Em Silwan, arqueologia e política se confundem (dia 4)

Em Silwan, arqueologia e política se confundem (dia 4)

adrianacarranca

18 de janeiro de 2011 | 22h18

Em Silwan, no coração de Jerusalém, escavadeiras da empresa privada Elat perfuram o solo sob área onde vivem 55 mil palestinos, no projeto de expansão da Cidade de David – parque arqueológico que atrai meio milhão de turistas por ano. O problema é que as escavações estão sendo feitas sem que os moradores árabes sejam sequer consultados. As escavações chegam até o subsolo do Monte do Templo, lugar sagrado para muçulmanos e judeus, que está no cerne da disputado por Jerusalém.

As escavações provocaram uma crise no mundo da arqueologia. Historiadores e arqueólogos veem motivação política no trabalho da Elat e acusam a empresa de ignorar a história cristã e muçulmana nas escavações. “Eu não acredito no lugar onde Cristo morreu. Isso não me dá o direito de negar a fé dos cristãos!”, esbraveja Gershon Baskin, do Centro Israel/Palestina de Pesquisa e Informação. Ele vem ao Brasil em janeiro pedir maior apoio do governo para a causa palestina. “Não deixem a arqueologia cair nas mãos dos políticos.”

A mesquita Ein Silwan, com 130 anos, ameaça ruir por conta das escavações. “Juntamos 250 mil shekels da comunidade”, diz Bdwan Jaber, que teve a sua própria casa, construída pelos avós em 1969, demolida. Segundo ele, desde 1967, apenas 63 permissões foram dadas a árabes para construir em Silwan. “As casas demolidas são irregulares. Mas isso ocorre porque o governo não dá aos árabes autorização para construir”, confirma Angela Goldstein, do Comitê Israelense contra a Demolição de Casas dos palestinos (ICAHD, na sigla em inglês).

Fundada por um nacionalista, ex-integrante de uma unidade de elite do exército israelense, a Elat é também responsável pela construção de condomínios fechados, emaranhados nos quarteirões árabes, onde judeus conservadores vivem protegidos por seguranças fortemente armados.

Jawad Sian, um jovem palestino que conheci na associação de moradores de Silwan conta ter ganho de volta na Justiça a casa da família que a Elat afirmava ter comprado do seu avô, falecido havia dois anos. A batalha judicial levou oito anos. A casa faria parte de um novo assentamento, agora praticamente grudado em seu quintal.

A mesma Elat está tocando as obras de renovação do cemitério judaico no Monte das Oliveiras. Foi onde o taxista palestino Ayman, de 34 anos, nasceu, cresceu, casou-se. Com a chegada dos três filhos, decidiu mudar-se para outra casa, que construiu com a ajuda de primos, sem autorização de Israel. “Todo ano eu tentava obter a licença e eles me negavam. Não nos querem aqui”, diz Ayman, que agora usa um advogado para adiar uma possível ordem de despejo.

A ameaça é real, apesar de Ayman ter nascido e estudado ali, falar hebraico perfeitamente e ser um ex-funcionário da Universidade Hebraica de Jerusalém, um dos primeiros projetos do movimento sionista, anterior à criação do Estado de Israel. Ayman guarda as melhores lembranças dos tempos em que trabalhou na universidade e, no campus, com vista para o Monte das Oliveiras, é reconhecido e recebido com sorrisos. “Mas é impossível hoje para um árabe conseguir licença do governo para construir perto de Jerusalém. O que vou fazer? Deixar o lugar onde passei a vida inteira?”, diz. E o que acham os amigos judeus sobre a sua situação?, pergunto. “Não tenho amigos judeus. Só colegas de trabalho. Amigos só conseguiremos ser quando houver dois Estados, Israel e Palestina”, resume.

*

Jawad Sian, o jovem palestino da associação de moradores de Silwan, foi preso dias depois de nossa entrevista.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.