Quanto vale uma vida? E muitas vidas?

Quanto vale uma vida? E muitas vidas?

adrianacarranca

20 Julho 2007 | 22h30

Protesto em Congonhas

Estudiosos de grandes tragédias partem de um princípio básico: o de que elas poderiam ter sido evitadas. Com os avanços tecnológicos, que permitem prever a chegada de um furacão ou a ocorrência de um tsunami, já não são exceção è regra nem mesmo os desastres naturais. Estes, não podem ser impedidos, mas ter seus efeitos devastadores minimizados.

Muitas das mais de 230 mil mortes provocadas pelo tsunami que atingiu o Oceano Índico em dezembro de 2004 poderiam ter sido evitadas se os países pobres da costa tivessem um sistema de alerta, como o financiado pelo rico Japão no Oceano Pacífico. O Furacão Katrina, que arrasou a cidade americana de New Orleans, em agosto de 2005, talvez não tivesse causado tantas mortes se os diques tivessem sido reforçados, como havia tempo alertavam os técnicos às autoridades locais e federais.

Não existem sequer explicações econômicas para o descaso, já que o sistema de alerta de tsunamis no Índico custaria em torno de U$ 60 milhões, uma pequena fração dos U$ 5 bilhões que foram necessários, segundo estimativas do Banco Mundial, em ajuda humanitária para socorrer os sobreviventes do desastre. Consertar os diques também teria saído mais barato aos cofres americanos do que os bilhões estimados para a reconstrução de New Orleans e assistência aos desabrigados. E muitas vidas – estas sim, de valor inestimável – teriam sido salvas.

As duas tragédias foram citadas no último relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) que apontou como medida urgente e necessária para garantir a segurança humana: vontade política. Ponto.

É o que falta para solucionar a crise no setor aéreo brasileiro. Ou o que explicaria a falta de investimentos no setor de aviação de uma das dez maiores economias do mundo? Independentemente das causas do acidente com o vôo 3054 da TAM, existe uma crise no setor aeroviário. Há muito não são construídos novos aeroportos ou os antigos, ampliados e modernizados, embora a demanda no setor cresça 12% ao ano, como lembrou o colunista do Estadão, Carlos Alberto Sardenberg, no Jornal da Globo, ontem. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê R$ 3 bilhões para 20 aeroportos do país, em quatro anos, enquanto estima-se que seriam necessários R$ 40 bilhões, sendo R$ 7 bilhões apenas para os aeroportos paulistas, como informou Sardenberg.

Mas, foi preciso acontecer mais um acidente aéreo para que o governo federal apresentasse um pacote de emergência . Modernizar a aviação brasileira – aeroportos, torres de controle, pessoal e o que mais for necessário – pode não impedir que falhas humanas ou mecânicas nas aeronaves ocorram, mas minimiza os riscos e pode, sim, evitar tragédias. Estas, são sempre causadas por uma combinação de fatores – o tsunami e a falta de um sistema de alerta, o Katrina e a fragilidade dos diques e por aí vai. Teria sido possível parar a aeronave da TAM ou minimizar o impacto da colisão e, assim, salvar vidas, se as condições da pista fossem mais adequadas ou se o pouso tivesse ocorrido em outro aeroporto, como de Guarulhos? Além das causas do acidente, as investigações terão de responder também a estas perguntas. Técnicos afirmaram, hoje, à imprensa, que é possível pousar sem o reverso da aeronave, mas não em uma pista como a do Aeroporto de Congonhas.

Também não se pode esquecer que é a Agência Nacional de Aviação a responsável por regulamentar o setor, impedir que sejam formados monopólios que corroem a qualidade do serviço e fiscalizar as companhias aéreas, impedindo negligências na manutenção dos equipamentos ou no treinamento de pessoal ou outros abusos motivados pelo lucro em detrimento da segurança pública.

Foto: NIELS ANDREAS/AE