“Islã vive uma de suas mais profundas crises”, diz xeque da Al-Azhar

“Islã vive uma de suas mais profundas crises”, diz xeque da Al-Azhar

adrianacarranca

09 de fevereiro de 2015 | 17h16

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“Não existe um Estado islâmico”, diz o xeque Abdel-Ghani al-Hindi, porta-voz dos imãs da milenar Universidade Al-Azhar, no Egito, a mais antiga e prestigiada instituição de ensino do Islã, com 42 mil alunos de 110 países. Em entrevista ao Estado, concedida em duas etapas – a primeira em seu escritório, no Cairo, e a segunda por telefone, após a morte do piloto jordaniano Moaz al-Kasasbeh, que apareceu em vídeo divulgado na terça-feira sendo queimado vivo por extremistas do Estado Islâmico (EI) -, Abdel-Ghani qualifica o grupo de “satânico” e suas ações como “barbárie”, diz que seus combatentes são “infiéis” por “contradizerem Alá”. Além disso, ele acusa a Arábia Saudita de disseminar o extremismo, com uma interpretação literal das escrituras, que rejeita visões reformistas e inspira grupos jihadistas. Para ele, o Islã vive “uma das mais profundas crises de sua história”, “um conflito entre as as escrituras (o entendimento literal do Alcorão) e o intelecto (a interpretação de estudiosos do Islã)”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A Al-Azhar condenou a execução do piloto jordaniano, mas ações como essa estão sendo feitas em nome do Islã por um grupo que se diz na liderança de um Estado islâmico no Iraque e na Síria. Como o sr. vê isso?

A Al-Azhar condena fortemente a ação terrorista e covarde contra o piloto jordaniano, assim como outras barbáries desse grupo satânico. O grande imã da Al-Ahzar telefonou pessoalmente para o rei da Jordânia para expressar condolências e convocou a comunidade internacional a confrontar os terroristas. São eles infiéis porque contradizem os dizeres de Alá. O Islã proíbe a execução de inocentes, mesmo nas guerras contra inimigos. Se uma sociedade decide cortar as mãos de um ladrão, é porque entende que assim deve ser – e não porque o Islã ensina.

Qual é a sua visão em relação ao Estado Islâmico?

Não existe um Estado islâmico. No Islã, não está previsto nada como o que esse grupo propõe ou como o que acontece no Irã, em que o líder religioso é o líder do Estado. O Islã não tem uma igreja. Não temos um líder único, um papa, e não temos um Vaticano. O profeta não propunha um Estado religioso, mas uma sociedade em que os ensinamentos de Deus fossem seguidos por muçulmanos, cristãos ou judeus de acordo com seu entendimento comum e não porque um líder qualquer os impõe.

Como a comunidade internacional deve lidar com o EI?

Acredito que não exista uma só forma melhor de lidar com uma ameaça como o EI. No curto prazo, precisamos tentar contê-lo ao máximo com o uso da força. Essa medida, porém, nunca será suficiente, a menos que se combata a raiz do problema. E isso começa por entender o que tem atraído tantos seguidores para o grupo.

Por que o sr. acha que o EI tem atraído tantos jovens?

Martin Luther King disse certa vez que a injustiça em um lugar qualquer representa uma ameaça à justiça em todos os lugares. Eu acredito nisso. Lidar com o EI é como lidar com as drogas. De um lado, você precisa usar a força contra os traficantes e produtores, mas, enquanto houver demanda, o mercado sempre se ajustará e encontrará formas de manter a oferta para atendê-la. O mesmo deveria se aplicar ao extremismo e ao fanatismo, seja religioso, nacionalista ou racista.

O sr. quer dizer que injustiça é a raiz do extremismo?

Não. O extremismo é um erro, assim como as Cruzadas em nome do cristianismo.

O que leva ao extremismo?

O problema é que, nos últimos 200 anos, os sauditas têm propagado as crenças de Ibn Taymiyyah e Ibn Abd al-Wahhab (fundadores do salafismo e do wahabismo), que defendiam uma leitura textual do Alcorão, desconsiderando a premissa de compreender os textos dentro dos contextos em que foram escritos. O salafismo e o wahabismo trazem visões fundamentalistas e, muitas vezes, errôneas do Islã, porque ignoram estudos para o melhor entendimento do significado das escrituras. Mesmo para os que têm o árabe como primeira língua é difícil compreender textualmente as escrituras ancestrais, porque o idioma se modificou. Há um verso no Alcorão dizendo que a Terra é “elíptica”, mas a mesma palavra pode ser traduzida como “plana”.

O Islã vive uma crise?

Sim, uma das mais profundas crises de sua história. O conflito hoje é entre as escrituras (o entendimento literal do Alcorão) e o intelecto (a interpretação de estudiosos do Islã).

O sr. sugere que o Islã propõe a separação entre Estado e religião, mas a influência política da Al-Ahzar no Egito é grande…

Somos uma universidade egípcia e localizada no Egito, voltada para o conhecimento humano do Islã. Como outros países de maioria muçulmana, o Egito consulta a Al-Ahzar sobre o que acha correto para a sociedade. Por exemplo, a nova Constituição do Egito prevê liberdade religiosa – e a Al-Ahzar ratificou a Carta.

* Uma versão deste texto foi publicado na edição impresa do Estado do dia 9/02/2015

Foto: Cairo, Egito. Adriana Carranca/ AE