Rio: beleza, tiros de fuzil, drogas e compaixão

adrianacarranca

24 de janeiro de 2008 | 13h48

Passei o Réveillon no Rio. Mais do que isso, no alto do Pão de Açúcar, cartão-postal da que considero uma das cidades mais espetacularmente lindas do mundo – eu e toda a torcida do Flamengo, como se diz. Ansiosa para ver os fogos iluminarem o céu e a vista que se desenrolava à minha frente, debrucei-me sobre o peitoral e esperei a meia-noite chegar. Dois minutos antes do previsto, começou o espetáculo. Vi o que queria e o que não esperava. No meio do colorido, um pontilhado vermelho rasgava o céu de um morro até uma altura maior do que os fogos alcançavam.

– O que é aquilo? – perguntei, apontando para o pontilhado vermelho.
– Meu Deus, o que é aquilo? São tiros. Tiros de fuzil com balas ‘traçantes’. Só pode ser. Caramba! É o que os caras usam em situações de guerra, para atacar e ao mesmo tempo visualizar a posição do inimigo – respondeu o meu marido, que reserva pelas armas e guerras nada além da curiosidade tipicamente masculina, que fique bem claro.

Chamamos os amigos. O primeiro, não deu bola. A segunda, olhou com certa curiosidade e logo em seguida voltou-se novamente para o lado – não queria perder os fogos, que estavam realmente muito bonitos. Na terceira tentativa, com um casal, deu-se o seguinte diálogo:

– O que? Ali? Ah, é. São tiros. Acho que é do Dona Marta.
– Que Dona Marta, você enlouqueceu? Daqui não dá pra ver o Dona Marta, que fica em Botafogo.

E seguiu-se uma discussão sobre a identificação correta da vista sob nossos olhos. Nenhuma palavra mais sobre os tiros. Nenhum sinal de espanto. Nada.

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A aparente apatia – ou, eu diria, resignação – dos cariocas diante da violência quase me causou mais espanto do que os tiros de fuzil. Assim como centenas de crianças fazendo todo tipo de trabalho passam despercebidas aos olhos dos motoristas nos faróis de São Paulo diariamente, a violência tornou-se tão cotidiana no Rio que já não causa mais surpresa ou indignação.

Acabados os fogos, fomos todos dançar ao som da bateria da Mangueira. Sem saber que tiros lançados para o alto, como os que vimos, desceram sobre as areias de Copacabana a 2km de distância, atingindo seis inocentes que celebravam o Réveillon na praia mais famosa do mundo.

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E não me saía da cabeça a imagem do autor dos disparos, possivelmente um jovem pobre, mas agora poderoso, peito de fora e camisa sobre a cabeça, sorrindo com um fuzil nas mãos ao celebrar a chegada de 2008, para o qual certamente também fez seus pedidos e lista de resoluções, como todos nós. O que será que um traficante, dono de uma boca num Rio loteado pelo tráfico, protagonista de um mundo paralelo que desafia os poderes e intimida toda uma cidade deseja para o ano-novo? Talvez, simplesmente, chegar até o fim daquele ano e poder celebrar com seu fuzil e boas vendas (sim, porque para ele o tráfico é tão somente um negócio) mais um Réveillon ainda vivo.

É uma visão romântica, mas, com o merecedor desconto de uma noite de Réveillon, tempo de refletir, quando todos nós ficamos mais sensíveis. Os pensamentos, de qualquer modo, duraram segundos. E acordei do estado de imersão com o forte cheiro de maconha que vinha de um grupo de dois rapazes e uma moça que dividiam um baseado após olhar para o mesmo céu pontilhado pelos fogos e tiros, sem se dar conta, prefiro acreditar, do quanto tinham parte naquele cenário.

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A primeira vez que ouvi alguém dizer que havia deixado as drogas porque não queria “contribuir com a morte de crianças diariamente cooptadas pelo tráfico para trabalharem de avião (aqueles que correm o risco descendo o morro para vender a droga para a classe média, que deixou de subir o morro por medo)”, veio de uma carioca, ex-integrante do movimento hippie “paz e amor” que acreditava no efeito terapêutico da maconha, que ela usava com freqüência até então. A decisão me pareceu absolutamente sensata.

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Há muito tempo, o debate sobre as drogas deixou de ser uma questão moral e passou a ser uma questão de convivência (ou seria sobrevivência?) em sociedade, de cidadania e eu diria até de compaixão (segundo dicionário Aurélio, sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem, acompanhado do desejo de minorá-la).

Quem consome está contribuindo com o tráfico. Ponto. E muito mais do que isso: com o enriquecimento ilícito de barões do colarinho branco; com a corrupção, que faz dos portos e fronteiras brasileiros uma rede aberta onde tudo passa, de cocaína a armas, e também faz chegar às mãos dos traficantes fuzis e metralhadores de uso exclusivo do Exército e das polícias; com poderosos contrabandistas; com o fortalecimento das facções criminosas e da matança que assola o Rio e outras capitais brasileiras.

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Resumiria-se o problema aos viciados, que precisam urgentemente de tratamento em instituições públicas, hoje inexistentes, o que é um absurdo, uma vez que as drogas já não atingem somente as classes média e alta, mas hoje também grande parte dos jovens de periferia, muitos dos quais, sem tratamento, ingressam na criminalidade para sustentar seu vício, como constatou em São Paulo a Promotoria da Infância e Juventude após analisar processos de adolescentes internados na Fundação Casa. Cria-se um círculo vicioso.

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A questão da liberação do comércio – que muitos utilizam como bengala para justificar o consumo – é assunto demasiadamente complexo e que precisa ser discutido com seriedade e análise de todas as conseqüências, configurando-se, portanto, apenas uma possibilidade de longo prazo. Há controvérsias sobre seu sucesso até mesmo na Holanda, que se tornou símbolo da liberalização das drogas. E ainda que não existisse polêmica, a transferência de qualquer política norte-sul não carrega consigo garantia de sucesso, dadas as diferenças culturais, sociais, econômicas e políticas de cada região.

E iniciei o ano mergulhada nesses pensamentos, entristecida com um Rio tão lindo e ao mesmo tempo tão maltratado e angustiada com uma sensação enorme de incapacidade diante do tamanho do problema visto do alto do Morro da Urca.

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