US$ 3 bi por ano para produzir extremistas

US$ 3 bi por ano para produzir extremistas

adrianacarranca

19 de janeiro de 2015 | 10h29

AP_Brendan Smialowski

Foto: AP/Brendan Smialowski

Como os muçulmanos em oração, a atenção se volta para Meca quando especialistas tentam explicar a disseminação do fundamentalismo islâmico e o fenômeno da jihad global. Não por ser o berço do Islã, mas a origem de uma doutrina austera sunita disseminada pela Arábia Saudita como parte de um projeto de domínio contra os xiitas do Irã, que teria inspirado grupos terroristas em todo o mundo como o Estado Islâmico.

A monarquia do rei Abdullah – e, mais recentemente, o Catar – teria investido desde a década de 70 cerca de US$ 3 bilhões por ano, segundo estimativas de diferentes fontes, para financiar a formação e exportação de xeques e a construção de escolas religiosas (madrassas), universidades, centros islâmicos, mesquitas, fundações e instituições missionárias em todo o mundo para disseminar o wahabismo, a vertente mais radical e estritamente ortodoxa do Islã, que rejeita ideias reformistas.

Também financiou a produção, impressão e distribuição de material doutrinário em várias línguas para alcançar algo como 1 bilhão de muçulmanos, do total de 1,6 bilhão, que vive fora do mundo árabe.

Gerações de muçulmanos – e convertidos – dos EUA à Ásia cresceram sob a influência do que o escritor Stephen Schwartz, autor de Two Faces of Islam: The House of Saud from Tradition to Terror (Duas Faces do Islã: o clã Saud da Tradição ao Terror) descreve como uma “perversão do Islã pluralista praticado pela maioria dos muçulmanos”, sectário e intolerante, segundo ele, não apenas contra o cristianismo e judaísmo, mas contra outras vertentes do Islã como o xiismo, o sufismo e até o próprio sunismo moderado. Uma doutrina que teria servido de base para que o fundamentalismo e o extremismo de hoje se desenvolvessem.

A ligação do reino saudita com grupos como a Al-Qaeda é conhecida do Ocidente. O rastreamento das conexões de redes terroristas responsáveis pelos atentados mais letais das últimas décadas – 15 dos 19 terroristas do 11 de Setembro eram sauditas – apontava para Riad. A Arábia Saudita teria financiado combatentes contra o governo xiita do Iraque e o de Bashar Assad, da Síria, aliado de Teerã; combatentes que mais tarde formariam o Estado Islâmico.

“A Arábia Saudita permanece uma base de apoio financeiro fundamental para a Al-Qaeda, o Taleban, o LeT (Lashkar-e-Tayyiba)”, atestava, em um telegrama diplomático de 2009 interceptado pelo Wikileaks, a então Secretária de Estado americano, Hillary Clinton.

Pressionado pelos EUA e agora ameaçada pelo mesmo movimento que ajudou a criar – a Al-Qaeda e o EI prometeram derrubar o regime saudita – o rei Adbullah começou a promover reformas para reduzir o fluxo de dinheiro e, mais recentemente, anunciou medidas que mostram uma tentativa de se afastar dos extremistas.

No ano passado, a Arábia Saudita deu US$ 100 milhões ao programa antiterror da ONU e colocou o EI e outros grupos, como a Irmandade Muçulmana, em uma lista de terroristas.

Mas a influência exercida pelo wahabismo alimentado durante décadas pela Arábia Saudita continua a ressoar nas mesquitas e madrassas de todo o mundo – e a abastecer as linhas de combate de grupos como o EI, na Síria e Iraque, Al-Qaeda e Taleban, no Afeganistão e Paquistão, Al-Qaeda da Península Arábica, no Iêmen, Boko Haram, na Nigéria, Al-Shabab, na Somália, e Jemah Islamyiah, na Indonésia, Malásia e Filipinas. Seus combatentes têm raízes na rede de seminários financiados pela Arábia Saudita.

Parte do financiamento viria do zakat (imposto) que deve ser pago por todos os sauditas, no valor de 2,5% de seu rendimento, para instituições de caridade, algumas delas banidas pelos EUA. Mas muitas outras passaram despercebidas pelos radares das autoridades antiterrorismo porque financiavam apenas instituições religiosas ou escolas.

Em junho de 2013, relatório do Parlamento Europeu apontou o envolvimento de organizações wahabitas-salafitas fora do Oriente Médio no “apoio e fornecimento de armas a grupos rebeldes ao redor do mundo”.

James Woolsey, ex-diretor da CIA, descreveu o wahabismo saudita como o “solo onde a Al-Qaeda e suas organizações irmãs estão florescendo”.

O boom do petróleo nos anos 70 facilitou a ofensiva cultural. Não existe um levantamento de quantas madrassas, mesquitas e centros islâmicos foram financiados pela Arábia Saudita em todo o mundo. Mas a campanha saudita no Afeganistão e Paquistão dá indícios de sua dimensão. O número de madrassas na fronteira saltou de 1 mil para 8 mil durante a invasão soviética, em 1978, que os sauditas combateram ao lado dos EUA.

A campanha saudita contra a expansão soviética no Afeganistão não foi motivada pelo relacionamento amistoso com os EUA ou simpatia com o capitalismo ante o comunismo, mas por uma tentativa de Riad de ampliar sua influência regional contra o crescente poder dos xiistas do Irã. 

A Revolução Islâmica de 1979, que colocou os aiatolás no governo, impulsionou os sauditas a disseminar ainda mais a doutrina wahabita contra a ameaça xiita. O líder da revolução, aiatolá Khomeini, tentou inspirar um novo revivalismo muçulmano e passou a dar apoio a grupos xiitas no Líbano, Iraque, Síria. “A Arábia Saudita não é uma teocracia, mas governada pela família real, que tem aliança com os clérigos. O Irã formou a teocracia com que eles sonhavam. Então, ocorreu aos sauditas promover um trabalho missionário maciço para disseminar o wahabismo no mundo como forma de domínio”, diz Schwartz. Em um levantamento que fiz até o 11 de Setembro, a Arábia Saudita havia colocado, pelo menos, US$ 2 trilhões nessa campanha. A ação missionária (dawa) agressiva é umas das características dos wahabismo.”

A Arábia Saudita concentrou esforços na defesa dos muçulmanos oprimidos em todo o mundo, para ganhar suporte à sua visão wahabista – mais tarde, essa mensagem se tornaria o ponto central da propaganda de Bin Laden, como escreveu em artigo na News Statesman Karen Armstrong, autora de Fields of Blood: Religion and the History of Violence (Campos de Sangue: Religião e a História da Violência).

“O Islã está crescendo de forma errada e com a mensagem errada, principalmente em razão da disseminação do wahabismo saudita, uma interpretação equivocada do Islã, porque ignora estudos contemporâneos que ajudam a compreender os ensinamentos do profeta”, defendeu, em entrevista ao Estado, o xeque Abdel Ghani al-Hindi, porta-voz dos imãs da Universidade Al-Ahzar, do Egito, considerada o cérebro do Islã. “O problema do Islã é a ‘saudização’ de países como Paquistão, Indonésia… Seu entendimento do Islã é fundamentalista.”

Líderes e, principalmente, a união de estudantes da A Al-Ahzar demonstraram no passado apoio à grupos como Irmandade Muçulmana. Al-Hindi diz que a universidade não é uma instituição religiosa ou política, mas acadêmica. “Ensinamos todas as formas de Islã, como ciência. Mas não temos como competir com a Arábia Saudita. Centros islâmicos de todo o mundo têm sido atraídos pelos petrodólares sauditas”, ele diz.

“Catar e Arábia Saudita inflamaram uma bomba-relógio ao financiar a propagação global do Islã radical”, disse o general Jonathan Shaw, ex-comandante das forças britânicas no Iraque ao jornal The Telegraph. Ele apontou Catar e Arábia Saudita como os principais responsáveis pelo crescimento do extremismo islâmico que inspira os terroristas do EI, no que definiu como “uma guerra ideológica contra a qual o sucesso militar é só uma tática temporária que não chegará a nada”.

“Instituições construídas pelos sauditas foram entregues à administração de governos ou às comunidades muçulmanas, mas ainda seguem a doutrina wahabita, até mesmo aqui nos EUA”, diz Schwartz. Algumas se declaram salafitas, mas, segundo o escritor, não têm relação com o movimento reformista salafita que surgiu no Egito século 19, mais moderado. “Os wahabitas se dizem salafitas em referência às primeiras gerações de muçulmanos, os predecessores. Não há nenhuma característica reformista neles.”

Embora Riad tenha promovido reformas, ainda que tímidas, nos últimos anos, violações ocorridas dentro no berço do Islã e legitimadas pelos wahabitas sauditas, como a decapitação de condenados pela ditadura de Riad – 2 mil desde 1985, segundo a Anistia Internacional -, podem acabar inspirarindo e motivando seguidores dessa vertente, como o EI, a fazer o mesmo.

“Mas, é claro, também não podemos dizer que todo wahabita seja um extremista como o Estado Islâmico. Este grupo criou algo novo, mais extremista do que jamais vimos. É o novo ultrafundamentalismo wahabita.”

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PARA ENTENDER.

O wahabismo surgiu em meados de 1700 no vilarejo de Najd, no deserto arábico, por iniciativa de um jovem acadêmico chamado Muhammad Ibn Abd al-Wahhab. Convencido de que o Islã havia sido corrompido e enfraquecido pelo Império Otomano, ele defendia o retorno às raízes – os textos originais – da religião, como forma de recobrar poder e prestígio, rejeitando a cultura muçulmana que havia florescido e, em sua visão abalado o Islã, nos séculos anteriores.

“O wahabismo rejeita tudo o que veio depois do profeta. E acredita que outras religiões ou linhas do Islã que consideram como não ortodoxas devem desaparecer. É a forma mais radical do sunismo”, disse ao Estado Stephen Schwartz.

Quando o Islã imperial começou a ruir no século 18, o revivalismo floresceu no mundo muçulmano e beneficiou a propagação da doutrina de Al-Wahhab. Ele estabeleceu uma aliança com o clã Saud, do qual descende a família real saudita, que teria usado a religião como bandeira para aumentar seu poder político. A aliança entre a monarquia e o wahabismo seria mantida através dos séculos.

* Uma versão deste artigo foi publicada na edição impressa do Estadão de 18/01/2015