Longe da América, as vítimas esquecidas do 11/9
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Longe da América, as vítimas esquecidas do 11/9

adrianacarranca

06 Setembro 2011 | 09h00

Abdul Hai mal conseguia segurar em pé o corpo mirrado de 41 quilos, pelo menos 7 aquém do ideal para seus 14 anos. Que dirá suportar com pulso firme uma Kalashnikov de 4,3 quilos, quando descarregada, e tamanho equivalente a metade de seu 1,48 metro de altura. Ele não foi capaz de proteger a família no meio do fogo cruzado que nem mesmo podia enxergar de onde vinha. Quando os tiros cessaram, o menino atravessou os campos de trigo na propriedade da família e foi recolher os corpos do pai e da mãe, mortos no tiroteio contra insurgentes taleban.

São vítimas esquecidas do 11 de Setembro. A década da guerra do Ocidente contra o terror no Afeganistão deixou um saldo de pelo menos 11,7 mil civis mortos – quatro vezes mais vítimas do que nos ataques às Torres Gêmeas. Mas os números são subestimados porque a Missão da ONU no Afeganistão só começou a contar os mortos a partir de 2006. Somam-se a eles 10 mil insurgentes, 8,8 mil forças de segurança afegãs e 2,7 mil militares estrangeiros (1.746 deles americanos) mortos em combate. Há ainda os feridos, os amputados – dois por dia -, as viúvas, os órfãos como Abdul.

O irmão mais velho entregou-o para um abrigo em Cabul e voltou para proteger as terras deixadas para trás no pequeno vilarejo de Khojahor com a AK-47 entregue pela Otan. Armar milícias afegãs – o que a Otan chama de “polícia local” ou “auxiliar” – faz parte da estratégia de retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão, que uma década após o início da ofensiva voltou a ser dominado pelos radicais de turbante negro.

Antes de deixar o comando dos 140 mil soldados da aliança ocidental no Afeganistão e assumir a agência de inteligência americana CIA, o general David Petraeus lançou um plano para combatê-los: armar e treinar 30 mil camponeses afegãos para manter os taleban longe de suas terras. Além de AKs-47, os milicianos recebem três semanas de treinamento e uma modesta contribuição – 3 mil afeganes (ou R$ 111) por mês.

A iniciativa tem sido largamente criticada. “O Afeganistão que as tropas estrangeiras estão deixando para trás é um país miserável, fortemente armado, com profundas divisões étnicas, e uma população que não confia na capacidade do governo central de protegê-la”, resume Jolyon Leslie, coautor de Afghanistan: The Mirage of Peace (Afeganistão: A Miragem da Paz, em tradução livre), um relato impressionante da falência do Estado afegão e da missão estrangeira no país.

Foi num conflito entre milicianos e os taleban que os pais de Abdul viraram estatística do conflito, que chega ao 10.º ano com um civil morto a cada três horas, oito a cada dia – dia após dia.

O adolescente relata que os confrontos se intensificaram em sua província há três anos. “Todo dia havia guerra, muito, muito ruim…”, ele diz. Tem os ombros caídos, mãos encolhidas junto ao corpo agora mais robusto do que ao chegar no abrigo, pés descalços, olhos voltados para o nada; responde monossilábico às perguntas. Sobre os taleban que atacaram sua vizinhança, solta a única frase da entrevista: “Têm feição boa, eles. Não parece gente má. Mas puseram fogo nas mesquitas, nas escolas, em nós…” Os radicais islâmicos seriam responsáveis por 75% das mortes de civis – a Otan, por 16% delas. Sobre as demais, não se sabe.

No marastoon (abrigo, em dari) onde Abdul vive agora, em Cabul, há 378 vítimas do conflito. São viúvas, órfãos, deficientes físicos e mentais – dois em cada três afegãos sofrem de transtorno de estresse pós-traumático, um distúrbio psíquico que se manifesta como consequência da violência que dura mais de três décadas consecutivas, desde o início da ocupação soviética, em 1979.

Com a saída da URSS, uma década depois, o Ocidente perdeu o interesse pelo Afeganistão. Armados até os dentes, os sete comandantes das forças de resistência antissoviéticas, divididos em etnias, voltaram-se uns contra os outros, e o país mergulhou em uma guerra civil. A violência e o caos criaram o ambiente propício para a ascensão do Taleban, filhos de refugiados do regime soviético, criados e treinados para a jihad nas madrassas do Paquistão.

Guerrilheiros tajiques, usbeques e hazaras reunidos na Aliança do Norte, sob comando do lendário Ahmad Shah Massud, formaram a única força coesa de oposição aos radicais islâmicos, predominantemente pashtuns. Até 2001, os opositores controlavam pelo menos 10% do Afeganistão – grande parte do norte e o Vale do Panshir. São essas mesmas etnias que estão sendo agora armadas pela Otan.

* Matéria publicada no especial dos dez anos do 11/9 no Estadão.