Obrigada, pai!

Obrigada, pai!

adrianacarranca

09 de agosto de 2009 | 11h28

Na sala de espera do consultório de um dermatologista, um homem de uns 40 anos lia uma revista, enquanto o filho, de uns 10 anos, zanzava pela recepção. O menino senta ao lado do pai:

– Pai, vai demorar?
– Não

Minutos depois…

– Pai, a mamãe já vem?
– Ahã

Mais alguns minutos…

– Pai…
– Ela já vem, sim! Já, já! Agora, fica quietinho.

Tirei os olhos do meu livro para ver o que fazia aquele pai de tão urgente e importante que não podia ser adiado para dar atenção ao filho, visivelmente entediado na ante-sala de um consultório médico.

Sentado com as pernas cruzadas, de costas para o menino, o pai lia atentamente uma conhecida revista de celebridades. Uma revista de celebridades! E eu fiquei pensando que tipo de mensagem aquele garoto, ainda em fase de formação de caráter, registraria em seu subconsciente sobre o episódio em que o pai sinaliza que a vida de celebridades desconhecidas é mais importante para ele do que estar com o filho.

A mãe sai da sala do médico de cabeça baixa e atravessa o corredor sem olhar para a criança, ao que o marido pergunta:

– Onde foi dessa vez (o Botox)?
– Aqui, aqui, aqui, aqui e aqui – respondeu, apontando o canto dos olhos, as bochechas e os lábios vermelhos e inchados.

Os três saíram, em silêncio.

*

Não me recordo, em toda a minha vida, de não ter tido pai. Percorri as memórias do passado, desde a infância, sem me lembrar de um momento sequer em que tivesse coisa mais importante a fazer quando pedi a sua atenção. Seu tempo ocupado, no trabalho, era para a família. Seu tempo livre, em casa, era com a família. E ele parecia feliz assim.

Nunca usou a falta de dinheiro como pretexto.

Sábado era dia de feira. Sem lugar para estacionar o velho Chevette, às vezes ficávamos no carro enquanto mamãe comprava o necessário para a semana. Passávamos o tempo brincando. De encontrar palavras em letreiros, anúncios e placas na rua. De criar histórias (ele soltava uma frase, eu dava continuidade a ela, depois ele, eu e assim por diante). Ah! Tinha o jogo da memória. Vencia quem conseguisse lembrar-se do maior número de palavras de certa categoria – entre animais, cores, objetos, frutas, flores, nomes de filme etc. – e que começasse com letral tal. Assim, ajudou a me alfabetizar no calorão do Chevette com bancos pretos de plástico e sem ar condicionado.

Se não podia comprar brinquedo, fabricava um. O mais elaborado foi um complexo tabuleiro de palavras cruzadas. O que demandou maior paciência, o dominó de madeira pintado com giz de cera. Ou, talvez, as peças numeradas da tombola (bingo, em italiano) que jogávamos em família, com tios e primos, todos os domingos, depois do tradicional macarrão feito em casa. As crianças se colocavam uma ao lado da outra e com os braços esticados na frente da máquina manual de cortar massa, para segurar os fios quilométricos que, como toda autentica italiana, a minha avó não deixava partir. E assim passávamos o domingo inteiro.

Nunca fiquei sem presente de aniversário, dia das crianças, Natal. E poucas vezes ganhei brinquedos fora dessas datas, o que dava ainda mais sabor àquelas ocasiões. Jamais soube o que iria ganhar – ou recebi o que seria – de antemão. Meu pai gostava de fazer suspense. Escondia os presentes para que adivinhássemos o que era e onde estava, às vezes com bilhetinhos, outras com dicas verbais e outras ainda com complicadas instruções, como se fossem um mapa da mina, o que fazia qualquer singelo presente parecer a mais rara preciosidade.

Quando descobri os patins de rodinhas – o primeiro presente caro de que me lembro – escondidos no armário, atrás das roupas da minha mãe, eu fingi que nada tinha visto. Durante dias ensaiei a cara de espanto que faria ao abrir o embrulho deixado na árvore de Natal por Papai Noel, porque não queria estragar a surpresa. E quando já não acreditava na existência do velhinho de barba branca, preferi fingir acreditar. Era aquele ritual lúdico, a fantasia, o que importava. O valor estava nos momentos divididos, na convivência, e não nas coisas.

Os domingos de manhã eram reservados para a praia. Praia mesmo, com direito a construir castelinho de areia, pular ondas, mergulhar do alto de seus ombros, pegar jacaré, desbravar uma ilha (que era sempre a mesma, mas ele fazia parecer uma nova aventura a cada domingo), contar conchinhas. Não dava tempo de pensar em pastel, sorvete, refrigerante; quando vejo, hoje, as crianças na praia pedirem essas coisas aos pais, que acabam por ceder para não serem “importunados”, me dá vontade de dizer a eles que tempo precioso estão perdendo. Os adultos ficam mais burros lendo suas revistas de celebridades e as crianças engordam enquanto a vida passa despercebida.

Se o tempo não era para praia, arrumava-se o que fazer: passear pelo calçadão de Santos, olhar os navios, observar os pescadores da Ponta da Praia, brincar na Fonte do Sapo, visitar o aquário municipal, atravessar de barquinha até o Forte da Barra, ver o ‘poço da Branca de Neve’ no orquidário, dar milho aos pombos na Biquinha, brincar com os saguis do Horto Municipal… Eram tantas as possibilidades! E, para todas, assim como com os presentes, ele fazia suspense. Principalmente, quando saíamos de Santos de trem, meu passeio predileto. Perdi as contas de quantas vezes vi a cama de José de Anchieta, em Itanhaém. O que importava não era o destino, mas o tempo vivido, da preparação (a minha mãe sempre fazia um lanchinho) ao percurso de ida e volta.

Nas noites de sábado ou domingo, depois do lanche da tarde, o programa era fazer pipoca ou torrar amendoim, abrir uma caixa de bombons e outras bobagens (permitidas somente no fim de semana) e sentar na mesa da cozinha ou da sala para jogar dominó, cartas etc. ou ver TV. Qualquer beijo de novela o fazia mudar de canal, sob protestos: “Veja se está certo, essa hora, quando as crianças ainda estão acordadas, passar cena dessas”. A lembrança, hoje, me faz rir. Seu programa preferido era a olimpíada de estudantes, que nós disputávamos paralelamente tentando responder às perguntas antes dos participantes.

Nos dias de semana, ele fazia questão de que estivéssemos todos reunidos à mesa pelo menos no jantar. Até mesmo com seus defeitos me ensinou a viver. E meu pai tinha muitos – mas, todos largamente mais prejudiciais a ele próprio do que à família. Era um homem preocupado, nervoso, culpado por não conseguir dar para a gente mais do que seu minguado salário de protético permitia. Por isso, dizia: estude, tenha força de vontade, seja independente!

Para me motivar, à noite, lia comigo enciclopédias – os livros eram muito caros. Quando vinham as notas, me recompensava pelas mais altas: 10 valia algo como R$ 2 hoje (me lembro de conseguir comprar balas na padaria com o que ganhava, às vezes um gibi), nota 9 seria R$ 1,50, nota 8 valia R$ 1 e nota 7 algo como R$ 0,50. Qualquer coisa abaixo disso demandava, no mínimo, uma explicação, quando não uma bronca.

Meu pai se foi no dia 16 de março de 1994, aos 56 anos. Deixou saudade. Mas, não o sentimento de que o nosso curto tempo juntos fora mal aproveitado.

Obrigada, pai! Simplesmente por ter sido pai.

(p.s. – Esse texto se aplicaria da mesma forma se substituída a palavra ‘pai’ por ‘mãe’, mas isso é outra história, que eu deixarei para escrever no dia delas. Por enquanto, obrigada, mãe! Simplesmente por ser mãe)

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