Kefaya! Chega! A história do movimento jovem no Egito

Kefaya! Chega! A história do movimento jovem no Egito

adrianacarranca

28 de janeiro de 2011 | 17h14

Quem acompanhou os protestos dos últimos dias nas ruas do Cairo, Alexandria, Suez e outras cidades egípcias pode se perguntar como tudo foi acontecer tão rápido, como num efeito dominó iniciado com o levante popular que derrubou o ditador da Tunísia, Zine al-Abidine Ben Ali, há 15 dias. Mas há muito o Egito era um caldeirão prestes a explodir.

Quando estive lá pela primeira vez, em 2005, manifestantes tomavam as ruas do Cairo e outras cidades por todo o país para protestar contra a possibilidade, confirmada nas eleições de setembro daquele ano, de que o Presidente Hosni Mubarak permanecesse no cargo pelo quinto mandato consecutivo – os mandatos presidenciais no Egito são de seis anos. Esse ano, Mubarak completa três décadas no poder. Mas já em 2005, os jovens egípcios gritavam “Kefaya” (algo como “chega” ou “é o suficiente”)!

As primeiras manifestações contra a permanência de Mubarak no governo e a preparação do filho, Gamal, como provável sucessor ao cargo deram origem naquele ano ao Kefaya, o movimento civil formado por jovens sem envolvimento político. Eles revitalizaram as manifestações populares que há muito já não se via nas ruas do Egito – os protestos foram banidos no Egito desde o assassinato do presidente Anwar Sadat em 1981.

Durante todo o ano de 2005, os protestos e vigílias voltaram às ruas. Apesar de serem duramente combatidos pela polícia, as manifestações não pararam. O Kefaya preparou um manifesto pedindo reformas constitucionais e econômicas. Assinado por 300 ativistas, tornou-se a declaração de fundação de um movimento nacional de coalizão por mudanças no Egito. A essa coalizão aderiram mais tarde apoiadores de diversas linhas da oposição, esquerdistas, liberais, islamistas; professores universitários, juízes, sindicalistas, jornalistas, escritores, associações de médicos.

Em setembro de 2005, o Egito teve a primeira eleição direta de sua história. O governo egípcio foi acusado de prender oposicionistas e de manipular o pleito. Os egípcios boicotaram as eleições – pouco mais de 20% dos eleitores foram às urnas. Mubarak saiu vitorioso, com 88,6% dos votos, e aumentou a pressão sobre os dissidentes. Mas o movimento por reformas estava lançado.

Nos anos seguintes, o Kefaya passou por mudanças políticas e foi alvo de críticas, mas seu principal mérito foi inspirar outros grupos, como o Jovens por Mudanças e o 6 de Abril, formado em apoio às demandas por direitos dos trabalhadores da cidade industrial de El-Mahalla, em 2008.

Em poucos meses, o 6 de abril reunira mais de 100 mil jovens universitários, mobilizados via Twitter e organizados em torno de grupos de discussão em redes sociais como o Facebook. Na rede, eles discutem desde o conflito entre Israel e palestinos até a guerra no Iraque, o controle da imprensa, a corrupção, o desemprego, a má qualidade da educação.

No ano passado, o assassinato do jovem egípcio Khaled Said, espancado até a morte por policiais corruptos que ele flagrara vendendo drogas, gerou outro movimento semelhante, o Somos Todos Khaled Saids. Poucas horas depois de a família de Said colocar as fotos do jovem morto na Internet, o grupo online já tinha 300 mil integrantes no mundo árabe. A página do grupo no Facebook tem 29 mil apoiadores.

O Somos Todos Khaled Saids foi um dos grupos que tomou as ruas do Cairo, hoje. O passo a passo dos acontecimentos – a movimentação das massas até a Praça Tahir, as declarações do governo, a ação da polícia, a prisão domiciliar do Nobel da Paz ElBaradei, o toque de recolher – foram sendo reveladas minuto a minuto no site e no Facebook da organização e de outros movimentos semelhantes.

“É uma geração educada, politizada, que cresceu em contado o mundo via Internet. Eles não veem futuro no Egito e é isso o que estão buscando com os protestos”, diz a jornalista brasileira de origem egípcia Randa Achmawi, correspondente da edição francesa do principal jornal do Egito, o Al-Ahram, para diplomacia e política externa.

Atualmente em Londres, ela havia perdido a comunicação com o filho, Mohamed, que vive no Cairo, desde a meia-noite de anteontem, porque o governo egípcio bloqueou o acesso à Internet. Antes de falar com a mãe pela última vez, Mohamed, que havia prometido ficar em casa durante os protestos, declarou: “Desculpa, mas amanhã eu vou me juntar aos outros jovens nas ruas”.

“Eu fiquei desesperada”, disse Randa. Dezoito horas depois, seu telefone tocou. Era Mohamed, já em segurança na casa de um amigo. Ele estava um tanto triste com a situação no país, mas ao mesmo tempo animado, esperançoso, talvez até orgulhoso do povo que saiu nas ruas. O canal de TV Al-Arabey exibiu imagens de policiais, jovens como Mohamed, tirando a farda e juntando-se aos outros em protesto. “O Egito era um vulcão, prestes a entrar em ebulição”, revela Randa, que vive no Egito há quase 20 anos. Um ditado árabe diz que para fazer um oceano basta a primeira gota. “O acontecimento na Tunísia era a gota que faltava”.

Foto: Página do Somos Todos Khaled Saids no Facebook.

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Acompanhe as notícias sobre os protestos, em tempo real, no blog do Gustavo Chacra.

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O blog Pelo Mundo volta a publicar a partir de segunda-feira os relatos sobre a viagem a Israel e territórios palestinos.

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