Oito anos após invasão dos EUA, afegãos vão às urnas como em 2001: analfabetos, miseráveis e mergulhados em violência

Oito anos após invasão dos EUA, afegãos vão às urnas como em 2001: analfabetos, miseráveis e mergulhados em violência

adrianacarranca

18 de agosto de 2009 | 16h41

Os afegãos irão às urnas na quinta-feira pela segunda vez em sua história, nas mesmas condições em que se encontravam na primeira eleição presidencial realizada no país em 2001: analfabetos, miseráveis e mergulhados em violência.


Foto: Crianças vivem em precárias tendas, sem nada, nos campos de refugiados. Adriana Carranca/AE

Oito anos após a invasão americana e apesar das mais de 40 nações desenvolvidas e detentoras de tecnologia, poderio militar e milhões em dólares no país, nada mudou no cenário político-econômico do Afeganistão. Visto como ineficiente e acusado corrupção, o presidente Hamid Karzai é o favorito, o ópio domina 50% da economia e os Taleban continuam fortes – como mostraram hoje no mais sangrento ataque contra um combio militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e em ataques com mísseis que atingiram o Palácio Presidencial. O grupo voltou a dominar 72% do país.


Foto: As minas terrestres, tanto as deixadas pelos russos há 30 anos quanto as novas, ainda fazem duas vítimas por dia no Afeganistão. Adriana Carranca/AE

Os estrangeiros e seu aliado Karzai apontam o dedo para os rebeldes. Mas, nada fizeram para mudar a situação dos pobres afegãos. Para eles, se houve mudança, foi para pior. Mais de 70% dos potenciais eleitores não sabem ler ou escrever o próprio nome. Entre as mulheres, o analfabetismo atinge 82% delas.


Foto: Afegã pede esmola nas ruas de Cabul. Adriana Carranca/AE

Isso, oito anos após a invasão americana. Oito anos, vejamos, é o período da educação básica. Tivessem cumprido as falsas promessas de reconstrução do país e investido na educação, os EUA e nações aliadas poderiam ter mudado toda uma geração.


Foto: Na única escola para meninas de Cabul, elas estudam ao relento. Adriana Carranca/AE

Eu estive lá, entre novembro e dezembro, e não acredito que qualquer afegão ordinário ficaria do lado dos Taleban se tivessem visto suas vidas melhorarem com a graça dos estrangeiros – cuja chegada, aliás, foi celebrada pela maioria em 2001. Mas, é assim que os afegãos vêem seu país hoje: a Otan é ineficiente e perigosa, o governo (qualquer governo) fraco e corrupto e as agências humanitárias inúteis.

Nessas eleições, tudo indica que nada irá mudar. Uma pena.

*

Veja o relato do repórter Lourival Sant’Anna, enviado especial a Cabul para a cobertura das eleições presidenciais afegãs 2009.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.