Do ‘flower power’ ao ‘web power’. A juventude paz e amor do século 21

adrianacarranca

16 de fevereiro de 2011 | 15h22

Seja você de esquerda, direita ou centro, religioso ou não, liberal ou conservador, há uma verdade inegável sobre os protestos que já derrubaram os ditadores da Tunísia e do Egito: ao contrário do que se tornou senso comum no imaginário coletivo do Ocidente, o mundo muçulmano clama por democracia, liberdade e desenvolvimento.

E o que há em comum no mundo muçulmano – além da religião, de estar localizado no Oriente e de ainda ter a maioria dos países do bloco sob regimes autoritários? Uma população jovem, em que 70%, em média, têm até 30 anos.

Quando eles nasceram, a Internet já existia havia uma década – a primeira conexão em rede entre dois computadores, um na Universidade da Califórnia e outro na Stanford aconteceu em setembro de 1969.

Quando ainda eram crianças, o Muro de Berlin já havia caído (1989) e Tim Berners-Lee criara (1990) as três letrinhas que mudariam as suas vidas e o mundo para sempre: www (de world wide web).

Eles chegaram à adolescência ao mesmo tempo em que surgiram o primeiro navegador comercial (o Netscape, em 1994), a Amazon.com (1995) e o Google (1998).

Tinham lá seus vinte e poucos anos, quando o número de usuários na Internet ultrapassou a marca de 500 milhões de pessoas (2002), Marck Zuckerberg criava o Facebook (2004), o Youtube entrava no ar (2005) e Steve Jobs lançava o primeiro iPhone (2007).

Para eles, não só o muro que dividia capital da Alemanha em ocidental e oriental já não fazia nenhum sentido, mas as paredes culturais e os regimes opressores que limitavam seus mundos ao ambiente privado simplesmente desapareceram.

Junte a isso os ingredientes do desenvolvimento e da globalização e tem-se a receita que levou – e continua a levar – os jovens árabes para as ruas. Eles sofrem de uma espécie de claustrofobia social. Têm todo o mundo ao alcance da tela do computador, mas se sentem amarrados, vigiados, limitados, impedidos de desenvolver todo o seu potencial.

O potencial de uma geração mais educada, saudável e liberal do que seus pais imaginaram ser. Entre os dez países que mais progrediram nas últimas quatro décadas, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano, um indicador de renda, educação e expectativa de vida, seis eram muçulmanos.

São eles: Omã, Indonésia, Arábia Saudita, Tunísia, Argélia e Marrocos.

Nesses países, a expectativa de vida saltou de 51 anos para 69 anos, em média, enquanto a taxa de matrícula nas escolas e universidades quase dobrou, chegando a 64%.

A Tunísia, onde teve início a onda de protestos, é um caso à parte. O país não obteve crescimento econômico relevante, mas, se desconsiderado o indicador renda per capita, a Tunísia aparece em 6o lugar entre os 195 países que mais melhoraram em educação e saúde. A expectativa de vida saltou de 55 anos, em 1970, para 76 anos em 2010, um salto duas vezes maior do que o da China, economia que mais cresce no mundo. Em 1970, 52% das crianças tunisianas estavam matriculadas nas escolas. Em 2010, 78% estavam na escola – na China são 68%.

Os dados foram divulgados pelo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em dezembro.

Se nos anos 1960 – antes da Internet, portanto – os jovens usavam flores para transmitir sua mensagem de paz e amor (os primeiros protestos contra a guerra do Vietã foram violentamente reprimidos, então, os manifestantes tiveram uma ideia: nas próximas passeatas sairiam às ruas para distribuir flores, o que deixou os policiais sem saída, ao mesmo tempo em ue a sua ideologia de não-violência ganhava um novo símbolo), hoje o que une as novas geração é o www. O poder da web.

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