Síndrome de Jerusalém (dia 7)

adrianacarranca

27 de janeiro de 2011 | 01h09

Quando ouvi falar pela primeira vez da Síndrome de Jerusalém achei que fosse piada. Caracterizada por sintomas que vão desde “ideias religiosas obsessivas” até “visões e comportamento psicótico”, o fenômeno mental atinge visitantes da Terra Santa, independetemente da religião.

Turistas cristãos, judeus e muçulmanos já foram diagnosticados com a doença, que se manifesta durante a estadia em Jerusalém e, na maioria dos casos, some quando o acometido volta para casa. Há casos gravíssimos registrados, como o de um australiano que, sofrendo da síndrome e acreditando ser o messias, colocou fogo na mesquita de al-Aqsa. Difícil mesmo acreditar.

Eu só acreditei de fato na existência da tal síndrome quando atravessei, pela primeira vez, os muros altos que cercam a antiga Jerusalém. Impossível ficar imune a ela, seja você religioso ou ateu. Como não ser afetado de alguma forma ao ouvir, do telhado de uma igreja católica maronita com vista para o Domo da Rocha, onde Abraao teria se preparado para sacrificar o filho Isaac, segundo os judeus, e a Igreja do Santo Sepulcro, onde Cristo teria sido crucificado e enterrado, de acordo com a fé cristã, o chamado da reza dos muçulmanos que ecoa das mesquita al-Aqsa, de onde Maomé teria ascendido aos céus, como acredita o islã? Tudo junto, ao mesmo tempo.

É muita informação para uma agnóstica como eu. E, a certa altura da visita, eu caí no choro. Tive vontade de chorar ao ouvir o chamado muçulmano para a reza. Chorei ao testemunhar jovens judias, aos prantos, no Muro Ocidental (chamado de muro das lamentações). E, mais uma vez, ao ver cristãos, um a um, ajoelharem-se para colocar as mãos em um buraco de terra onde teria sido fincada a cruz em que Cristo foi pregado e sangrou até a morte.

Meu choro, porém, não tinha nada de divino. Era muito real. Só o que eu conseguia pensar, diante da história viva na presença daqueles marcos religiosos, era como, ao longo de milênios e até os dias de hoje, essa mesma fé pode fomentar tanto ódio e incitar tantas guerras, mortes e destruição? Meu choro não era de fé, mas de descrença. Não em Deus, mas na Humanidade.

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