Notícias do Haiti

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adrianacarranca

29 de março de 2010 | 21h18

Saí de férias e fui parar no Haiti. Já está se tornando patológica essa mania de dar uma “esticadinha” até o Irã (2007), o Afeganistão (2008) e agora Porto Príncipe, capital haitiana, depois de um curto período de descanso. Valeu a pena. Sempre vale, quando se faz o que gosta.

No meu caso, me interesso mais por visitar os lugares quando outros jornalistas já foram embora. É quando as pessoas submetidas a tragédias como nestes países mais se sentem desprotegidas – e, muito provavelmente, estão, já que o montante em doações costuma ser proporcional ao espaço que a desgraça ocupa na imprensa. C’est comme ça, como diz a elite haitiana que fala francês. É também quando o cotidiano começa a se reorganizar e se pode ver a vida como ela é, longe dos holofotes das câmeras dos canais de TV internacionais.

Publico aqui, a partir de hoje, impressões, histórias e reportagens desse cotidiano, quase 3 meses depois do terremoto que matou 230 mil pessoas e abalou a estrutura do país como nunca antes. 

Agradeço a quem puder entrar nessa discussão!

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ATRASO EM RECONSTRUÇÃO AGRAVA DRAMA HAITIANO

Zona portuária de Porto Príncipe

À distância, o Haiti tornou-se uma espécie de estandarte da cooperação internacional para ajuda humanitária, na reconstrução do país arruinado pelo terremoto de 12 de janeiro.  Um olhar aproximado sobre as ruas da capital, Porto Príncipe, no entanto, revela a falência de um sistema que, apesar dos dólares e recursos humanos já empregados, ainda não fez muito mais pelos haitianos do que distribuir sacos de arroz e tendas (em número insuficiente, diga-se), enterrar 230 mil cadáveres em valas comuns e prestar o socorro emergencial que salvou muitas vidas, mas – por falhas na organização – criou uma nação de amputados e não impediu outras tantas mortes nas semanas consecutivas à catástrofe.

O Haiti é uma ferida aberta no corpo das Nações Unidas.  Com o apoio do secretário-geral, Ban Ki-moon, o presidente haitiano, Rene Préval, apresentará quarta-feira, na sede da organização, em Nova York, um plano de 250 páginas para reerguer o país dos escombros.  Com ele, tentará convencer as 60 nações doadoras a assinar um cheque de US$ 3,9 bilhões, a ser usado nos próximos dois anos em soluções provisórias à situação crítica atual – a reconstrução mesmo, com novos hospitais, escolas, prédios públicos, portos e aeroportos, sob rigoroso código de obras e edificações a fim de evitar futuras catástrofes, demandaria U$ 11,5 bilhões e dez anos, nas contas da ONU.

Como e por quem o dinheiro será empregado ainda não se sabe.  A Conferência Mundial para a Reconstrução do Haiti, na República Dominicana, foi adiada para junho.  Se nada for feito, até lá a temporada de chuvas, em abril e maio, terá levado consigo barracas improvisadas, o que restou das casas ainda equilibradas sobre frágeis pilares e mais vidas.  Na semana passada, a primeira tempestade desde o terremoto inundou Citè Soleil e transformou em imenso lamaçal os quase 500 campos de desabrigados espalhados por Porto Príncipe, onde 1 milhão vive sem água, o esgoto corre a céu aberto e os relatos de estupros durante a noite se acumulam.

Era como se os santos do vodu estivessem mandando um aviso sobre o que está por vir.  “A hora que as águas vierem, vão levar tudo isso aí”, diz o coronel Faulstich, comandante do Brabatt 2, batalhão agregado às forças brasileiras no Haiti duas semanas atrás.  Sobre os escombros do Forte Nacional, ele aponta para Bel Air, uma das áreas mais afetadas da capital, onde estão a Catedral, o palácio do governo, os ministérios, o Legislativo e o Judiciário, as universidades e a antiga penitenciária, tudo ainda em ruínas.  “Há muitos mortos aí embaixo porque nada dos escombros foi retirado. Aqui não se fala em reconstrução”, diz o coronel.

Na favela de Bel Air, 70 dias após a tragédia, a população tenta reorganizar a vida entre pilhas de entulhos – o lixo que se acumula, sem coleta desde o terremoto – e ossos.  Um crânio entre as grades retorcidas de um terraço partido ao meio, uma cruz de madeira aqui, outra ali, marcando onde há corpos enterrados, não deixam esquecer a tragédia.  Tampouco a letargia da resposta à ela.

Além da segurança, os militares brasileiros estão trabalhando no único assentamento cuja localização já foi definida pelo governo do – a terraplenagem de forma a evitar alagamentos, e somente isso, será concluída no fim de abril.  Ninguém sabe dizer quando as barracas de estrutura mais firme e com piso serão colocadas.  Outros quatro assentamentos prometidos para a temporada de chuvas e furacões não têm previsão de início.

Os militares criticam a desorganização das ONGs que, por sua vez, apontam o dedo para Préval, que segue despachando de um galpão improvisado na frente do aeroporto, e segundo fontes locais enfrenta dificuldades diante das pressões políticas e do setor privado – “as 20 famílias ricas do Haiti” – com interesses na reconstrução.  “Os recursos humanos estão aqui, o dinheiro não falta.  Temos maquinário para fazer as casas, hospitais, escolas e material para funcionar.  O que falta é decisão política”, desabafa Arnaldo San Ramán Ollo, chefe da delegação da Cruz Vermelha espanhola no Haiti.

É difícil descrever o olhar dos haitianos diante desse vazio.  Há muita gente contemplando o nada e crianças vagando, sem ter o que fazer, porque as escolas não voltaram a funcionar.  “Há dificuldade de espaço nos campos e ONGs para dar aulas”, disse ao Estado o porta-voz do Unicef no Haiti, Simon Ingram.  Na previsão dele, antes de setembro, início do ano letivo, não haverá local para os professores sobreviventes lecionarem – estima-se que mais de 500 deles, do ensino básico e fundamental, tenham morrido.

Hospital Universitário

No Hospital Universiário, o mais movimentado da capital, destruído pelo terremoto, milhares de feridos e amputados esperam em macas sob tendas no jardim que o tempo cure suas feridas.  As equipes estrangeiras de emergência deixaram o Haiti há um mês e é raro ver médicos e enfermeiros no loca.  “Nós estávamos lá para fazer as cirurgias de urgência e atender os casos mais graves.  Mas, já deixamos o local.  Não podemos cuidar de todos”, disse uma fonte da Médicos Sem Fronteiras.

Para muitos, o terremoto expôs a fragilidade do governo haitiano e da missão da ONU, no país desde 2004.  “O desastre retirou o véu de hipocrisia de todos os poderes e evidenciou a incapacidade da comunidade internacional, que tantos anos e dólares depois, não conseguiu fazer nada aqui.  Os haitianos são um reservatório de esperança em uma nação dominada por uma elite distante e corrupta que não responde ao povo”, diz Pablo Mella, padre jesuíta.  “O presidente Lula deveria renunciar à tentação do protagonismo internacional pessoal e retirar o apoio à missão da ONU.  

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CIDADE DOS MORTOS

Titanyan

Uma cruz negra no vasto descampado de Tatanyan, na periferia de Porto Príncipe, é o único sinal de que sob aquelas terras estão 230 mil corpos recolhidos das ruas da capital dias após o terremoto.  A imensa vala comum foi aberta pelos militares brasileiros onde antes havia um lixão, quilômetros distante da cidade, a pedido da ONU, por causa do risco de epidemias e contaminação.

Mas aos corpos seguiram milhares de sobreviventes haitianos em busca de identificação de seus parentes ou, simplesmente, para despedir-se dos que se foram – influenciados pelas tradições do vodu, os haitianos consideram os rituais do velório e enterro importantes para ajudar na passagem do espírito até Deus.

Foi assim que 4 mil desabrigados da capital descobriram Titanyan, onde sobreviventes dividem as terras com os mortos.  “Há muito espaço aqui e água de um lago, então, toda essa gente foi ficando porque não tem par onde voltar”, diz Salia Derrine, de 52 anos.  Funcionária do governo, ela trabalhava como faxineira na Universite d’Etat, mas desde o terremoto que derrubou sua casa e colapsou o sistema educacional do país ela não recebe salário.  Sem ter onde morar, mudou-se com os filhos Sejour e Remy, de 30 e 35 anos, para junto da cova do marido, morto na tragédia.

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GOVERNO SUSPENDE DOAÇÃO DE COMIDA

Distribuição de comida em Cité Soleil

Apesar dos esforços em ajuda humanitária ao Haiti, mais da metade da população afetada pelo terremoto não está recebendo comida e não tem o suficiente para sobreviver, segundo as Nações Unidas. Ainda assim, o presidente, René Préval, determinou a suspensão da entrega de alimentos à população a partir de 1.º de abril, sob a justificativa de que afeta o comércio local.

Com 70% dos haitianos desempregados, as famílias dependem em grande medida do trabalho informal.  Se já era assim antes do terremoto, agora que todo o comércio foi ao chão, incluindo lojas, supermercados e quitandas, as ruas de Porto Príncipe tornaram-se um imenso mercado a céu aberto.

A produção nacional, porém, é insuficiente para alimentar a todos.  E há pouquíssimo dinheiro em circulação porque não há trabalho.  Escolas e universidades, serviços públicos e grande parte das empresas não voltaram a funcionar.

Em barraquinhas improvisadas na frente do que antes foi a sua casa ou local de trabalho, uns se viram com pequenos bicos.  Outros sentam-se no chão à espera de um punhado de arroz, que para muitos não chega.

As ONGs destacadas pelas Nações Unidas intensificaram a distribuição, em sacos de 50kg, e não mais de 25kg como antes, para que não sobre comida nos galpões do Programa Mundial de Alimentação.  Em março, 1,5 milhão de pessoas receberam arroz, mas ainda há alimentos para mais 1 milhão.

A comida é dada a quem consegue pegar a senha, entregue um dia antes por uma entidade do bairro.  O problema é que, exceto pela condição de um saco por família, não há critério de escolha. Moradores de Citè Soleil dizem que a associação local privilegia congregados – no Haiti, paga-se mensalidade às entidades de bairro, em troca justamente de benefícios.  O comando militar brasileiro já flagrou entidades vendendo senhas pelo equivalente a R$ 7 cada.  “O ideal é cadastrar as famílias e destinar a entrega aos mais necessitados.  Mas, na correria…”, diz Allister Clewlow, chefe de segurança alimentar da Samaritans.

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PARA LEMBRAR
O Haiti foi atingido por um terremoto de 7 graus na escala Richter em 12 de janeiro às 16h53 locais.  O governo haitiano estimou o número de mortos entre 217 mil e 270 mil, e o de desabrigados em 1 milhão.  O tremor causou grandes danos na capital, Porto Príncipe, destruindo o palácio presidencial e ministérios.

* Textos publicados na edição impressa de O Estado de S.Paulo

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