As faces da chantagem talibã
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

As faces da chantagem talibã

andreinetto

14 de abril de 2010 | 09h29

Youtube

Youtube

A rede pública de emissoras de TV France Télévisions revelou, na noite de segunda-feira, as imagens de dois jornalistas da empresa sequestrados no Afeganistão. Hervé Ghesquière e Stéphane Taponier estão cativos desde 29 de dezembro, quando foram capturados por terroristas talibãs em uma estrada do norte do país. Depois de quase quatro meses de detenção, a direção da emissora concordou em revelar as fotografias das duas vítimas, logo após o envio de uma fita na qual o grupo terrorista faz exigências em troca da liberação de ambos.

A decisão de tornar públicas as identidades dos repórteres abriu uma polêmica na França e foi tomada porque a sua divulgação em uma emissora de TV do país era uma das exigências dos sequestradores. Na gravação, enviada a diferentes redes na Europa e nos Estados Unidos, os dois jornalistas afirmam que esta é a última chance de saírem do cativeiro com vida. “Faz três meses que somos reféns e os talibãs me pedem que envie essa mensagem”, afirmou Ghesquière na gravação. “Eles querem que todas as suas exigências sejam satisfeitas.”

AFP

AFP

A ameaça levou France Télévision a mudar de estratégia, unindo-se ao desejo das famílias e contrariando o pedido do governo francês, que pedia discrição à emissora para facilitar a negociação. Desde que os dois repórteres perderam contato com seus editores em Paris, a rede não havia divulgado nem os nomes, nem imagens dos dois jornalistas. Na noite de segunda-feira, porém, o extrato do vídeo, no qual os rostos de ambos é deturpado por computador, foi veiculado em telejornais dos dois principais canais da emissora, France 2 e France 3.

O caso abriu uma discussão ética na empresa. “Contra o parecer de toda a redação, a presidência de France Télévisions decidiu tornar fluidas as imagens dos rostos e proibiu a difusão de uma reportagem que apresentava nossos dois colegas antes de seu sequestro”, esclareceu o apresentador de France 3 Laurent Bignolas. “Os jornalistas e funcionários de France 3 estão conscientes que a difusão do vídeo é uma chantagem da parte dos sequestradores de Hervé e Stéphane e a condenam, mas, face à ameaça que pesa sobre suas vidas, julgamos necessário difundi-las.”

Ontem, a organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF) defendeu a decisão dos jornalistas da emissora. “Estamos terrivelmente inquietos por este vídeo. É a primeira vez que os talibãs falam em ultimato e em risco iminente de morte”, lembrou Jean-François Julliard, diretor da RSF, em entrevista à rádio France Info. “Hoje é impossível não divulgar este vídeo, alguns extratos ou um relato sobre seu conteúdo.”

Diretamente implicado na guerra ao Talibã no Afeganistão – o país tem o quarto maior efetivo da força aliada que luta no país –, o governo francês não revela informações sobre o caso. Mas a divulgação das identidades aumentou a pressão sobre o Palácio do Eliseu, cada vez mais constrangido a negociar com os radicais muçulmanos, que exigem em troca dos reféns a libertação de talibãs presos na Europa e nos EUA. Se em um primeiro momento, o governo francês tentou jogar a responsabilidade sobre os jornalistas, falando em “imprudência culpável”, a postura agora é outra. De Washington, Sarkozy – ainda em seu mais baixo nível de popularidade – garantiu: “Nós não mediremos esforços para tirá-los da situação em que se encontram”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.