Israel x Palestina: Assentamentos ameaçam acordo de paz (dia 3)

Israel x Palestina: Assentamentos ameaçam acordo de paz (dia 3)

adrianacarranca

17 de janeiro de 2011 | 16h46

Seis semanas foram suficientes para que Israel recuperasse os projetos parados durante os dez meses em que manteve congelados novos assentamentos judaicos na Cisjordânia. Desde 26 de setembro, quando terminou o embargo, 1.629 casas foram erguidas e o terreno preparado para 1.116 novas unidades, em 63 assentamentos. É quase o dobro do que teriam construído, não tivessem as obras sido congeladas. A expansão pode inviabilizar a divisão da área disputada em dois estados, Israel e o Estado palestino, e minar um acordo de paz definitivo.

Segundo o relatório da organização Peace Now, feito com base em dados do Escritório Central de Estatísticas de Israel (CBS, na sigla em inglês), 1.888 novas unidades foram construídas em 2009, antes do embargo que durou de janeiro a setembro de 2010 – o ritmo é de cinco casas por dia, em áreas da Cisjordânia. “Se o congelamento não tivesse existido, eles teriam erguido cerca de 1.574 unidades nos dez meses. Em seis semanas, entre a última de setembro e a primeira de novembro, já recomeçaram mais do que isso e prepararam o terreno para quase o dobro. É como se não tivesse havido embargo algum, mas apenas um atraso nas obras”, diz a pacifista Hagit Ofran, que lidera um projeto de fiscalização dos assentamentos judaicos para a Peace Now. “A estratégia do governo de Israel é levar mais e mais judeus para viver nos territórios palestinos. Com isso, torna-se impossível a solução de dois estados.”

Os assentamentos são autorizados pelo governo israelense e passam também pelo crivo do Ministério da Defesa. Para o advogado israelense Daniel Seidmann, se o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu autorizar a construção de novos assentamentos no ritmo do antecessor Ehud Olmert, em dois ou três anos a solução de dois Estados estará perdida. Seidmann foi o consultor de Bill Clinton para a divisão política de Jerusalém na elaboração do plano de paz proposto ao então líder palestino Yasser Arafat.

Detalhe: Hagit Ofran e Daniel Seidmann são judeus, israelenses e sionistas. Defendem a existência do Estado de Israel, mas também a criação da Palestina.

Recetemente, o presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, ofereceu um generoso pacote militar para que Israel retomasse as negociações de paz sob a condição, exigida pela AP, de congelar os assentamentos por mais três meses. Israel argumenta que os palestinos esperaram até os meses finais do acordo para negociar e que mais três meses não faria diferença. Mas outro ponto foi crucial para o impasse na retomada das negociações. O novo congelamento incluiria o leste de Jerusalém, da qual Israel não abre mão. Diante da impossibilidade de um acordo, Obama recuou.

“Isso representa uma ameaça para o povo judeu. Jerusalém define a relação dos muçulmanos com Israel e o Ocidente. Se ignorarmos Jerusalém num acordo de paz, pagaremos o preço”, acredita Seidmann. A AP ameaça recorrer à ONU unilateralmente para a criação do Estado palestino, o que deixaria Israel sem saída. No Conselho de Segurança, os israelenses poderiam conseguir o veto dos Estados Unidos, mas Abbas está disposto a ir tão longe quanto a Assembleia da ONU – a mesma em que o movimento sionista conseguiu, em 1947, o apoio para a criação do Estado de Israel.

Enquanto a solução de dois Estados é apontada por especialistas, como Seidmann, como a única saída de Israel para se manter como nação judaica democrática, a direita no poder, com maioria no Knesset, tenta empurrar as negociações para frente.

Dois professores da Universidade Hebraica de Jerusalém, com quem tive aula, atribuem isso à desconfiança entre judeus e muçulmanos. “Os vizinhos muçulmanos estão prontos para aceitar definitivamente um Estado judeu e evitar ataques a Israel?”, coloca o professor Meron Medzini, que deu a primeira aula para o grupo de jornalistas (tentarei resumir aqui nos próximos dias). A direita desconfia disso. “E se a paz não é possível, então, temos de assegurar os territórios, para garantir a segurança do país. É essa a lógica”, confirma o cientista político Gadi Wolfsfeld, da mesma universidade.

Recuar as fronteiras de Israel àquelas estabelecidas antes da Guerra dos Seis dias, em 1967, para a criação do Estado palestino, como apoiam o Brasil e outros mais de cem países, significa deslocar meio milhão de judeus das terras ocupadas desde então. Mais de 200 mil vivem no leste de Jerusalém, reivindicada pela Autoridade Palestina como sua capital. Outros 300 mil são moradores de assentamentos em outras áreas da Cisjordânia. Uma população que cresce a um ritmo de 5% ao ano, enquanto a taxa de natalidade em Israel é de 1,8%.

Mesmo durante os dez meses do congelamento da construção de novos assentamentos, as unidades cuja fundação já estava pronta puderam ser terminadas. “O que estão fazendo agora é correr com a infraestrutura (rede de esgoto, ruas e eletricidade etc.) para garantir as terras, caso haja novo congelamento”, diz Hagit.

Com um 4×4 e uma pequena câmera digital, Hagit já colocou muitas vezes em saias justas o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu. Não apenas por se opor aos assentamentos judaicos, aprovados por seu governo, mas porque, embora fale em nome dos palestinos contra o que considera uma “ocupação ilegal de terras privadas”, Hagit é judia, israelense, formada em história judaica e criada em uma família religiosa. É neta do proeminente filósofo Yeshayahu Leibowitz, judeu ortodoxo e sionista, que se estabeleceu em Jerusalém, em 1935.

Na parte leste, onde ele viveu, moram hoje 260 mil palestinos. Eles têm status de residente, o que significa que pagam impostos e têm direito a serviços públicos, mas não ao voto, uma vez que não têm a cidadania israelense. Com a construção dos polêmicos muros de segurança que separam comunidades árabes de Israel, 60 mil desses palestinos ficaram sem acesso livre à cidade. Os muros anexam a maior parte do leste de Jerusalém e os grandes assentamentos de Gush Etzion, Ma’ale Adumim e Giva’t Ze’ev.

Uma nova estrada em breve ligará esses assentamentos a Jerusalém e Jericó – sem acesso pelas comunidades árabes. As obras avançam sobre vilarejos beduínos, fixados no deserto da Cisjordânia com a criação do Estado de Israel, em 1948. E reforçam o apartheid social. “Eu nasci aqui, a minha família está aqui desde 1948. Como podem dizer que essa não é nossa terra?”, diz Silman, um jovem de 28 anos, que vive na comunidade Jahalin, nos arredores de Ma’aleh Adumim, assentamento onde estão 38 mil judeus.

“Muitos estão nos assentamentos porque as casas são vendidas pela metade do preço”, diz Angela Goodfrey-Goldstein, do Comitê Israelense Contra Demolições. Os terrenos são comprados via terceiros. “O objetivo é claro: aumentar a presença judaica.”

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