Por que não é possível prevenir genocídios?

Por que não é possível prevenir genocídios?

adrianacarranca

07 de agosto de 2007 | 20h56

DARFUR

Oito facções de rebeldes reuniram-se com o governo sudanês e o oficial da Organização das Nações Unidas, Jan Eliasson (foto), para negociar a paz em Darfur. O encontro de 4 dias, patrocinado pela ONU, em um hotel na Tanzânia, terminou hoje. Novas discussões serão realizadas em 3 meses. Na semana passada, o Conselho de Segurança (CS) autorizou o envio de uma força de paz com 26 mil homens para proteger civis no País. Mas, esta só deve estar pronta em um ano.

O avanço nas negociações de paz chega 4 anos após o início dos conflitos, que já contabilizam 200 mil mortos – organizações humanitárias estimam chegar a 400 mil – e 2,1 milhões de desabrigados, que hoje lotam os miseráveis campos de refugiados.

Por que a comunidade internacional demora tanto a reagir frente ao primeiro genocídio do século 21?

Em busca de resposta, encontrei na Internet 2.010 artigos acadêmicos sobre o assunto. Uma simples pesquisa no Google News pelas palavras “Darfur & genocide” traz outros 2.115 links para uma ou mais reportagens, somente em inglês. O YouTube tem 2.550 vídeos sobre o genocídio,
Foto: IrinNews

A decisão do CS se baseia no Capítulo 7 da Carta das Nações Unidas, que prevê o uso de força militar para estabelecer a paz internacional, quando esgotadas outras possibilidades. No caso do Sudão, sanções econômicas foram ineficientes. Entre outras coisas, empresas americanas foram flagradas driblando as sanções, através de suas subsidiárias, como mostra reportagem da Revista Fortune.

A China, que explora petróleo no Sudão, foi acusada de fornecer armas ao País e de tentar protelar as decisões do CS, do qual é membro permanente. A autorização da força de paz foi dada sob a condição de que novas sanções não fossem aplicadas ao País. A atitude da China fez com que ativistas lançassem a campanha “As Olimpíadas do Genocídio” para chamar a atenção do mundo, durante os jogos de 2008, às violações dos direitos humanos financiadas por Pequim.

Em 2005, os países membros da ONU aprovaram o princípio de “responsabilidade de proteger” civis vítimas de atrocidades. Se um governo não o faz, a comunidade internacional deve interceder. O mesmo encontro criou o Conselho de Direitos Humanos. Em maio de 2006, líderes sudaneses assinaram acordo de paz com rebeldes. E entidades humanitárias em Darfur cansaram de alertar para o seu descumprimento.

Na prática, não se fez nada.

DARFUR
Fotos: Brian Steidle

Enviado ao País em 2004, o oficial americano Brian Steidle, autor do livro The Devil Came on Horseback fala sobre a sua frustração e impotência ao ver helicópteros decolarem cheios de armamento para as milícias patrocinadas pelo governo.

Mesmo quando oficiais da União Africana sabiam data e local de uma ação dos Janjawid nenhuma atitude era tomada. Prevaleciam os processos burocráticos, como relata Steidle ao Guardian. Ele alertou o comando da missão sobre um ataque na vila de Hamada, mas não foi ouvido. Dias depois, 107 dos 450 moradores foram “torturados e mortos. Corpos estavam espalhados ao longo de trilhas de sangue. Bebês tinham sido esmagados”. Steidle voltou para os Estados Unidos com mais de 1 mil fotos, exibidas no Museu do Holocausto. E quer levar seu livro para o cinema, na linha de Hotel Rwanda. Será mais um filme sobre uma catástrofe que o mundo assistiu e não evitou.

DARFUR
Foto: IrinNews

Os conflitos em Darfur explodiram em 2003, quando sudaneses não-árabes se rebelaram contra o governo do Sudão por marginalizar a região onde vivem. Milícias árabes financiadas pelo governo (Janjawid) foram acusadas, desde então, de aterrorizar essas comunidades, queimando vilas, violentando, torturando e matando homens, mulheres e crianças.

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