“Os afegãos não gostam dos Taleban”

“Os afegãos não gostam dos Taleban”

adrianacarranca

20 de agosto de 2009 | 16h20


Foto: Lourival Sant’Anna/AE

Quem quer que vença as eleições presidenciais realizadas hoje no Afeganistão pouca diferença fará na vida dos afegãos. Se nem 40 nações ricas, desenvolvidas e com poderio militar conseguiram, nos últimos oito anos, garantir a segurança ou melhorias na qualidade de vida da população, não será em um mandato que a situação irá mudar. Não no país mais pobre do mundo, com instituições falidas, infra-estrutura das mais precárias, políticos afogados em corrupção e poderosos senhores de guerra e das drogas dividindo o comando das províncias com os radicais Taleban. Falta tudo no Afeganistão.

Mas, essa noite, quando acompanhava a cobertura das eleições pelas TVs internacionais, vi acender uma luz no fim do túnel durante entrevista do
comandante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o general americano Stan McChrystal. Em entrevista ao editor de política internacional da BBC, John Simpson, o novo comandante, há apenas dois meses no Afeganistão, disse que irá adotar nova a estratégia no conflito.

“O que precisamos fazer é corrigir os erros da nossa forma de operar no passado”, diz. Entre os erros, largamente denunciados pelos afegãos e que, todos sabem, empurram muitos para o lado dos terroristas, estão bombardeios indiscriminados que mataram milhares de civis nos últimos anos e a prisão de suspeitos sem julgamento e com direitos limitados de contato com a família, mantidos na base militar de Bagram.

Em uma das reportagens que fiz quando estive lá escrevi:

“Segundo a ONU, 2.118 civis morreram no fogo cruzado em 2008; no ano anterior foram 1.523 – um crescimento de 40%. Os Taleban foram responsáveis por mais da metade das mortes. Os mais de 3,5 mil ataques aéreos lançados no ano passado pelas forças de coalizão mataram 455 civis. Na percepção dos afegãos, eles estão largados à própria sorte. Se por um lado se revoltam com o terrorismo dos Taleban, de outro não entendem por que seu governo, apoiado por 62 mil soldados estrangeiros, não é capaz de protegê-los. (…) Cada civil atingido pelas forças de coalizão aumenta o abismo entre população, governo e estrangeiros.”

No lugar disso, o general quer “ajudar” os afegãos a se livrarem dos Taleban por eles próprios. Isso, como eu já coloquei nesse blog, deve necessariamente incluir programas que levem qualidade de vida para o povo afegão, como infra-estrutura, geração de renda, saúde e educação, além da proteção de civis, crucial para a boa relação entre afegãos e as forças de segurança contra um inimigo comum: os Taleban.

“Vamos vencer quando conseguirmos nos conectar com a população a um ponto em que eles mesmos, finalmente, digam: basta! Os afegãos não gostam dos Taleban”. Mas, também não confiam nas forças de coalização. Se o general conseguir fazer com que essa percepção mude, realmente, a luz no fim do túnel realmente se acenderá. Veja a entrevista (em inglês) aqui.

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Ouça aqui o relato do repórter Lourival Sant’Anna, enviado ao Afeganistão para a cobertura das eleições presidenciais.

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