As noivas de Faizabad

As noivas de Faizabad

adrianacarranca

26 de abril de 2011 | 04h46

No twitter @AdrianaCarranca

Durmo 9 horas seguidas. Silêncio. Calmaria. Cansaço. Escuridão. Frio. Levanto às 8h30. Dou um giro pela clínica. Há muita gente amputada, paraplégica, deformada. Mas aqui a guerra não faz tantas vítimas e, sim, a pobreza, o isolamento, as tradições. Nascem muitas crianças com problemas congênitos, como Sabrija, de 13 anos, Goldonah, de 24, e o filho Fawad, de 2, Mori, de 20 anos, e Jawad, de 1; os pais são parentes próximos, as mães casam-se ainda meninas, o nan-e Afghani, o pão nacional, base da alimentação, é delicioso, mas não evita a desnutrição.

Sabrija

Goldonah e Fawad

Mori e Jawad

No mundo civilizado também há esses problemas, mas são facilmente corrigidos na infância. Aqui a poliomielite ainda não foi erradicada. Qualquer doença simples pode matar. Muitas mulheres chegam com feridas já gangrenadas porque demoram a procurar uma clínica; estão limitadas por longas distâncias, por estradas quase intransitáveis, pela falta de um médico, de transporte e de dinheiro, ou pela ordem dos maridos.

Zahra

Seis anos depois de casado, o marido de Zahra decidiu arrumar outra esposa. Aos 17 anos, ela já havia lhe dado um filho, mais sete vieram. Quando recebeu a notícia sobre outra mulher, Zahra desesperou-se, gritou com o marido e ele reagiu jogando uma pedra sobre seu pé. O ferimento infeccionou e como teve de andar muito para chegar até a clínica, com uma fratura exposta, ela teve complicações e perdeu parte da perna. Amputada, continua morando com o marido, seus oito filhos, a segunda mulher e os cinco filhos dela.

A ala feminina da clínica é separada, mas as mulheres ainda têm o véu sobre os cabelos; as burcas ficam penduradas no corredor. Eu almoço com elas. Há quatro fisioterapeutas afegãs treinadas pelo CICV – elas próprias ex-pacientes e todas casadas com os fisioterapeutas da clínica, exceto por Bargigul, que se casou com um primo e paciente.

Mahbobu, 27 anos, estava na 5ª série quando transferiu os estudos para Cabul, para ajudar a irmã que acabara de se casar e estava grávida. Mas logo o Taleban veio. Como o Badakhshan era então dominado por um grupo de oposição aos radicais islâmicos, durante quatro anos ela não pôde voltar para casa e ver o restante da família. Um dia foi parada na rua por um oficial, quando voltava com amigas da casa de uma vizinha onde as meninas costumavam se reunir para estudar, já que estavam proibidas de ir à escola. Eram crianças e por isso não vestiam burca. Apanharam do homem com uma vara. A irmã teve de cortar uma burca pelos pés, para que lhe coubesse no corpo de 11 anos. As irmãs decidiram voltar. Viajaram até Kunduz, uma área Taleban mais perto de Badakhshan, para de lá seguir por um dia e uma noite no lombo de um burro até Faizabad, sua cidade e capital da província inimiga dos radicais – por isso, durante seu governo, eles não deixavam que chegasse lá aviões e bloquearam as estradas para carros e caminhões.

Hoje, Mahbobu usa burca, mas por opção. “Estou acostumada e as mulheres de Faizabad todas usam, então, não quero ser diferente. Os homens ficariam me olhando e não gosto disso”, diz ela, grávida de cinco meses, assim como Bargigul e Shakira.

Bargugil e Mahbobu em nossa mesa de almoço improvisada sobre a maca

Bargigul é a única delas que não usa burca. O noivo estudou em Cabul, considerada uma moderna capital para os padrões locais, e não se importa. Mahbobu conta que, durante sete anos, o pretendente de Bargigul visitava a clínica para tratamento e revela que a menina já andava de olho no rapaz, até que ele propôs. Ela cora de vergonha.

Shakira, de 27 anos, é casada com Mustafá, de 35, diretor do centro ortopédico, também ele um amputado. Ele estudava para ser piloto em Cabul quando a escola militar foi bombardeada no dia em que a guerra civil chegou ao coração da capital – 1º de janeiro de 1994 – contra as forças de Ahmad Shah Massoud, o comandante tajik opositor ao Taleban que foi morto dois dias antes do 11 de setembro.

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Vista do meu alojamento, na clínica do CICV

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Fazulbari, de 36 anos, vítima de poliomielite e casado com Mahbobu, diz que preferia que a mulher se vestisse como as jovens iranianas de Teerã, de forma “mais moderna” (roupas mais justas, véus coloridos), mas “ela não quer”. Não é só da burca que ele reclama em relação à cultura do seu país. Diz que a mulher e a mãe mandam nele. E que “foi muito difícil arranjar uma esposa, muito caro! Cultura ruim!”.

Aqui paga-se entre U$ 5 mil e U$ 6 mil pela noiva para o pai dela, além de ouro para ela, e presentes como “roupas caras do Paquistão e da Índia” para a mãe dela e as irmãs. Uma festa de casamento, bancada pelo noivo, tem de ter pelo menos 500 convidados adultos, mais as crianças. Faizulbari gastou U$ 1,5 mil em sua festa e outros U$ 2 mil em ouro, dinheiro que economiza desde que começou a trabalhar! Eu digo a ele que não acho o sistema lá tão ruim… Ele ri.

E se põe a me dizer tudo o que sabe sobre o Brasil.

“Índios, uh?”. E faz um gesto como apontando uma flecha para mim, como assistira em um documentário da BBC sobre os povos remotos da Amazônia.

“Presidente do Brasil, mulher, uh? Depois de Lula da Silva… Lula amigo de Ahmadinejad (presidente iraniano), uh? Gosto do Brasil!”

“Capital, Barasíííília, uh?”

“Pelé? Brasil tem gente amigável! Na copa, todo mundo queria que o Brasil vencesse.”

“México é perto do Brasil, uh? México, muito, muito perigoso… Brasil também! Muita gente diz: oh, o Afeganistão é muito perigoso, mas não! O Taleban não tem poder aqui no Badakhshan. Ainda não. Mas o que eles podem fazer? Umas explosões? Nada mais, não. Crime? Nããão. Tiro, droga. Nada disso, nããão!”, fala, arregalando os olhos.

Ele me serve chá no único copo disponível – é comum compartilhar a xícara de chá que eles lavam com um pouquinho da própria bebida, despejando o resto num pires também comunitário.

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