“Ops, erramos!”, dizem os Taliban após seqüestro de agentes humanitários

adrianacarranca

18 de dezembro de 2008 | 18h25

Jornalistas e agentes humanitários estão proibidos de circular pelo Afeganistão via estrada. Tratando-se de um estrangeiro, o seqüestro é quase tido como certo. Os Taliban têm ‘olheiros’ nas principais rodovias – e, as demais, sem asfalto, são impossíveis de trafegar por longas distâncias. Eles avisam sobre a presença de estrangeiros pelo rádio ao comando, que aprova ou não a ação.

Além de uma estratégia para criar um clima de insegurança e de falta de controle do governo no país (o que, a essa altura, não parece apenas propaganda, mas a pura realidade), eles descobriram a fonte lucrativa dos seqüestros. Nesse exato momento, dezenas de estrangeiros e afegãos estão sendo mantidos pelos Taliban. Fala-se em U$ 7 milhões pela cabeça de um jornalista americano desaparecido há um mês.

ÉTICA TALIBAN
Mas, sim, eles também têm a sua ética. Em setembro, o grupo seqüestrou quatro funcionários do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a organização humanitária mais antiga no país, em uma estrada próxima à província de Wardak, a uma hora de Cabul. Três dias depois, o comandante dos Talitan em Wardak, Hamijullah, declarou que o seqüestro foi um “engano” e, além de soltar as vítimas, pediu desculpas formais à organização.

Entre os seqüestrados, estava o chefe da segurança do CICV, um simpático macedônio que eu tive o prazer de conhecer em Cabul. Ele garante que foi bem tratado, com “água e comida” em uma casa nas montanhas, e não sentiu medo. Ele conhece bem os Taliban.

Protegido pelas leis humanitárias internacionais, o CICV mantém uma posição neutra em áreas de conflito. O objetivo da organização é garantir que sejam respeitados por todos os lados, não importa quem sejam, as regras humanitárias mesmo no meio de uma guerra. É o CICV quem negocia com o governo americano para que mantenha condições humanas e padrões mínimos de justiça na prisão militar de Bagram, onde milhares de afegãos ainda são mantidos sem julgamento. Por outro lado, é também o CICV quem negocia com o Taliban pela liberdade e vida de seqüestrados. Em agosto, foi a organização que facilitou a liberdade de sul-coreanos mantidos por mais de um mês pelos Taliban – dois foram mortos, mas 21 saíram com vida.

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