Por uma cidade (quase) sem carros

Por uma cidade (quase) sem carros

adrianacarranca

25 de março de 2011 | 12h57

Morar fora tem suas vantagens e desvantagens. Estou em Londres há 6 anos. O maior motivo para continuar aqui é a facilidade de viajar pela Europa, conhecer pessoas diferentes, estar constantemente exposta a diversas correntes de pensamento, experimentar novas formas de viver e continuamente aprimorar meus conhecimentos profissionais. Nesse blog, pretendo dividir com vocês as minhas experiências por essas terras, do outro lado do Atlântico. Compartilhar as minhas observações sobre um mundo tão diferente e ao mesmo tempo tão igual, com um olhar crítico de brasileira e especialista em meio ambiente e desenvolvimento, é uma das minhas formas de retribuir à sociedade todo apoio que recebi da minha família, amigos, professores, patrocinadores e empregadores ao longo dos anos.

Uma das grandes diferenças da vida aqui em Londres é a questão do transporte público. A maior parte da população se locomove diariamente por metrô, trens, ônibus e bicicletas. Só no metrô são dois milhões de passageiros diariamente. Aqui o uso de carros particulares é muito menor do que em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro – onde grande parte da população vai trabalhar de carro, muitas vezes com apenas o motorista. O contraste na qualidade de vida ao poder optar por formas de transporte publico seguras e confiáveis é imensurável.

Hoje existem no mundo cerca de um bilhão de carros particulares nas ruas, e a estimativa é de que esse número será de dois bilhões em poucas décadas. A importância de novas formas de transporte para que as pessoas consigam se locomover sem carro particular nas cidades, como os esquemas de alugueis de bicicleta ou compartilhamento de carros, é um dos temas principais do relatório Megacidades em Movimento (tradução livre para Megacities on the move), lançado no final do ano passado.

Por muito tempo as campanhas para formas alternativas de transporte eram associadas apenas aos ambientalistas que defendem a redução da emissão de dióxido de carbono no transporte como um dos principais pilares do combate a mudança climática. Entretanto, este é apenas um dos benefícios. Menos carros nas ruas, menor o número de doenças causadas por poluição e, consequentemente, os gastos com saúde pública. Uma reportagem do Guardian chama a atenção para o fato de que a poluição do ar causa mais ataques cardíacos do que o uso de cocaína. Além disso, ao caminhar até o ponto de ônibus ou metrô mais próximo, ou utilizar bicicletas para ir trabalhar e fazer compras, as pessoas se tornam menos sedentários e mais saudáveis.

Em Londres, a abordagem da política pública para substituição de carros por meios alternativos de transporte vai desde o pedágio urbano de £8/dia (aproximadamente R$27/dia) a campanhas publicitárias com o slogan “Meu outro carro é um ônibus”. As empresas do setor privado também são incentivadas a fazer a sua parte. As leis aqui dão abatimento no imposto de renda para empresas que implantem chuveiros e bicicletários no local de trabalho para encorajar os funcionários a utilizarem bicicletas para trabalhar.

Além de trabalhar na área ambiental há anos, nunca fui uma grande fã de carros e sou apaixonada por bicicleta. Então me adaptei facilmente à vida sem carro. Por opção, não tenho carro, ao invés disso participo do Streetcar. Esse é um esquema de aluguéis de carros, similar ao esquema de bicicletas, onde pago somente pelas horas que utilizo o veículo. Eventualmente uso o streetcar para buscar amigos ou familiares no aeroporto ou fazer algum passeio de um dia pelos arredores da cidade.

Além de não ter que empatar dinheiro comprando um carro, não tenho que me preocupar em pagar seguro nem IPVA (aqui tem um imposto equivalente); não tenho que fazer revisão; não tenho que me lembrar de calibrar o pneu ou me preocupar onde vou estacionar. Em Londres, como a maioria dos prédios são muito antigos, são poucos os apartamentos com garagem. Por isso a maioria das pessoas estaciona na rua. Achar vaga perto de casa é uma dificuldade a parte. O melhor de tudo é não ter mais que passar horas e horas em engarrafamentos, o que acontecia comigo diariamente quando morava no Rio de Janeiro.

Atualmente, moro a cerca de 20 km do meu trabalho, em um bairro afastado, mas posso planejar o meu percurso casa/trabalho de forma quase que cronometrada. Quando vou trabalhar de trem, levo 50 minutos de porta a porta e uso meu tempo para ler o jornal ou um bom livro. Quando vou trabalhar de bicicleta, levo 90 minutos de porta a porta, incluindo o tempo para tomar banho no trabalho; e aproveito a jornada para me manter em forma.

O transporte público aqui é tão organizado que para se saber o tempo que para chegar do ponto A à B, basta acessar a página de planejamento de jornada do Transporte de Londres, escolher o ponto de partida e o destino e selecionar o tipo de transporte publico desejado, incluindo ônibus e bicicletas. Claro que, às vezes, o metrô atrasa e o ônibus quebra, mas de uma forma geral, na maioria dos casos, dá para confiar. A tranquilidade de saber quanto tempo você vai levar para chegar no trabalho, em uma festa, ou de volta para casa é uma das grande vantagens de se viver na Europa!

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Isabela Souza vive em Londres, onde é professora de mestrado do Birckbeck College e trabalha no departamento de Sustentabilidade e Mudança Climática da PwC como Gerente Global da Aliança para o Clima e o Desenvolvimento (CDKN). Formada em engenharia, Isabela tem mestrado em meio ambiente e desenvolvimento pela London School of Economics e MBA em Gestão Ambiental pela FGV, e soma mais de dez anos de experiência na área.
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