Alberto Cairo: o santo dos afegãos

Alberto Cairo: o santo dos afegãos

adrianacarranca

19 de agosto de 2009 | 18h40

Alberto Cairo anda de um lado para o outro, cumprimenta um, brinca com a criança que passa, dá um sermão na outra, gesticula, põe as mãos na cabeça, reclama, esbraveja e no momento seguinte sorri ao ver um de seus pacientes andar de novo. O funcionário do Comitê Internacional da Cruz Vermelha comanda a sua pequena fábrica de pernas com imensa dedicação, certo rigor e muita alegria.

Há 19 anos vivendo no Afeganistão, o italiano de gestos exagerados e fala alta tem em seu centro de reabilitação em Cabul o registro de 45.000 afegãos que perderam as pernas em minas terrestres, ataques com bombas ou no fogo cruzado dos conflitos desde que ele chegou ao país. Todos passaram por suas mãos inquietas, mas cuidadosas, e voltaram a andar com a ajuda das pernas mecânicas produzidas ali.

Hoje na chefia dos seis centros que montou no Afeganistão, ele não quer largar seus pacientes, apesar das funções burocráticas que consomem boa parte do seu dia. Para dar conta de tudo, chega ao centro às 5h e nas primeiras três horas do dia cumpre aquilo que considera “chato demais”, como relatórios e outras demandas administrativas. Quando seus funcionários chegam às 8h, ele vai visitar seus enfermos e apesar de estar ali há quase duas décadas, ainda é capaz de se emocionar com eles, como pude atestar durante o dia que passei acompanhando seu trabalho no centro, em Cabul, em novembro.

“Eles são a minha família. E me dão uma alegria muito grande. Sou um privilegiado por poder realizar esse trabalho”, diz o homem que, nas horas vagas, convive com os afegãos como se fosse um deles. Alberto fala pashto e dari, os dois idiomas locais, fluentemente. É um dos poucos estrangeiros que eu vi conviver de fato com o povo afegão. Quando a noite chega, ele deixa o centro de reabilitação em uma bicicleta. Não usa carros blindados, não anda com seguranças, não se isola dentro dos muros altos dos condomínios fechados onde vivem os estrangeiros.

E o senhor atende os Taleban aqui?, eu pergunto. “Espero que sim, mas não sei porque quando atendo um ferido não pergunto quem ele é. Isso não me interessa”, esbraveja. Mas, o senhor não teve problemas durante o governo Taleban?, insisto. “Nunca tive problemas para trabalhar nesse país. Eles só me pediram que atendesse homens e mulheres em alas separadas. E eu acatei”. Assim, Alberto Cairo, um cristão, vejam só, conquistou a confiança e o respeito até mesmo dos radicais. Quando se fala em seu nome em Cabul, os afegãos respondem: “É um santo!”.

A poucas horas da eleição presidencial no Afeganistão, me lembrei de Alberto Cairo, um homem inspirador. E um bom personagem para ilustrar um posting no 1.º Dia da Ação Humanitária, celebrado hoje.

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O brasileiro Sérgio Vieira de Melo, sobre quem eu já escrevi nesse blog (leia aqui) merece ser lembrado. A data 19 de agosto foi escolhida por marcar o aniversário do ataque contra a sede da ONU em Bagdá, em 2003, que matou 22 funcionários, entre eles Sérgio, chefe da missão humanitária no Iraque. País que, aliás, vive nova onda de violência, desde o início dos preparativos para a retirada das tropas americanas e a tranferência do comando de segurança para o Exército e os policiais iraquianos.

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