Sarkozy, animal político ferido
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Sarkozy, animal político ferido

andreinetto

17 de abril de 2012 | 15h22

Eleições na França 2012

Nicolas Sarkozy, o atual presidente da França, tornou-se conhecido por todos no cenário internacional a partir de 2007 como um presidente voluntarioso, um homem respeitado por suas posições firmes, ainda que nem sempre elas sejam aceitas.

Sarkozy foi um chefe de Estado à altura dos desafios quando exerceu a presidência rotativa da União Europeia, quando obteve o acordo de cessar-fogo entre Rússia e Geórgia na Ossétia do Sul, em 2008, quando enfrentou a crise das dívidas soberanas e o espectro da falência da Grécia, desde 2009. Também foi decisivo ao liderar a comunidade internacional, ao lado do premiê britânico, David Cameron, na intervenção militar bem-sucedida na Líbia, garantindo de alguma forma a continuidade da Primavera Árabe. Credenciais dessa envergadura são suficientes para que ele entre para o rol dos chefes de Estado memoráveis que passaram pelo Palácio do Eliseu, aos olhos de muitos analistas internacionais.

No plano interior, entretanto, Sarkozy é outro homem. Trinta anos antes de ser conhecido como o estadista que se revelaria ao mundo nas questões externas, já frequentava programas de televisão na condição de porta-voz da juventude conservadora do extinto RPR, o partido gaulista liderado por Jacques Chirac. Advogado e grande orador, foi prefeito de Neuilly-sur-Seine, na periferia rica de Paris, deputado, porta-voz de governo, ministro do Orçamento, ministro das Comunicações, ministro do Interior, ministro da Economia. Nos anos 2000, venceu a batalha pela liderança da direita travada contra o ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin até triunfar em 2007, arrebatando o Palácio do Eliseu, em uma vitória incontestável sobre Ségolène Royal, candidata do Partido Socialista.

O mais surpreendente, entretanto, é que Sarkozy traçou essa carreira brilhante sem nunca ser amado pela opinião pública da França. Sua vitória há cinco anos foi obtida sob a condição de que ele liderasse o país à “ruptura” que prometia. Sarkozy, o candidato, defendia a reforma radical da administração pública e uma revolução na mentalidade que devolveria a França à vanguarda, liberalizando a economia e modernizando o país de forma a aproveitar o que há de melhor nos dois modelos, o liberal, anglo-saxão, e o Estado de bem-estar à la française.

Cinco anos depois, Sarkozy enfrenta a hora da verdade, a da reeleição, e deve se tornar o primeiro presidente da França desde Valéry Giscard-d’Estaing, em 1981, a não conquistar a reeleição. As razões são diversas. A crise econômica e financeira internacional, que tomou todo o seu governo, é por certo a principal delas. Mas o fato é que, na visão dos franceses, as promessas de ruptura se mostraram uma ilusão. De real só restou o desamor.

* * *

Dito isso, uma advertência: Sarkozy é o maior político francês de sua geração. Trata-se de um “animal político”, homem reputado pelo talento em campanha e por sua capacidade de reação. François Hollande é, de longe, o favorito. Mas ainda faltam 20 dias para a decisão.

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