Badakhshan: a terra dos inconquistáveis

Badakhshan: a terra dos inconquistáveis

adrianacarranca

23 de abril de 2011 | 12h32

No twitter @AdrianaCarranca

Badakhshan, uma das 34 províncias afegãs, no Norte do país, nunca se rendeu ao domínio dos Taliban. Até quando permanece incerto.

O avião do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) ruma para o Norte do Afeganistão pela rota do Corredor de Wakhan, um braço da cordilheira de Hindu Kush espremido entre a China, o Paquistão e o Tajikistão. Aos pés das montanhas, casebres de tijolo de barro, madeira e palha acompanham as curvas do rio Kokcha. Campos verdes; trigo, algodão, a papoula está mais para o norte. O avião se aproxima do solo e vão surgindo minúsculos pontinhos coloridos e brilhantes, as roupas das crianças tajiks que trabalham nas plantações. Burcas sobre cavalos, homens de turbante, pastores e ovelhas.

Aterrissamos entre campos minados numa velha pista de pouso soviética; um piso irregular, de ferro, que não raro fura o pneu das pequenas aeronaves que chegam com ajuda humanitária. Aconteceu na semana passada e o avião do CICV pousou de barriga. Aviões grandes não conseguem pousar em Faizabad, a capital da província, porque o vale é cercado por montanhas muito altas. Não há equipamentos, torre de controle, nada. Fia-se nos olhos do piloto.


As montanhas da Hindu Kush no Corredor de Walkhan

O aeroporto de Faizabad

A antiga pista servira aos comunistas durante a invasão soviética em 1979. Não é a única lembrança da guerra. Minas terrestres deixadas para trás pelos soviéticos até hoje fazem duas vítimas por dia no Afeganistão.

Eu me hospedo no alojamento do CICV, na clínica para amputados e deficientes físicos. Um quarto simples, com banheiro comunitário. Não há luz nem água potável – o chá no Afeganistão faz parte da cultura de hospitalidade, mas é também uma forma segura de beber água. Quem trabalha aqui, como Alberto Cairo, o fisioterapeuta italiano que vive há 24 anos no Afeganistão e ajudou mais de 45 mil afegãos a andar de novo, priva-se de todo o conforto e lida com a solidão de estar longe e quase incomunicável, com a liberdade restrita por toques de recolher cada vez que um novo ataque acontece, e com a rotina perturbadora de presenciar a tragédia humana dia após dia.

No avião, além de Alberto, viajavam uma iraniana criada na Alemanha, a caminho de Mazar-e Sharif, onde há duas semanas sete funcionários da ONU foram mortos; e uma arquiteta italiana envolvida no projeto do hospital de Kunduz, a ser reformado para mais uma temporada de violência no Norte – nos invernos rigorosos do Afeganistão, os insurgentes se retiram apenas para voltar mais fortes e armados na primavera.

Ao desembarcar, Alberto recebe 15 sms com alertas de segurança. “Não vá para o Norte. Não viaje ao Sul. Não isso, não aquilo… O que eu faço, então? Volto para a Itália? Ah, sim, há uma boa opção sobre o que fazer quando você recebe esses alertas no Afeganistão: apagar todos!”, ele diz, pressionando a tecla no celular. E, então, cumprimenta os afegãos que vêm recebê-lo. Abraça e beija os homens; põe a mão no coração e se curva diante das mulheres, repetindo o gesto local de carinho e respeito. Todos querem cumprimentá-lo. É um cristão querido pelos muçulmanos, inclusive os taliban.

Quando o conheci em Cabul, em 2008, perguntei a ele se já havia tratado um taliban. “Eu espero que sim, muitos!”, ele respondeu. Protegido por leis internacionais, o CICV assume uma posição neutra nos conflitos e atende ambos os lados sem distinção.

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Mas Badakhshan nunca se rendeu ao domínio dos radicais, que são de etnia pashtum enquanto a maioria da população local é tajik. Eles consideram os taliban maus muçulmanos, por não permitirem às mulheres estudar ou trabalhar, pela violência contra os próprios ‘irmãos’, os afegãos, por terem imposto restrições ao povo com base em um código de conduta milenar das tribos pashtum, o pashtumwali, que acabou confundido como o Islã. Depois que os soviéticos deixaram o Afeganistão e o país caiu em uma guerra civil, o povo de Badakhshan uniu-se ao comandante local e impediu o avanço dos radicais islâmicos sobre suas terras.

Mas essa é outra guerra e o Taliban não é mais apenas um grupo doméstico, mas uma organização que tem links com a AlQaeda e é financiada largamente por aqueles que se beneficiam economicamente das guerras – e há muitos mercenários, empresas de segurança e infraestrutura beneficiando-se dos conflitos no Afeganistão.

Com a intensificação dos bombardeios aéreos no sul, em províncias já totalmente dominadas pelos insurgentes, como Kandahar e Nangarhar, os radicais migraram para as províncias do Norte. Kunduz é hoje o mais violento campo de batalha. Balkh, até pouco considerada a área mais segura do Afeganistão, com estrangeiros circulando livremente, inclusive com acesso à magnífica Mesquita Azul, em Mazar-e Sharif, sofreu uma reviravolta depois o assassinato de sete funcionários da ONU há duas semanas, dentro do condomínio onde viviam. Vizinhos a Badkhshan, Takhar tem sido chamado pelos locais como “o reino dos bandidos” e o Nuristão é governado livremente pelos Taliban.
Cercados entre províncias dominadas e com uma longa fronteira com o Paquistão, o povo de Badkhshan espera pelo Taliban, apreensivo.

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No fim de tarde, Catriona, uma fisioterapeuta escocesa que treina profissionais afegãos, me convidou para um passeio pela cidade. Em Cabul, isso seria praticamente impossível – estrangeiros não andam sozinhos nas ruas de nenhuma outra cidade afegã, aliás. Mas o mulá que lidera as rezas no centro ortopédico se oferece para nos escoltar. Abdul Qahar é um mulá que adora novelas indianas e fala no celular o dia inteiro, inclusive durante o passeio, em que ele segue na frente segurando o seu masbaha, o terço islâmico. Ainda assim, todos os olhares se voltam para nós; uma burca nos segue, curiosa; os meninos riem envergonhados como se estivessem vendo algo que não deveriam; os homens comentam; crianças se aproximam e tentam conversar.

Cidade velha

Caminhamos até a cidade velha e foi como ter voltado 2 mil anos em alguns passos. Chovera e a rua do antigo bazar era só lama. Mercadinhos em palafitas cambaleantes. Galinhas, pássaros em gaiolas de madeira, quatro cabeças de cabras sangrando no chão ao lado do açougueiro que acabara de cortar seus pescoços ali mesmo, na rua. Burcas – não há uma mulher sequer com o rosto de fora. Turbantes pretos, homens barbudos e sem dentes. Jovens que parecem ter mais de 100 anos. Num campo aberto, uma roda gigante, em tamanho miniatura, coloridíssima, confere um ar ainda mais bucólico à paisagem. Crianças descalsas e sujas jogam bola. Montanhas de neve, campos verdes, mais casebres.

Roda gigante

O farmacêutico de Faizabad

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Voltamos para o jantar na clínica à luz de um enorme e barulhento gerador. Sopa de legumes com pão, como no almoço; chá para beber. O mulá ri com a novela indiana que passa na Tolo TV, canal privado e espécie de TV Globo afegã. As atrizes indianas têm os cabelos à mostra e muita maquiagem, mas os braços, o colo e algumas curvas do corpo sob vestidos justos são cobertos por tarjas que destorcem a imagem. No meu quarto há um fogareiro a carvão, que eu não sei usar. Às 20h eu já estou dormindo.

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