Bin Laden vira lenda em Abbottabad

adrianacarranca

10 de maio de 2011 | 02h35

No twitter @AdrianaCarranca

Nas quase quatro horas de estrada precária até a pequena Abbottabad, o motorista Anjum, de 27 anos, tenta convencer a reportagem do Estado de que Osama bin Laden nunca esteve em sua terra natal, distante 100 km da capital do Paquistão, Islamabad. “Foi tudo uma invenção de Hollywood!” Sem resposta para a maior parte das perguntas sobre a operação militar americana que resultou na morte do terrorista saudita, os moradores de Abbottabad reúnem-se nas esquinas para discutir versões fabulosas sobre o episódio.

A casa no número 3 da rua 8-A, um pequeno atalho saído da estrada de Garga, onde fica a Academia Militar de Kakul, onde Bin Laden teria passado os últimos anos de sua vida e transformada em ponto turístico para os locais, agora está cercada de militares armados.

Sem a presença dos estrangeiros, que receberam um ultimado do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas paquistanesas, general Ashfaq Parvez Kayani, para deixar a cidade até a noite de sexta-feira, Abbottabad entrou em uma rotina de boatos.

Ontem à noite, já não havia os holofotes das emissoras de TV para ajudar a iluminar o bairro de Thanda Chowa. Na vizinhança pobre do entorno da Colônia Hashmi, como é chamada a área onde ficam as mansões de militares de alto escalão, via-se pequenos grupos de moradores reunidos em volta da lâmpada dos vizinhos suficientemente bem de vida para ter um gerador. O assunto entre eles era o mesmo: Bin Laden.

“O corpo que tiraram daquela casa não tinha barba”, tenta convencer a reportagem um morador sentado de cócoras na frente da barreira de isolamento colocada pelos soldados na rua 8-A. “Não seja louco. O corpo já não tinha barba porque estava apodrecendo ali uns bons dias. Bin Laden estava muito doente e fraco. Ele morreu rodeado pela família. Quando os americanos souberam, armaram aquela cena toda”, diz Abdul Rashid, dono de um mercadinho, o único local iluminado do bairro na noite de ontem.

Segundo lhe contaram, havia dez crianças na casa onde Bin Laden vivia, “e todas falavam árabe”. “Bin Laden morreu doente! Pode confiar. Quem me passou essa informação mora ao lado e foi o primeiro a entrar na casa depois da operação”, revela, sob olhares curiosos dos demais.

Anjum, o motorista, discorda do antigo vizinho. “Se é assim, cadê o corpo? Quando os americanos pegaram Saddam Hussein no Iraque, chamaram toda a imprensa para ver a presa. E Bin Laden eles iam jogar no mar? Fala sério!”, esbraveja. O engenheiro Waafas Mantool concorda e lembra que a energia em Abbottabad foi cortada pouco antes da operação americana. “Os militares sabiam.”

Mas por que as Forças Armadas do Paquistão teriam permitido a entrada de helicópteros americanos em seu espaço aéreo para realizar uma operação que, segundo os moradores, não passou de uma farsa? “Dinheiro… Muito dinheiro!”, diz Anjum.

Sua teoria é a de que a operação americana foi “uma invenção para aumentar a popularidade do presidente Barak Obama”. Seu cunhado, Anur, um jovem mulá, funcionário da fábrica de explosivos das Forças Armadas em Abbottabad que diz admirar o Taleban, também desconfia da veracidade da operação que teria matado Bin Laden, mas os motivos dos EUA seriam outros: “Eles querem colocar seus soldados no Paquistão e destruir nossas instalações nucleares”.

“Queremos respostas”, diz Anjum. A quebra da credibilidade nas Forças Armadas, uma instituição da qual os paquistaneses sentem imenso orgulho, pode mudar os rumos políticos do país.

Nas rodas de jovens de Abbottabad, o nome do ex-jogador de cricket, Imran Khan, surge como alternativa nas próximas eleições. Fundador do partido Tehreek-e-Insaf (Movimento por Justiça), em meados dos anos 90, Khan tem sido um dos mais vorazes opositores do governo do Paquistão. Ele foi eleito deputado pelo Distrito de Mianwali em novembro de 2002, mas pediu demissão do cargo, em 2007, em protesto contra a candidatura do ex-presidente Pervez Musharraf. Colocado em prisão domiciliar por Musharraf, Khan fugiu para, em seguida, ser preso de novo durante protestos de estudantes. Libertado com outros presos políticos, Khan voltou a ser detido em 2009 durante protestos contra o governo do atual presidente Asif Ali Zardari.

Khan tem conquistado seguidores no Paquistão por protestar contra a presença militar dos EUA na região. Com o episódio da morte de Bin Laden e a insatisfação dos paquistaneses quanto à relação do atual governo e das Forças Armadas com Washington, a tendência é a de que sua popularidade suba ainda mais. “Meu herói é Amir Khan. Ele quer os EUA fora daqui e nós também queremos!”, diz Anjum.

Texto publicado no Estadão.

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