Um Afeganistão sob o domínio do medo

adrianacarranca

19 de dezembro de 2008 | 15h04

O suíço Markus Cott é daquelas pessoas que a gente sente orgulho de conhecer. Está entre um grupo seleto de pessoas que trabalham com ajuda humanitária porque se preocupam, de coração, com o outro. Ele chegou muito perto de se tornar padre, mas logo percebeu que rezar pelo mundo era pouco para ele e que só “em campo” poderia fazer alguma diferença. Há pouco mais de um ano, Markus trabalha para uma organização humanitária no Irã, mas ele conhece bem o Afeganistão, onde viveu e trabalhou por quatro anos em pleno governo Taliban.

Durante a minha passagem por Cabul, ele fez uma visita à cidade, para uma reunião. Nosso encontro foi breve e não tivemos a chance de conversar sobre a situação local. Por isso, na volta, mandei um e-mail para ele, curiosa sobre quais tinham sido as suas impressões ao retornar para o país. Foi esta a sua resposta:

“Para ser honesto, eu entrei em choque – conhecendo o Afeganistão de antes, embora aqueles também fossem tempos difíceis e muito longe de ideais para qualquer ser humano, eu me vi de volta a um país vivendo em constante estado de medo. A situação passou de ruim para pior. E eu me senti tão mal – sendo impedido de me movimentar, tendo de obedecer regras de segurança nunca tão restritas quanto agora.

Foram dias até que eu me recuperasse. Ao mesmo tempo, é verdade quando você diz que não podemos desistir de trabalhar por esse lugar e de tentar fazer alguma diferença nesse ambiente, onde as pessoas estão se adaptando a uma vida atrás de muros e grades, outra mudança que, como eu puder ver, muitos afegãos estão adotando.

É estranho e eu não tenho como expressar como fiquei infeliz com essa situação. Ao voltar para o Irã, tirei alguns dias de folga e viajei para as cidades lindas da Pérsia – Isfahan, Yazd, Kerman e Shiraz -, lugares que me fazem lembrar da beleza e história dessas terras e da bondade desse povo, o que me permitiu reconciliar com esse mundo novamente.”
(Markus Cott)

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