Testemunha de um assalto

adrianacarranca

10 de março de 2009 | 17h01

A caminho de casa, percurso no qual já sofri dois assaltos, presenciei um terceiro, ontem, por volta de 20 horas. Vítima profissional que virei, saquei logo a intenção dos dois jovens quando saíram de trás de uma árvore – um permaneceu na esquina e o outro se aproximou do farol. O alvo, no volante de um Corsa, dois carros na minha frente, rendeu-se logo à ameaça do garoto em sua janela e entregou-lhe a bolsa, com a qual os dois saíram caminhando tranquilamente. Liguei para o 190.

– Emergência
– Eu acabei de presenciar um assalto, no último farol da Avenida Sumaré, sentido Avenida Henrique Schaumann. Eram dois jovens e saíram caminhando para o viaduto sob a Sumaré. Um estava provavelmente armado, pois a vítima abriu o vidro e entregou-lhe a bolsa muito rapida…
– Senhora! Senhora! Um minuto! A senhora presenciou um assalto?
– Isso! Isso!
– Qual o endereço?
– Último farol da Avenida Sumaré, quase chegando na Henrique Schaumann…
– Mas, qual número, senhora?

Número, que número?

– Da rua? Não dá para ver, pois agora o farol já abriu e há uma praça. Não dá para ver o número das casas ali. Mas é no último farol da Avenida Sumaré.
– A senhora não tem o número?
– É no último farol da Avenida Sumaré, quase chegando na Henrique Schaumann, no sentido de quem vem da zona norte. Não tem erro. É muito simples: o último farol da Avenida Sumaré para quem segue sentido Henrique Schaumann. Tenho certeza de que os policiais vão encontrar.

Digo, iriam, pois os garotos já deviam estar bem longe, ainda que a pé.

– Isso seria zona sul?

E vi a minha esperança de cidadã perder-se assim como a bolsa da pobre mulher, mas continuei:

– Acho que isso seria zona sul, pode-se dizer que sim…
– E o viaduto, qual o nome do viaduto?
– Não seeeeeeeei! É uma rua que sai do último farol da Avenida Sumarééé!
– Uhm… A senhora falou que eram jovens. Mas, jovens quanto?
– Não seeeeeeei! 17 ou 18 anos. Eram altos…
– Altos, mas que altura mais ou menos?

Meu Deus, como eu vou saber? Eu estava sentada no carro! Mas, fiz um esforço. Me lembrei da altura em que a cintura do garoto batia na janela do Corsa, pensei na minha própria altura e fiz um cálculo rápido.

– Acho que 1,70 ou talvez 1,80
– Que roupa um deles vestia?
– Os dois estavam de cal…
– Senhora! Senhora! Um-de-ca-da-vez.

Os dois vestiam a mesma roupa, meu Deus!

– Ok. Um estava de camiseta vermelha e bermudão…
– Que cor o bermudão, a senhora se lembra?

Já havia se passado tanto tempo… Nesse momento, me distraí com a voz, ao fundo, de outra atendente:”Senhora! Minha senhora! Mas, a pessoa que a ameaça está aí com a senhora nesse momento?”. E pensei que, se estivesse, a pobre senhora já estaria morta, coitada. Voltei resignada à questão da bermuda:

– Não lembro, talvez cinza. Mas, o outro tinha um bo…
– Vou mandar a viatura dar uma averiguada no local.
– Mas, o outro gar…
– Tu, tu, tu, tu…

E, então, entendi porque os jovens tinham saído a pé, com a bolsa roubada, caminhando tão tranquilamente pelo meio dos carros e na calçada.

*

TESTEMUNHA DE UM ASSALTO 2
Eu morava em Londres, num apartamento térreo sem venezianas ou grades, apenas um vidro separando sala e quarto da rua. Assistia TV quando ouvi um barulho e fui espiar o que era. Quatro ou cinco jovens arrombavam a porta do carro do vizinho, estacionado sob a minha janela. Me abaixei para não ser vista e disquei 999.

– Polícia ou ambulância? E qual o endereço?

A resposta foi passada, via sistema, para a viatura mais próxima.

– A viatura já está a caminho. Agora me diga o que aconteceu.

E antes mesmo que desligasse, tive de pedir desculpas à atendente porque o interfone tocava. Eram dois policiais.

– Termine de contar a eles o que viu. Não é preciso repetir o que me disse, pois as informações já foram passadas aos oficiais via sistema enquanto falávamos.

Eles confirmaram algumas informações, vistoriaram rapidamente o carro, certificaram-se com o vizinho de que nada havia sido furtado e, a meu pedido, vasculharem o quintal e a rua de trás e se despediram:

– Outras viaturas estão avisadas e vasculham a área. Obrigada por chamar a polícia. Sabemos que é difícil lembrar-se de tudo, mas com um detalhe aqui e outro ali, uma hora conseguimos identificá-los. E fique tranquila. Faremos ronda na região durante toda a madrugada. Se perceber qualquer coisa estranha, ligue novamente.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.