mas o que é!? O que você está fazendo?”

– “Desculpa. Sou o seu segurança”

– “Meu o quê!?”, perguntei, confusa. Até que alguém do grupo nos resgatou de minha ignorância. Ainda assim, não perdi a pose: “Você é muito novo para segurar essa arma, menino!”

Ele tem 23 anos e duas guerras no currículo, durante as quais onze de seus amigos foram mortos, três dos quais, segundo ele, decapitados por militantes do Hezbollah no conflito entre Israel e Líbano, em 2006. Desde que terminou o período militar compulsório, ele trabalha como segurança particular em Masada e foi o guarda-costas do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em visita ao local.

Masada, no deserto da Judeia, é para os israelenses um símbolo da resistência judaica. É o local onde se deu a última grande batalha contra os romanos, em que milhares de judeus foram mortos, antes da destruição de Jerusalém. Os judeus que viviam na fortaleza, no topo das montanhas, teriam preferido cometer o suicídio em massa a entregar-se aos invasores. É hoje o local onde os recrutas das Forças de Defesa fazem o juramento de fidelidade ao estado de Israel.

Patrimônio da Humanidade, Masada, seus acampamentos e fortificações, constituem o mais completo sítio romano que sobrevive até os dias atuais, segundo a UNESCO. Foi um dos locais mais espetaculares que eu já conheci..

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