Meio conservador, meio de esquerda (dia 5)

adrianacarranca

25 de janeiro de 2011 | 23h07

Jonny, um argentino simpático de 33 anos, foi o nosso fiel guia nos primeiros dias em Israel. Bolsa a tiracolo, chinelão de dedo, bermuda, cabelão e barba por fazer, ele tem o perfil típico do que se imagina dos jovens judeus, de todas as partes do mundo, que inspirados por ideais socialistas migraram para os kibutz de Israel e, com o trabalho e a vida comunitária, ajudaram a erguer o Estado judaico.

Mas Jonny não é socialista e o kibutz onde ele vive foi privatizado. Hoje, funciona como uma empresa capitalista qualquer. Os funcionários recebem salários e, se quiserem viver com a família nas casas antes comunitárias, podem agora alugar ou comprá-las. Jonny aluga a menor delas e mora sozinho no kibutz.

Os ideais socialistas do início ficaram para trás, em algum lugar remoto da história do movimento sionista.

Jonny defende a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia, o uso da força militar por Israel, ainda que isso resulte em muitas baixas civis – como ocorreu em 2008, na Faixa de Gaza – e acredita que os palestinos não tenham um Estado porque “não souberam lutar por isso”.

Na classificação local, Jonny é um conservador de direita. Isso, na política. Na religião, ele se diz um liberal. Pelo menos, está à esquerda dos ortodoxos – embora reze todas as manhãs. É um meio conservador, meio de esquerda (como diria o amigo e cronista Antonio Prata).

O motorista da van em que seguimos com Jonny para visitar Cesarea era um jovem palestino muçulmano – que se apresentara a Jonny como cristão. O segurança particular, desnecessário mas obrigatório para grupos grandes de turistas em Israel, segundo Jonny, era druso (movimento originado do islã, mas não considerados muçulmanos por muitos).

Os árabes em Israel somam 1,5 milhão ou 20% da população – cerca de 270 mil que vivem em Jerusalém e têm apenas a residência israelense permanente estão incluídos nessa conta. Entre esses 1,5 milhão, mais de 80% são muçulmanos e os demais dividem-se entre cristãos e drusos.

Nosso motorista muçulmano vive em Taiba, cidade israelense onde há 37 mil árabes – e nenhum judeu. O segurança mora em uma vila drusa, Daliat El-Carmel. Há separação também entre as comunidades judaicas de diferentes linhas. Há o bairro onde vivem os seculares, outro para os ortodoxos, os ultraortodoxos, os judeus sefaradim, os ashkenazi, os mizrahi, os africanos…

“Se você conseguir entender a sociedade israelense nos próximos dias, me explica, porque eu estou há anos tentando e não consigo!”, resume Jonny.

Israel é uma sociedade de contrastes, ao mesmo tempo democrática e segregada; onde todos vivem juntos, mas desmembrados em comunidades; em que cada grupo pode opinar, mas quase ninguém concorda e, na falta de consenso (o que é muito democrático, aliás), é impossível aprovar a Constituição. Uma nação judaica onde ultraortodoxos podem ser também anti-sionistas (sim, há ultraortodoxos são anti-sionistas, como os Naturei Karta, recebidos em 2006 no Irã pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad, o inimigo número 1 de Israel que já chegou a negar o Holocausto). Enfim, um Estado meio conservador, meio de esquerda.

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