Revolução digital: da página no Facebook à queda de Mubarak

Revolução digital: da página no Facebook à queda de Mubarak

adrianacarranca

11 de fevereiro de 2011 | 16h58

“O Egito merece um futuro melhor. No dia 25 de Janeiro nós mudaremos nosso país. Ninguém irá nos deter, se nós estivermos unidos. A população jovem deve se manifestar agora”, dizia a mensagem na página criada no Facebook, que em poucs horas teve 100 mil adesões. Na mesma página foram disponibilizados links para informações sobre onde e quando os manifestantes se encontrariam, em todo o país. Jovens disponibilizavam números de telefones e se apresentavam como voluntários para organizar os protestos em suas cidades.

Movimentos jovens juntaram-se ao grupo. Online, eles davam dicas de como organizar os protestos e evitar confrontos com as forças de segurança.

“Usem márcaras contra gás lacrimogênio. Não insultem, dirijam a palavra ou provoquem os soldados ou a polícia. Não é nada pessoal! Eles recebem ordens para nos deter, mas nós somos todos egípcios e um dia as forças de segurança saberão que estamos certos”.

O 6 April, criado em 2008 em apoio a trabalhadores do setor têxtil, em greve por melhores salários na cidade industrial de Mahala Al-Kobra, ofereceu ajuda técnica online e abriu novos canais de comunicação entre os manifestantes através de mídias sociais como Twitter, Facebook e UStream.

Outro grupo popular de oposição, o Somos Todos Khaled Said, que tem uma página no Facebook dedicada ao jovem de Alexandria espancado até a morte por policiais que ele flagrara vendendo drogas, no fim do ano passado, foi essencial para atrair mais manifestantes.

Uma “sala de debates” online foi criada com atualizações minuto a mintuto feitas por integrantes da página do Facebook, de todas as partes do Egito. Eles também publicaram uma lista de advogados que se voluntariavam para atender manifestantes que fossem presos.

Em Alexandria, Mansoura e Suez, movimentos e organizações locais, ativistas ligados à Campanha El-Baradei, ao Partido Ghad, o Frente Democrática e o Movimento Popular Democrático por Mudança mobilizaram manifestantes. Em Sharqiya e Ismailia, eles foram organizados pela Associação Nacional por Mudanças e, mais tarde, jovens simpatizantes da Irmandade Muçulmana juntaram-se ao grupo.

Em paralelo, jovens como Asmaa Mahfouz, 25, chamavam para os protestos nas suas próprias páginas. No dia 18 de janeiro, ela escreveu que não ficaria em silêncio em face “dos abusos das forças de segurança e das políticas do governo que empobreceram a maioria dos egípcios”. “Eu vou para a Praça Tahrir no dia 25 de janeiro. Eu vou lutar por meus direitos e das pessoas torturadas até a morte pelas forças de segurança”, escreveu Mahfouz em sua página.

A motivação teria vindo da morte de outro jovem Sayed Belal, durante interrogatórios após o atentado à bomba em uma igreja em Alexandria, na noite de Ano Novo, que matou 23 pessoas. Muitos amigos de Mahfouz se juntaram a ela e aos demais.

Tudo online e de forma silenciosa.

No dia 24 de janeiro, um dia antes das manifestações, a página inicial já tinha 300 mil integrantes – em comum, eles tinham o desejo por democracia, liberdade e justiça. Cerca de 7 milhões de pessoas têm acesso à Internet no Egito. Aos demais, a notícia se espalhou no boca-a-boca.

“Não imaginávamos que centenas de milhares de pessoas apareceriam no dia 25 de janeiro. Nós esperávamos 20 mil pessoas”, disse Mohamed Awad, do Jovens por Justiça e Liberdade. “Nosso papel foi organizar os protestos e criar uma rede de movimentos e ativistas por todo o país para espalhar os protestos. O crédito (da Revolução) é dos jovens egípcios que fizeram a mudança acontecer”, disse o coordenador do Movimento 6 April, Ahmed Maher.

Dezoite dias após a criação daquela primeira página no Facebook, o presidente Hosni Mubarak renunciaria após 30 anos no poder.

Fonte: AlAhram/ Huffginton Post (foto)