Brasil em guerra: um assassinato a cada 15 minutos

adrianacarranca

25 de janeiro de 2008 | 01h58

O Estado publicou, no domingo, matéria sobre a trágica marca que o Brasil deve atingir em 2008 de 1 milhão de mortos em 30 anos de violência urbana (desde 1979, quando começou a ser feito o mais confiável banco de dados sobre homicídios, o DataSUS, do Ministério da Saúde). Até o fim do ano, terão sido 10.950 dias, com média de 91 mortos a cada um deles. Isso significa que, em três décadas, uma pessoa terá sido assassinada a cada 15 minutos no País. Uma guerra velada.

“A conta é comparável à de países em conflito bélico. Angola levou 27 anos para atingi-la, mas estava oficialmente em guerra civil”, escreveu o repórter Wilson Tosta. Mesmo diante desse cenário, organizações internacionais de direitos humanos evitam comparar a violência urbana no Brasil com a de conflitos civis e guerras, o que me intrigava.

O motivo me foi explicado pelo especialista em Brasil da Anistia Internacional, Tim Cahill, e é nobre: “Do ponto de vista do direito internacional, se nós classificarmos a violência urbana no Brasil como uma guerra, incluiremos a situação no País dentro de um conceito em que existe a aceitação, por parte da comunidade mundial, de que pode haver mortes, como é o caso do Iraque e do Afeganistão. E nós não acreditamos que a questão do Brasil justifique essa aceitação. Um milhão de mortes em 30 anos é um número simplesmente inaceitável.”

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Ainda sobre a banalização da violência no Rio (aliás, no Brasil). Estava de férias quando li sobre a morte do garoto Wesley, de três anos, atingido por tiros de fuzil durante operação da PM e do agora famoso Batalhão de Operações Especiais (Bope) na favela do Jacarezinho. Wesley foi atingido no tórax, ombro e braço esquerdos. Outros seis mortos seriam integrantes da quadrilha que domina o tráfico na favela, embora não se tenha divulgado antecedentes criminais de ninguém.

Mas o que me marcou sobre o episódio estava nas entrelinhas das reportagens publicadas pelos jornais. A avó do garoto contou que a família ouviu intensos tiroteios durante o dia e abrigou-se no segundo andar da casa onde moram. Perto das 18h, quando achou que os tiros cessaram, sua filha Débora, de 23 anos, saiu para comprar fraldas, levando Wesley e o caçula Daniel. Às 18h50, os tiros recomeçaram e Wesley estava morto.

Não pude deixar de imaginar a cena, porque ela reflete como os tiroteios se tornaram parte do dia-a-dia nos morros e favelas. A mãe de Wesley esperou a “chuva” de tiros passar, como se fosse mau tempo, e saiu para comprar fraldas. O tiroteio de antes não a impediu, não a amedrontou, não se tornou o assunto do dia, da semana ou do mês como seria de se esperar em uma comunidade livre da violência cotidiana. E já não impede as autoridades de se ausentar do Estado. No dia da morte de Wesley, Sérgio Cabral estava na Suíça e o secretário de Segurança Pública no Estado, José Mariano Beltrame, na Argentina, como informou a Folha naquela data.

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