Dê o melhor de si

adrianacarranca

21 de agosto de 2007 | 13h19

Ainda sobre o posting anterior, o que acho bacana sobre este projeto da Reuters é que agência utiliza o seu principal ativo, a informação em tempo real, para fazer uma ação social. Sempre defendi que os projetos de responsabilidade social deveriam partir de dois princípios básicos: demanda e o que eu (empresa) sei fazer de melhor para atendê-la. Um terceiro seria começar “em casa”, ou seja, não adianta fazer belíssimos projetos sociais e ser um péssimo empregador e isso serve para pessoas físicas também.

Muita gente me pede dicas de que tipo de ação apoiar. Uma mulher de alta renda queria contatos de instituições para ajudar. “Você sabe onde os filhos de seus empregados estudam? Se eles têm acesso a educação, atendimento médico e odontológico de qualidade? Onde moram e em que condições? Comece por aí.”

Me lembrei de uma senhora que entrevistei na favela Paraisópolis. Ela morava em um barraco de madeira, de apenas um cômodo, com três filhos e o marido, desempregado. O barraco corria risco de desabar com as chuvas. A água escorria como cachoeira dos dois lados do casebre, apoiado apenas sobre uma pedra que não parecia durar muito até que deslizasse morro abaixo. Essa senhora trabalhava como empregada para uma casa no Morumbi. O filho mais velho cuidava da piscina. Não eram registrados e recebiam, juntos, R$ 350 por mês. Meu Deus, será que a empregadora sabia em que condições os seus funcionários moravam? Não adianta participar de chás beneficentes se você paga mal ou não registra seus funcionários (o que é lei!).

O presidente de um hospital particular de São Paulo me perguntou sobre o que eu achava de seu projeto social, em uma favela. “O senhor treina e dá oportunidade de emprego para os moradores dessa favela em seu hospital? Os seus funcionários são atendidos neste hospital ou têm de esperar meses na fila do SUS para fazer uma cirurgia? Se eles têm de esperar, há algo de errado com o foco do seu projeto.” Foi essa a minha resposta. Um projeto social em uma favela pode ser feito por inúmeras instituições e o próprio poder público. O que um hospital particular daquele porte poderia fazer de melhor, no meu leigo entendimento, seria oferecer, pelo SUS, procedimentos ainda não disponíveis gratuitamente e fornecer seus profissionais especializadíssimos para capacitar médicos da rede pública.

Um aluno que trabalha com relações públicas me perguntou, ontem, sobre dicas para o seu cliente, uma universidade particular. “Os filhos dos funcionários – aqueles que não poderiam pagar pelo ensino particular e não tiveram acesso a uma educação de qualidade, nas escolas públicas, que lhes desse a chance de competir por uma vaga na universidade pública – têm bolsa? Se não, comece por aí.”

A ação social tem de ser genuína. Tem de partir de um desejo sincero de colaborar para uma sociedade melhor. De dar o melhor de si mesmo. Do contrário, não se sustenta. É claro, essa é apenas uma opinião pessoal. Mas, acredito que possa gerar um bom debate entre os blogueiros. Gostaria de ouvir opiniões.

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