Haiti deve U$ 1 bi a países ricos

adrianacarranca

26 de janeiro de 2010 | 02h51

Dois ou três posts atrás, publiquei foto e vídeo de um menino de 8 anos resgatado com vida no Haiti, após uma semana sob os escombros. Continuo achando a imagem emocionante. Mas, pensei muito sobre as considerações que fez o amigo e médico Eric Berseth. Funcionário do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, ele já viu de perto os mais terríveis desastres humanitários. Esteve no Afeganistão por três anos, ingressou em missões na África e América Central e em poucas semanas seguirá para o Iraque.

“O menino é uma graça. Mas, a mídia americana, tão paternalista e fazendo o tipo ‘salvadora do mundo’. Eu realmente não gosto quando a imprensa usa o desespero das pessoas para alcançar outros objetivos. É um olhar perverso sobre a tragédia humana. Não gosto de ver gente tirando vantagem disso para conseguir a sua história. É patético essa gente falando sobre o que fez, dando tapinhas nas costas um do outro, enquanto há centenas de outras pessoas ao seu lado fazendo exatamente o mesmo trabalho, porém, com mais modéstia. Quando você é parte de uma equipe de resgate, é seu trabalho tirar as pessoas de escombros… Da mesma forma, se você é médico, é seu dever salvar vidas. E nós não ficamos dando tapinhas nas costas um dos outro e nos prabenizando com a música do Starwars ao fundo. Um pouco ‘Hollywood’ demais para o meu gosto, mas obrigada pelo. Só não mande, por favor, o link da Janet Jackson, Robert William, Scarlett Johanson e Justin Timberlake cantando pelo Haiti…”, disse, irônico como sempre.

De início, achei que Erica estava apenas num dia ruim. Mas, ele pode ter razão. Depois de tanta propaganda, tantas reportagens de TV e seus repórteres-herois, de artistas atendendo telefones e outros cantando para levantar recursos para o Haiti, li há pouco no Financial Times sobre o apelo feito durante encontro de ministros de vários países, hoje, em Montreal, para que credores perdoem a dívida externa do Haiti.

E não perdoaram ainda? Não. O consórcio formado por Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e França disse apenas que aceleraria o cancelamento de U$ 215 milhões, ou pouco mais de 20% do U$ 1 bilhão devido, o que já estava acordado desde antes do terremoto. O Haiti tem ainda dívidas a pagar com o Banco Interamericano de Desenvolvimento e outros países. Até Hugo Chávez, da Venezuela, que vem alardeando críticas contra a atuação americana no Haiti, não decidiu ainda se irá perdoar a dívida de U$295 milhões que o Haiti tem com o país.

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