Retórica, islamofobia e anti-semitismo (dia 6)

adrianacarranca

26 de janeiro de 2011 | 15h40

Fui ao Government Press Office, mais especificamente no serviço de imprensa estrangeira em Jerusalém. Para atravessar aos territórios palestinos é preciso obter antes uma autorização especial de imprensa do governo de Israel.

Na sala pequena, chama a minha atenção uma charge emoldurada e colocada como um quadro na parede. Nela há dois soldados israelenses de um lado; de outro, dois militantes do Hamas, grupo que controla a Faixa de Gaza.

Um militar israelense diz para o outro:
Havia uma família (palestina) inteira ali, uma família! Como você pode atirar neles?

Um militante do Hamas diz para o outro:
Havia uma família (israelense) inteira ali, uma família! Como você pode errar o alvo?

Era só uma piada de mal gosto, mas aquilo me chocou. Se está ali, para qualquer jornalista estrangeiro ver, é porque já não se pretende esconder o sentimento nacional que coloca judeus e árabes muçulmanos em lados opostos, separados por uma fronteira moral instransponível.

Se os judeus acreditarem realmente que os palestinos querem simplesmente exterminá-los, nunca haverá um acordo de paz possível. Esqueça as questões de território, religião, passado. A única maneira de garantir a “sobrevivência” seria acabar com o “risco”, ou seja, com o “inimigo”.

Trata-se de uma prerrogativa perigosíssima, que pode ser usada para justificar quaisquer violações, leis discriminatórios, reações militares desproporcionais – como na Faixa de Gaza, em 2008 -, a islamofobia. Ao mesmo tempo, a reação israelense passa a ser usada pelos extremistas radicais – do Hamas e extremistas islâmicos como o Army of Islam, o regime do Irã – para justificar o anti-semitismo, os ataques terroristas.

Muitos em Israel concordam que a guerra de 2008 foi um erro estratégico. Esse tipo de ação militar, onde há muitos mortos civis e tamanha destruição, além de violar leis internacionais, só dá mais força ao grupo extremista no controle, nesse caso o Hamas. Há até quem diga que o objetivo dos foguetes Qassam é esse: provocar Israel.

Em dez anos, esses foguetes mataram 15 pessoas no lado israelense e uma guerra que, em três semanas, deixou 1,6 mil mortos do lado de Gaza. Principalmente, fez aumentar o ódio dos que ali vivem contra o governo de Israel e, talvez, o suporte ao Hamas. É como dar um tiro no pé.

Por isso, estou com aqueles que defendem o caminho do diálogo, da cooperação, dos investimentos para dar suporte aos moderados, do desenvolvimento da economia com maior distribuição, da integração de fato dos árabes israelenses à sociedade. Isso só faria isolar os radicais.

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