Noite das mil e uma noites

Noite das mil e uma noites

adrianacarranca

04 de setembro de 2007 | 00h12

O vôo entre o Cairo e Teerã faz escala em Dubai (E.A.U.). Literalmente, um oásis no meio do deserto. Não encontrei melhor definição. Dois homens de dishdasha e kaffiyeh (a túnica e lenço brancos da foto) me esperam na saída do avião. A primeira coisa que me passou pela cabeça é de que seria presa ali mesmo. Só não sabia o motivo. Depois, é claro, me envergonhei do próprio preconceito. Eram funcionários do aeroporto.

Eu havia pedido entrevista com o vice-presidente e primeiro-ministro de nome longo, xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum. Como eu teria poucas horas na cidade, um assessor foi me receber. A entrevista não rolou. Mas, até o bate-papo já valeu. Ele destrincha o cardápio de benfeitorias públicas, sinais do progresso sem igual na região: ensino fundamental gratuito “e se você tiver boas notas, cursa qualquer universidade no mundo, com despesas pagas pelo governo”; na volta, “tem emprego garantido, moradia e 70 mil dirhams (R$ 40 mil) para se casar”; “e se não encontrar tratamento de saúde aqui, te mandamos para a Europa”. Ele diz que os salários estão aumentando porque ainda há mais oferta de trabalho do que mão-de-obra – tanto que uma nova lei põe na cadeia o empregador que “roubar” um funcionário de outro. “Basta uma boa idéia para se ter um empréstimo entre U$ 1 milhão e U$ 5 milhões”, continua.

Fala da construção do prédio de 800 metros, “o mais alto do mundo”, pela da Emmar, “a maior do mundo no ramo imobiliário, que constrói um novo andar por semana”. E dos dois “maiores shoppings do mundo”, além de outra centena de novos empreendimentos. Mostra a Arab Tower (foto), “hotel mais alto do mundo”, com 57 andares sobre uma ilha e o subsolo submerso, de onde se vê peixes. A economia, independente do petróleo, cresce “a um ritmo maior do que os dos gigantes mundiais”, assim como a população.

Não passei tempo suficiente na cidade para checar cada informação, mas os sinais do progresso são visíveis nas ruas. Tudo aqui parece ser “o maior do mundo”. Até o sol. Faz um calor de 47 graus!

Terminada a apresentação oficial, é minha vez de fazer perguntas. Com 85% da população de Dubai formada por estrangeiros de 100 nacionalidades, não é fácil encontrar um legítimo representante local. Omar é um simpático jovem, orgulhoso dos avanços do país. “Queremos ganhar dinheiro sob as leis do islã. Não há nada de incompatível nisso”, garante. Aos 26 anos, ele acaba de comprar seu primeiro Mercedes-Benz prata novinho em folha. Sinais dos novos tempos. Há 3 anos, casou-se com a prima no mesmo dia em que o irmão dele se casou com a irmã dela, conforme decidido pelas famílias. E é feliz. Tradições dos velhos tempos.

Dubai é assim, cheia de contradições. As diferenças culturais são aceitas em nome do desenvolvimento. Estrangeiras desfilam de mini-saia ao lado das árabes de abaya, o vestido negro que lhes cobre o corpo e sob o qual escondem roupas, sapatos e acessórios de grifes internacionais vendidas nos shoppings da cidade.

Deixei para comprar o véu islâmico aqui. Vou ao shopping em um dos Mercedes Benz dourados que compõem a frota dos táxis de Dubai. O trânsito é caótico e, mesmo nas poucas vias livres, ninguém excede o limite de velocidade – o motorista me conta que é monitorado por GPS. Uma barberagem e a multa chega via satélite!

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