Mais pressão dos EUA, mais apoio aos aiatolás

Mais pressão dos EUA, mais apoio aos aiatolás

adrianacarranca

14 de setembro de 2007 | 17h42

A reza de sexta-feira é o mais importante evento religioso da semana no Irã. No tocante à fé, é equivalente à missa dominical para os católicos. Mas, em um estado teocrático, onde religião e política se misturam, é também o momento quando os líderes desde a Revolução Islâmica, de 1979, sobem ao palanque para transmitir mensagens nas quais o povo deve se guiar – ou, no mínimo, têm a chance de saber para onde o país caminha. Quando este líder é o aiatolá Ali Khamenei, suas palavras soam como lei aos ouvidos dos iranianos e repercutem mundo afora.

Foi assim, hoje, quando o líder supremo comparou Bush a Hitler e Saddam e pediu que o presidente americano seja julgado num Tribunal Internacional pela ‘catástrofe’ no Iraque. Ao afirmar que os Estados Unidos usaram o 11 de setembro para tentar atingir seus objetivos de domínio na região, Khamenei fala ao coração de todos os iranianos.

Ao contrário do que se pensa, os iranianos não têm nada contra os americanos – em 13 dias de pereguinação pelo País, não ouvi de ninguém, progressista, moderado ou conservador, palavras minimamente raivosas sobre o povo dos Estados Unidos. Mas, querem distância de seus líderes.

Altamente politizados, eles culpam a CIA por depôr o então presidente Mohammad Mossadegh, um herói nacional eleito diretamente, quando o país avançava para a plena democracia, que Bush hoje defende para legitimar a invasão no Iraque. Mossadegh foi deposto após nacionalizar o petróleo. Também se ressentem dos Estados Unidos por apoiar, durante a guerra entre Irã e Iraque, o mesmo Saddam Hussein que, mais tarde, Bush derrotou com a guerra.

Por isso, os iranianos não confiam em Bush. Durante uma visita ao País, uma coisa fica clara e me foi confirmada por unanimidade pelos especialistas com quem conversei, inclusive reformistas seculares: quanto mais pressão os Estados Unidos fizerem contra o Irã, mais unirá o país. “Os Estados Unidos deveriam atrair o Irã e não o contrário”, me disse o pacifista iraniano Emadeddin Baghi. Leia a entrevista aqui. Muitos lutam pela separação de Estado e igreja e são contra os aiatolás no poder, mas será do lado deles que ficarão contra a ameaça externa.

Fotos: o lado feminino da reza, na Universidade de Teerã, ao qual tive acesso na sexta-feira, 3 de agosto

Leia aqui o Dossiê Irã

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