“Não queremos a Irmandade Muçulmana”, diz escritor egípcio, em entrevista ao blog Pelo Mundo

adrianacarranca

30 de janeiro de 2011 | 13h40

Pela primeira vez em seis décadas – desde a Revolução de 1952, que derrubou a monarquia e transformou o Egito em uma república -, Bahaa Taher se sente novamente esperançoso. “Não estou feliz com a situção, mas esperançoso”, disse, em entrevista ao blog Pelo Mundo. “Os jovens estão nas ruas, querem mudança, há de novo um sentimento de unidade nacional. Você sabe há quanto tempo eu não sentia isso no meu Egito?”

Ele me conta de sua própria juventude, no fim dos anos 1950, quando era ainda um estudante de literatura na Universidade do Cairo. “Nós queríamos construir uma nação, a nação egípcia. Foi um momento de grande produção cultural. Os egípcios estavam inspirados, confiantes no futuro, esperançosos”, diz Taher. Ele ajudou a fundar o movimento literário que inspirou autores como o Nobel de Literatura Naguib Mahfouz. “Mas esse regime, a miséria, a falta de liberdade causaram muito mal para o povo egípcio. A sociedade se desintegrou.”

Essa desintegração e a insatisfação latente levaram Taher a ser o primeiro a traduzir O Alquimista, de Paulo Coelho, para o árabe – uma tradução não autorizada, diga-se, que incomodou o autor brasileiro, mas os dois acabaram amigos, segundo Taher. Não que o escritor egípcio de língua afiada considere O Alquimista um bom livro ou Paulo Coelho um bom autor, mas “o povo precisava recobrar a esperança e Paulo fala de algo que une a todos, de uma ordem divina que rege o universo, independentemente de religião. Ele fala ao coração das pessoas e isso é muito tocante para os que estão desesperados”, disse Taher, em nosso primeiro encontro, em 2007, na charmosa livraria Diwan, no Cairo, onde passa as tardes lendo ou escrevendo em uma mesa reservada para ele. “Se a literatura é capaz de levar esperança, que seja.”

Aos 75 anos, dos quais 14 exilados graças à sua participação em movimentos de esquerda, Taher é uma das mais respeitadas vozes no Egito contra as violações do regime de Mubarak. Ele falou com o blog de sua casa em Zamalek, no Cairo, por telefone.

Como o sr. vê a situação atual no Egito?
O que está acontecendo me faz lembrar aquele conto do marujo Simbad, que vivia em uma ilha magnífica até que começou a afundar. E afundou porque não era uma ilha, mas o dorso de uma baleia. O Egito está afundando porque não é o que os líderes tentavam fazer o mundo acreditar. Há muito tempo os egípcios estão insatisfeitos, desesperados com a situação de miséria e falta de perspectiva. A baleia voltou a se movimentar.

O sr. acredita que Mubarak pode renunciar?
É difícil dizer, mas é importante deixar claro que esse é um movimento civil e não político. Os jovens querem mudanças, melhores oportunidades, educação, liberdade.

Qual é o papel da oposição, da Irmadade Muçulmana, no levante popular?
Nenhum! Isso é o que o governo quer que vocês pensem. Mubarak tem se mantido no poder graças a esse medo do Ocidente de que, se ele sair, o Egito cairá sob um regime islâmico. Nós não queremos isso! Não queremos a Irmandade Muçulmana! Você anotou isso? Não queremos a Irmandade Muçulmana!

Quem seria um candidato forte para o lugar do Mubarak?
Não temos ninguém. Não há oposição forte no Egito. Há décadas a oposição é oprimida pelo regime. É isso o que tem de mudar. É preciso fortalecer as instituições egípcias, garantir liberdade política, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade de escolha. Por isso a populacão está nas ruas.

Qual é a situação nas ruas?
O clima é de esperança, de unidade. Há alguns problemas, estão dizendo muitas coisas, mas são casos isolados. O povo está nas ruas para protestar apenas. O importante é que o governo permita que os protestos continuem pacificamente.

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