Um mundo mais completo

Um mundo mais completo

adrianacarranca

14 de outubro de 2007 | 16h57

Fiquei longe do blog por alguns dias, em grande parte por falta de tempo, mas também graças a um inevitável período de introspecção que me acomete após cada viagem. Resultado de um choque de cultura que, acredito, todo mundo tem, em menor ou maior escala (no meu caso, muito maior), ao ser submetido a um turbilhão de informações e experiências novas. Fui ao Irã conhecendo muito pouco sobre o país e voltei com a sensação de saber menos ainda.

Por isso, nas últimas semanas, mergulhei em livros na tentativa de encontrar respostas aos tantos questionamentos que trouxe sobre uma sociedade tão complexa. Assim como uma grávida lê tudo o que chega às suas mãos sobre bebês e assuntos relacionados, eu já havia, nos meses de gestação dessa viagem, lido muito sobre Irã. Mas, assim como dizem sobre ter filhos, ‘nunca se está preparado para uma experiência como essa’. Nunca se está preparado para um país como o Irã.

Na volta, tive uma espécie de depressão pós-parto, com o nascimento à minha frente de um outro mundo, que eu antes desconhecia. “Não existe ‘outro mundo’. Só conheço aquele que experienciei”, escreveu Jalal Al-Din Rumi, o poeta persa. Por isso, viajar para ‘novos’ mundos, seja fisicamente ou através dos livros, é tão importante para que se possa expandir o ‘seu’ próprio mundo. Passada a fase da introspecção, volto a este blog mais feliz por ‘meu’ mundo agora incluir uma certa Pérsia, antes inexistente para mim.

PARA SABER MAIS
Iran Awakening (sem tradução para o português), da iraniana Nobel da Paz 2003, Shirin Ebadi, um dos mais completos e impressionantes relatos sobre a história recente no Irã, mesclando a própria vida de Shirin com os acontecimentos no país.

Iran, The essencial guide to a country on the brick (sem tradução para o português), da Enciclopédia Britânica

Lendo Lolita em Teerã, da iraniana Azar Nafisi, professora de literatura que criou um círculo literário em sua casa, após ser expulsa da universidade e em uma época em que os livros estrangeiros, principalmente, americanos e ingleses foram banidos das salas de aulas, livrarias e bibliotecas. Além de comparações impensáveis entre personagens dos livros e da sociedade iraniana pós-Revolução Islâmica, Azar faz uma declaração de amor à leitura.

Iran, da Lonely Planet, um guia de viagem que, além de ser o mais completo que encontrei, traz muito sobre a história e a cultura iraniana

Persépolis, livro de história em quadrinhos, de Marjane Satrapi

Livros indicados por leitores:
Criação, de Gore Vidal. Ciro, o protagonista, é neto do profeta Zoroastro (fundador do zoroastrismo, religião monoteísta da antiga Pérsia que alguns historiadores acreditam ter influenciado o judaísmo, o cristianismo e o islã) e sai em busca de respostas sobre a origem do mundo.

Livro Verde dos Princípios Políticos, do líder da Revolução Islâmica, aiatolá Khomeini

Descobrindo o Irã, de Ivonete Pinto

A Conferência dos Pássaros, de Fariddudine Attar, com duas traduções em lígnua portuguesa, uma editada pela Cultrix/Pensamento e outra pelas Edições Dervish.

Poesia
Jalal Al-Din Rumi (poesia) – existem diversas coletâneas de poesias de Rumi, traduzidas para o inglês e algumas para o português. O site britânico www.rumi.org.uk é um bom começo.

Jami e Hafez (ou Hafiz) são outros dois poetas persas indispensáveis, mas não encontrei livros deles por aqui. Na Internet, existem diversos sites com suas obras.

Notícias na Internet*:
Tehran Times, publicado por um órgão do governo
Iran Daily, publicado pela agência oficial de notícias Irna
Jamejan Online, diário governista
Iran News Daily
Iran Focus
Mehr News
Islamic Republic News Agency
Iranian Students News Agency
Farsi News, ligada ao judiciário
Press TV, rede de televisão e Internet financiada pelo governo

* Muitos jornais reformistas foram fechados ou não têm site em inglês

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Revendo fotos e anotações, separei mais algumas outras informações que gostaria de compartilhar, terminando assim (finalmente, tenho certeza que muitos irão pensar) a série de postings sobre a viagem.

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QUEM TEM MEDO DE SHIRIN EBADI?

Em minha passagem pelo irã, entrevistei a Prêmio Nobel da Paz 2003 Shirin Ebadi, que dedicou a vida à defesa dos direitos das mulheres e de perseguidos políticos. Seus clientes mais recentes incluem Haleh Esfandiari, iraniana de 67 anos que vive nos Estados Unidos e visitava a mãe em Teerã quando teve seus documentos roubados e, posteriormente, foi presa e mantida em uma solitária por 110 dias até ser solta em 21 de agosto. Esfandiari dirige o departamento de Oriente Médio do Woodrow Wilson International Center, em Washington, e foi acusada de espionagem.

Ebadi também defendeu a família da jornalista canadense de origem iraniana Zahra Kazemi, morta quando estava sob custódia da polícia do Irã, em 2003. O caso continua em andamneto. Jurista islâmica, Ebadi utiliza a mesma arma dos aiatolás para basear suas defesas: o Alcorão. Ela argumenta que existem interpretações mais justas e menos discriminatórias do livro sagrado do que aquelas utilizadas como base da jurisprudência iraniana. “O islã, assim como qualquer outra religião, está sujeito a diferentes interpretações”, diz.

Com base nisso, ela encabeçou uma campanha para recolher 1 milhão de assinaturas pedindo mudanças na legislação do país em favor das mulheres. Leia aqui a entrevista que fiz com Shirin Ebadi.

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BIG BROTHER

Não foi a minha primeira viagem a um país islâmico, mas, sim, a primeira a um estado teocrático, em que as leis de Deus comandam, de fato, cada aspecto do cotidiano. Principalmente para as mulheres, o controle dos basidjsi, a polícia da moral, é intimidadora. Cheguei a ver uma garota ser presa, diga-se, por uma policial mulher, por estar com roupas extravagantes para os padrões locais, véu muito colorido, maquiagem carregada e unhas longas e pintadas. Como eu também não me encaixava aos padrões, apesar do esforço de não ofender os ditames locais, a polícia muitas vezes se aproximava de mim e da tradutora, mas, ao perceber que falávamos outro idioma, nos deixavam em paz.

A certeza de estar sob constante vigilância, de fato, afeta os iranianos. Muitos dos que entrevistei tinham mais de um número de celular que, ao menor sinal de falha em uma ligação, acreditavam estar grampeados. Em público, não raro um entrevistado parava de falar e me levava para outro canto, sob a suspeita de que alguém nos observava com o intuito de ouvir a conversa, ainda que não estivesse falando nada comprometedor.

Por outro lado, os iranianos resolvem a questão com uma agitada vida social particular, em casa de amigos e parentes. São um povo tão hospitaleiro e carinhoso quanto os brasileiros. Basta ser apresentado por um conhecido, e te convidam para jantar ou para as animadas festas caseiras. Qualquer lugar que se vai, te oferecem um delicioso chá, preferência nacional!

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BIG BROTHER 2

Nesses dias de pausa do blog, recebi o seguinte e-mail de um amigo suiço, recentemente transferido para trabalhar em uma organização internacional em Teerã: “A cada dia, mais e mais, me dou conta de como é difícil viver aqui, especialmente se você quer ou tem de – não é exatamente uma escolha – ter amigos. É uma loucura a forma com que interferem em sua vida privada – a atmosfera de suspeita realmente afeta as pessoas. Portanto, não estou muito feliz esses dias.”

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MULHERES PARA CÁ, HOMENS PARA LÁ

Muitos me perguntaram sobre como é a convivência entre homens e mulheres em locais públicos. Bem… as iranianas freqüentam academias, tomam sol nas piscinas públicas de Teerã e banho de mar nas lindas praias do Golfo Pérsico, mas, jamais com um amigo do sexo oposto. Todos esses locais são segregados. E, ao viajar com um amigo, nem pense em dividir um quarto. As autoridades exigem a certidão de casamento até mesmo dos estrangeiros.

As meninas da foto acima estão cometendo uma transgressão. No papel pregado no colorido painel que divide a lanchonete da Universidade de Teerã, está escrito algo como “ala para homens”. Alunas adeptas do chador e, portanto, mais conservadoras e religiosas, ficam escondidas do lado de lá do painel, longe dos olhares masculinos.

Depois de levar broncas da tradutora, desisti do costume brasileiro de dar dois beijinhos nas bochechas daqueles a quem eu era apresentada, ao que eles reagiam com um passo para traz, olhos arregalados e o braço estendido a me oferecer apenas as pontas dos dedos (e olhe lá!) para um tímido aperto de mão, o que aliás, tem de ser iniciativa do homem ou também pode ser considerado ofensivo. É claro que nem todos os jovens seguem a regra, mas, ela existe e é de bom tom que seja seguida.

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PELOS CAMINHOS DA PÉRSIA

Viajar por terras iranianas é uma aventura à parte, a começar pelos divertidos ônibus operados pelas companhias rodoviárias.

Têm ar condicionado, serviço de bordo e DVD. Entre Teerã e Isfahan, viajei assistindo a um filme sobre uma mulher que era enganada por dois impostores: o primeiro, dizendo-se apaixonado, conseguiu se casar com a moça para, após consumado o matrimônio, transformar-se em um homem violento, dando espaço para que ela o traísse com o segundo, que lhe oferecia um ombro amigo para chorar. Depois, os impostores usavam a traição para chantageá-la, já que o adultério pode ser punido com a pena de morte no Irã. Achei o filme até bem moderninho para os padrões locais, embora, traga embutida no roteiro, uma espécie de ‘lição moral’ à adúltera, que, apesar de ser a vítima da história, só se dá mal. Aliás, não tem final feliz para ninguém no filme.

A modernidade que se vê em Teerã é apenas uma das facetas de um Irã complexo, como bem lembrou um leitor. Isso fica evidente ao se afastar alguns quilômetros da capital, Teerã, e ver a enorme profusão de iranianas cobertas com o negro chador dominar o cenário da religiosa Qon ou da turística Isfahan. Desavisada e sob um calor de quase 50 graus, fiz as malas para viajar como quem vai para praia: roupas leves e de cores claras. Não consegui dar dois passos, sem que me dirigissem um olhar reprovador.

Mas, a viagem vale muito a pena. Isfahan é daquelas cidades tão espetacularmente lindas quanto inesquecíveis. Uma espécie de museu da arquitetura islâmica, a céu aberto.

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UM MUSEU A CÉU ABERTO

Turistas, vindos de todo o País, refrescam-se pertinho das inúmeras fontes e espelhos d’água, fazem piquenique nos gramados e divertem-se em passeios de charrete.

Longe do barulho, alguns se refugiam nos jardins internos das mesquitas.

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PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Isfahan tem, pelo menos, dois monumentos considerados pela Unesco como Patrimônio da Humanidade:

Mesquita Iman

Mesquita Jame

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UM PASSEIO PELOS MERCADOS PERSAS

Isfahan é também o melhor lugar para se comprar objetos de arte persa e especiarias. A cidade tem um mercadão, onde os moradores fazem compras cotidianas, e um imenso bazar de objetos de arte, igualmente interessantes.

Entre maravilhosos vasos, que reproduzem os mosaicos presentes na arquitetura, há ainda jogos de chá em vidros trabalhados, douradas luminárias e, é claro, os típicos tapetes iranianos.

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TAPETES VOADORES
Os mercadores fazem de tudo para vender. Na foto abaixo, se lê: “tapetes voadores”.

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SADDAM HUSSEIN NÃO MORREU?
Se eu não tivesse assistido ao horroroso vídeo do enforcamento do ditador iraquiano Saddan Hussein, poderia garantir que cruzei com ele passeando em um dos mercadões de Isfahan.

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A PONTE DO AMOR

Isfahan também tem uma das mais antigas e preservadas pontes da Pérsia. É linda, formada por arcos, onde os casais sentam para ver a paisagem. Também é intenso o movimento de garotos e garotas, para lá e para cá, trocando olhares e sorrisos – e só. Isfahan é muito conservadora.

Casais ‘oficiais’ preferem namorar longe do olhar público, em pedalinhos que podem ser alugados.

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SAUDADES DE TEERÃ
Confesso ter ficado com saudades da ‘liberal’ Teerã, sensação compartilhada com a tradutora, uma alegre jovem de classe média, em seu tênis cor-de-rosa que quebrava a sisudez dos trajes negros conservadores. “É bom voltar para ‘casa'”.

No caminho de volta, a paisagem desértica, pontuada por uma ou outra mesquita. Postos de gasolina e lanchonetes à beira da estrada também oferecem uma sala para a reza.

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KHODA HAFEZ!
As minhas últimas horas em Teerã foram em algum ponto das imponentes montanhas de Darban, onde iranianos se reúnem para assistir ao pôr-do-sol, fazer piquenique, saborear comidas típicas nas inúmeras barraquinhas ao longo do íngreme e estreito caminho…

…tomar um chá e fumar os tradicionais cachimbos d’água nos vários bares e restaurantes decorados com tapetes persas sobre os quais famílias e jovens se reúnem sentados em círculos. Do alto das montanhas, tem-se a melhor vista de Teerã e são essas as últimas cenas que guardo da cidade.

Khoda Hafez (Adeus), Irã!

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