Pensamentos turvos: fundamentalismo republicano, terrorismo islâmico, pena de morte e o caso Sakineh

adrianacarranca

11 de janeiro de 2011 | 15h53

É, no mínimo, curioso: o jovem americano, de 22 anos, que por seus ideais republicanos matou seis inocentes, entre os quais uma menina de 9 anos, e feriu outros 14, no Arizona, em um atentado contra a vida da deputada democrata Gabrielle Gifford é um “atirador”. O nem tão jovem paquistanês Malik Mumtaz Hussain Qadri, que matou o governador de Punjab, Salman Taseer, em outro atentado, também a tiros, é um “assassino terrorista”.

Daí que me lembrei de um texto lindo do escritor Umberto Eco, publicado no L’Espresso, em outubro, e gentilmente traduzido com excelência pelo advogado, intelectual e amigo Mário Müller Romiti. O texto que eu gostaria de ter escrito em 2010.

Antes de começar a publicar o diário de Israel e territórios palestinos, divido o artigo com vocês.

A virginiana e a iraniana*

Há poucos dias, na Virgínia, Teresa Lewis foi executada com uma injeção letal e ninguém foi à prisão, porque aquela senhora havia sido legitimamente condenada à morte. Tinha ela tentado matar marido e filho adotivo, e o havia feito sem permissão. Aqueles que a executaram, a seu turno, o fizeram com expressa aprovação permissão das autoridades. Haveria, pois, necessidade de reformular o Quinto Mandamento, que passaria a ser “Não matar sem permissão”. Desde o início dos séculos bendizemos as bandeiras dos soldados que, enviados à guerra, tiveram licença de matar, como James Bond. Agora parece que Ahmadinejad, prestes a fazer apedrejar uma mulher (se já não o tiver feito quando forem lidas estas linhas) venha reagindo aos apelos vindos do Ocidente, dizendo: “Lamentai-vos porque nós queremos executar legalmente uma mulher iraniana, enquanto executais legalmente uma mulher americana?”.

Naturalmente lhe foi objetado que a mulher americana tinha tentado matar o seu marido, enquanto a iraniana ter-lhe-ia apenas posto cornos. E que a americana foi executada de forma indolor, enquanto a iraniana o seria de forma dolorosíssima. Mas uma resposta do gênero faria subentender duas coisas: que é justo executar uma assassina, enquanto que para uma adúltera bastaria uma separação legal, sem pensão alimentícia; e que se pode executar segundo determina a lei, desde que seja de maneira pouco dolorosa.

Tudo isto enquanto o que se deveria ao inverso sustentar, se nossos pensamentos não fossem turvos, é que não se deve matar ninguém, nem mesmo um assassino, e não se deve matar tampouco pela lei e nem ainda se a execução é pouco dolorosa, até mesmo se a morte viesse pela injeção de uma droga, num delicioso “embalo”.

Como reagir se países pouco democráticos pedem a nós, cidadãos de países democráticos, que não nos ocupemos das penas de morte, visto que nós também temos as nossas penas de morte?

A situação é muito embaraçosa e eu gostaria inclusive de saber se o número dos ocidentais, dentre os quais se inclui uma primeira dama francesa, que protestaram contra a pena de morte da iraniana também protestariam contra a pena de morte americana. De pronto diria não, porque as condenações à morte nos Estados Unidos, para não dizer na China, são tantas que criamos calo, enquanto é natural que a idéia de uma mulher massacrada a golpes de pedra faça mais efeito. Dou-me ora conta que, quando solicitaram minha assinatura para impedir a execução da iraniana eu o fiz de pronto, mas não havia pensado, nesse meio-tempo, que estavam executando uma virginiana.

Teríamos igualmente protestado se a mulher iraniana tivesse sido condenada a uma pacífica injeção letal? Indignamo-nos pelo apedrejamento ou pela morte infligida a quem não violou o Quinto, mas apenas o Sexto mandamento? Não sei, porque nossas reações são freqüentemente instintivas e irracionais.

Em agosto apareceu na Internet um site no qual se ensinavam vários modos para cozinhar um gato. Brincadeira ou coisa séria que fosse, todos os protetores de animais se insurgiram. Eu sou devoto do gato (um dos poucos animais que não se deixa desfrutar pelo próprio dono, mas, ao contrário, é ele quem o explora a ostentar olímpico cinismo, e cuja afeição pela casa demonstra uma forma de patriotismo) e portanto eu fugiria com horror de um guisado de gato. Mas acho igualmente gracioso, embora se talvez menos inteligente, o coelho, e no entanto o degusto sem quaisquer reservas mentais.

Escandalizo-me vendo as casas chinesas, onde os cães vão e vem em liberdade, até mesmo brincando com as crianças, e todos sabem que serão deglutidos no final do ano, nas nossas fazendas crescem os porcos, dos quais se diz serem animais inteligentíssimos, e ninguém se preocupa que não devam transformar-se em presuntos.

O que nos induz a julgar certos animais não-comíveis, outros protegidos de características quase antropomórficas, e outros comibilíssimos, como as vitelas de leite e os carneirinhos, os quais, quando vivos, nos inspiram tanta ternura?

Somos verdadeiramente (nós) animais estranhíssimos, capazes de grandes amores e estranhos cinismos, prontos a proteger um peixinho vermelho e de ferver viva uma lagosta, a pisar sem remorsos numa centopéia, mas a julgar como bárbara a morte de uma borboleta. Assim usamos dois pesos e duas medidas para duas condenações à morte, ou verdadeiramente nos escandalizamos com uma e fingimos não saber da outra.

Algumas vezes somos tentados a dar razão ao Corão, e ter como certo que a criação, escorregada das mãos de Deus, tenha sido responsabilidade de um Demiurgo canhoto e trapalhão, talvez meio alcoolizado, que se pôs a trabalhar com as idéias meio confusas.

* Tradução Livre

Leia mais sobre o assunto no blog do Guga Chacra!

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