A vida continua depois de um ataque suicida no centro de Cabul

adrianacarranca

28 de novembro de 2008 | 11h19

Eu estava num carro da Cruz Vermelha, a caminho de um dos hospitais mantidos pela organização, quando ouvi pelo rádio sobre o atentado suicida em pleno centro de Cabul, a 100 metros da Embaixada dos Estados Unidos, no feriado mais importante para os americanos, o ThanksGiven. Os Taliban, que mais tarde assumiram a responsabilidade pelo atentado, têm coordenado ataques como este para mostrar a sua força. É a ‘Taliban propaganda’, como definiu para mim o porta-voz da ISAF, a força de segurança internacional, Richard Blanchette.

Ligo para um amigo e peço para que me leve ao local do atentado. As autoridades locais são rápidas em ‘limpar’ a cena e, quando eu chego, os carros atingidos e as vítimas já tinham sido retirados. Pouco mais de uma hora depois e a vida já seguia normal para os afegãos. As pessoas estavam de volta aos pontos de ônibus, às compras, ao trabalho.

O carro explodiu em uma grande avenida e, dos dois lados, comerciantes limpavam o sangue na calçada e tentavam improvisar portas e janelas com pedaços de lençol e cobertores. Eu não podia acreditar no que via. Em um raio de 100 metros em torno do local onde o carro explodiu, e onde agora há uma pequena cratera, apartamentos residenciais e pontos de comércio tiveram portas arrancadas e vidros quebrados. As crianças ‘brincavam’ de achar pedaços dos carros e de corpos – não, eu não tive estômago para ver isso – sobre as árvores.

Abdul Wodood, de 36 anos, dono de uma mercearia em frente ao local do atentado, mostra as mãos machucadas por cacos de vidro e me conta que já é a segunda vez que ele está muito próximo de uma explosão. Pergunto se não tem medo e se alguma vez pensou em fechar seu pequeno negócio, que fica perto da embaixada americana. “Não, essa não é uma opção para mim. Eu dependo do meu negócio. E não importa onde você está nesse país, está correndo risco. Uma bomba pode explodir em qualquer lugar. O que eu posso fazer? É só mais um dia comum para os afegãos.” Ele assistiu ao atentado de sua janela. Mas não vou descrever aqui a cena que me contou, porque é simplesmente horrível.

Mohammed Kader, de 37 anos, estava em sua pequena barraca de sucos quando ouviu a explosão e, então, viu uma ‘montanha de fogo’ na sua frente e um carro ser lançado três metros adiante. Kader diz que correu para ajudar um homem que fora atingido pela explosão quando passava com sua bicicleta. Ao chegar mais perto, viu que o homem já estava morto.

Ele conta que o suicida dirigia um Corolla que colidiu com outros dois carros e daí houve a explosão – o que me faz pensar que o suicida realmente tinha como objetivo chegar mais perto da embaixada americana, mas se envolveu em um acidente de transito antes disso. Não é difícil imaginar a adrenalina de quem está perto de se explodir… E esses caras são apenas miseráveis convencidos de que encontrarão o paraíso, onde terão comida farta e sete esposas.

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