København, o “Porto da Esperança”?

Estadão

07 de dezembro de 2009 | 22h26

Duas semanas para salvar o clima. Essa frase foi repetida à exaustão por negociadores, jornalistas e militantes de organizações não-governamentais presentes no primeiro dia da 15a Conferência do Clima das Nações Unidas (ONU), aberta na manhã de hoje, em Copenhague, na Dinamarca. A expressão pode soar como um exagero piegas, mas foi usada até pelas mais altas autoridades envolvidas nas negociações, como o secretário-geral do Painel do Clima da ONU, o holandês Yvo de Boer.

Em meio a tantos discursos políticos, muitos dos quais vazios de sinceridade,  Lars Rasmussen, primeiro-ministro da Dinamarca, sintetizou bem o sentimento geral: a conferência é uma “oportunidade que o mundo não pode se dar o direito de perder”, alertou.

O anfitrião foi além: “Pelas próximas duas semanas, Copenhagen será Hopenhagen”, disse, brincando com as palavras e transformando o nome de sua capital, København, ou “Porto dos Comerciantes”, em “Porto da Esperança”. “Ao final, nós deveremos ser capazes de devolver ao mundo o que nos foi concedido hoje: esperança de um futuro melhor”.

Esse discurso é uma forma de conclamar a humanidade para um esforço concentrado inédito: garantir que o aquecimento global não ultrapassará 2oC nas próximas décadas. O problema é que, como discurso, está separado da prática por um mar de percalços.

Se até duas semanas atrás reinava o pessimismo, é em um atmosfera de um otimismo relativo, renovado, que a COP 15 teve início nesta manhã. Isso ocorre, entre outros motivos, porque há novas metas de redução das emissões de gases de efeito estufa na mesa de negociações. Mais: elas não pertencem apenas a países industrializados, como Japão e Estados Unidos, mas também a emergentes como Brasil, China e Índia, novos gigantes talvez capazes de destravar negociações emperradas.

De certa forma, materializa-se em Copenhague um esforço internacional que até a COP 14, realizada em Poznan, na Polônia, há um ano, parecia muito distante. Países antes avessos à fixação de objetivos numéricos agora estão sentados em torno das mesas de discussão.

Um exemplo da transformação que ocorre nos corredores da conferência é o olhar internacional sobre os Estados Unidos, agora sob administração de Barack Obama. Ex-vilão dos acordos do clima, quando era comandado por George W. Bush, o país apresentou suas propostas, mesmo que ainda modestas demais: 17% de redução das emissões até 2020, tendo como ano de referência 2005. É pouco perto do que se dispõem a fazer a Noruega e a União Europeia em relação ao ano de 1990, por exemplo. É pouco até diante do que se propõe o Brasil. Mas é um início de diálogo.

O problema é que, muito além da fixação de metas de redução das emissões, muito além de tratar de um problema ambiental – o aumento da temperatura global –, a COP 15 é um evento de economia. Sim, de economia, bem mais do que de meio ambiente. Prova disso é a preocupação, muito profunda, em torno do financiamento das medidas para reduzir as emissões de CO2 e para pagar as ações de adaptação e de mitigação por parte de países em desenvolvimento.

Nesse ponto, a verdade nua e crua é: todos os subterfúgios estão sendo usados para protelar, mascarar ou ignorar que o acordo precisa de verba. E muita verba – pelo menos € 100 bilhões por ano, segundo a União Europeia. Eis o cerne da questão em Copenhague: quem está disposto a pagar, quanto e para quem? Rezam a Eco-92 e o Protocolo de Kyoto que países industrializados, como os Estados Unidos e o Japão, custeiam países menos desenvolvidos, como o Brasil e a África do Sul. Mas essa lógica, a bem da verdade, está por um fio na COP 15.

Logo, não duvide da possibilidade de um acordo. Mas não descarte a chance concreta de um fracasso histórico. O pontapé inicial foi dado. Muitos consideram improvável que um acordo “vinculante”, ou seja, com força de lei, possa ser atingido nos próximos 15 dias. De outro lado, dividindo espaço com o CO2, a esperança de um acordo está no ar.

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