Por quem os sinos dobram?

Por quem os sinos dobram?

adrianacarranca

13 de agosto de 2009 | 03h00

Por algum motivo, despertei ontem com os sinos da Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Fica a algumas quadras da minha casa, mas poucas vezes o trânsito da Avenida Ibirapuera me permitiu ouvir aquele som. Notívaga, abri os olhos devagar, ainda zonza de sono naquele começo de dia, com os primeiros raios de sol entrando pelas frestas da janela.

Me lembrei de uma das imagens mais lindas que guardo na memória. Eu estava no Egito para o casamento de uma amiga. No quarto de hotel, no Cairo, era acordada todas as manhãs pelo ‘Azan’ (chamado para a reza) que ecoa das mesquitas cinco vezes ao dia – a primeira, antes do sol nascer. E eu ia até o terraço, com vista para o Nilo, para ver o começo de mais um dia ao som daquele canto islâmico lindo. Com a alma tranqüila, voltava para dormir.

Em viagens, costumamos dar mais atenção a detalhes e ao que nos parece diferente. Daí que nunca tinha me dado conta de que nós temos o mesmo nesse Brasil predominantemente católico. Os sinos das igrejas, assim como o canto islâmico, chamam os fieis para a reza. Aos domingos, sete vezes, para as sete missas realizadas na paróquia aqui perto de casa.

Somos todos iguais, não é, não?

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Nas cidades pequenas, os sinos ainda tocam para anunciar a morte de alguém. E me lembrei do livro de Ernest Hemingway, Por Quem Os Sinos Dobram, romance sobre a tragédia da Guerra Civil Espanhola, mas que trata sobretudo da solidariedade humana. Nessa vida de repórter, muitas vezes me perguntei de que serve relatar tragédias, em especial as distantes de nós, como o Afeganistão. Escrevo sempre com a preocupação de tentar mostrar o que é que a gente tem com isso – eu e você, leitor.

Me fiz a mesma pergunta, ontem, no aniversário de 60 anos das Convenções de Genebra, que tratam dos direitos e deveres de combatentes e governos em conflitos, como a proteção de civis, prisioneiros, feridos, médicos e integrantes das organizações de ajuda humanitária nos campos de batalha. Apesar dos esforços, não há muito o que comemorar. Dados do Comitê Internacional da Cruz Vermelha apontam que na Primeira Guerra Mundial, a proporção de mortes de civis era de um para cada dez soldados. Na Segunda Guerra Mundial, passou a ser um para um. Hoje, o quadro se inverteu, com dez civis mortos para cada soldado.

E o que eu e você temos com isso?

A resposta está nas palavras de John Donne, poeta inglês do século 16, citadas no livro por Hemingway:

“Nenhum homem é uma ilha, isolada em si (…). A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. Por isso, não pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”.

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Nas fotos, uma igreja que visitei em Parati e a vista do hotel no Cairo.

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