Canadá mente em Copenhague, dizem ONGs

Afra Balazina

17 de dezembro de 2009 | 13h32

Canadenses protestam contra seu país em Copenhague

Canadenses protestam contra seu país em Copenhague

País reconhecido por suas belezas naturais e lembrado pela imagem das Rochosas, o Canadá não tem recebido elogios nas negociações climáticas. Para muitos negociadores de outros países e ONGs, o país está mais preocupado em se manter na segunda posição em produção de petróleo do mundo do que em garantir o gelo de suas montanhas. Seu petróleo é considerado ainda mais sujo e emissor de CO2 do que o explorado comumente, por vir das areias betuminosas.

A última revolta contra o Canadá em Copenhague ocorreu por conta do vazamento de documentos oficiais sobre um sistema de “cap and trade” (licenças para emitir) planejado pelo país. A rede Climate Action Network (CAN) no Canadá disse que o material mostra que o governo não tem intenção de atingir sua meta para 2020 (de cortar 3% das emissões em relação a 1990). Segundo o grupo, o plano contempla uma abordagem para regular as emissões do gás e petróleo e mineração que é mais de três vezes mais fraca do que o plano de 2008.

“O governo está mentindo para os canadenses, para o Parlamento e para o mundo. Os documentos vazados indicam que o governo do Canadá escolheu expandir sua exploração das areias betuminosas em vez de proteger o clima”, disse o ambientalista Steven Guilbeault, da ONG Équiterre. Segundo ele, a delegação canadense está negociando de má-fé em Copenhague ao exigir que os países em desenvolvimento façam mais enquanto o país planeja fazer menos.

No programa de 2008, os produtores de petróleo e gás deveriam reduzir suas emissões anuais em 48 milhões de toneladas em 2020, em relação ao projetado para aquele ano se nada fosse feito. Já a nova proposta o corte exigido é bem menor, de 15 milhões de toneladas. Isso deixaria as emissões do setor 37% maiores do que os níveis de 2006.    

O sudanês Lumumba Di-Aping, presidente do G77-China (grupo de negociação que inclui o Brasil), criticou ao Estado a posição canadense nas negociações. “A meta do Canadá está muito longe do que é necessário para salvar a África. O país tem sido um dos menos comprometidos com o Protocolo de Kyoto e isso precisa mudar.”   

A canadense Elizabeth May, líder do Partido Verde em seu país, cobrou o fato de o Canadá não cumprir sua meta de cortar 6% das emissões de gases que provocam o aquecimento global estabelecida no tratado de Kyoto. “Não é justo sermos o único país a repudiar o acordo e cancelar qualquer ação na área de clima, retirar recursos do setor de energia renovável. Nós merecemos cada Fóssil do Dia recebido”, disse ela, em referência ao prêmio que reconhece os países que mais dificultam um acordo climático global.

Desde que começou a conferência, o Canadá já levou cinco vezes o prêmio (variou nas três primeiras posições).

As metas propostas pelo Canadá, segundo May, nada têm a ver com o que a ciência considera necessário para evitar uma catástrofe climática. E sim com o fato de que o Canadá quer continuar explorando o petróleo das areias betuminosas.

Ela aproveitou também para alfinetar o país vizinho ao seu: “Claramente Obama não é Bush. Mas parece que os Estados Unidos continuam sendo os Estados Unidos”. (Afra Balazina e Andrei Netto)

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