Frustração econômica e social e oportunismo: as causas da violência na Grã-Bretanha
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Frustração econômica e social e oportunismo: as causas da violência na Grã-Bretanha

andreinetto

14 de agosto de 2011 | 08h28


Incêndio no condomínio Carpet Right, centro de Tottenham, na madrugada de domingo, 7 de agosto

ENTREVISTA:

MICHAEL ROSIE E HUGO GORRINGE

SOCIÓLOGOS DA UNIVERSIDADE DE EDIMBURGO

Neste domingo, a edição impressa de O Estado de S. Paulo publica uma reportagem especial sobre os distúrbios em Londres e na periferia de grandes cidade britânicas. Esses distúrbios deixaram cinco mortos e um prejuízo avaliado em centenas de milhões de libras – valor que será ressarcido às vítimas pelo Estado e pelo contribuinte britânico.

Os tumultos, comparáveis em muitos aspectos aos ocorridos nos subúrbios de Paris em 2005 e 2006, despertaram a ira da opinião pública, da imprensa e, sobretudo, da classe polícia sobre a criminalidade, o imoralismo e a irresponsabilidade da juventude do país. Um perigoso consenso se consolidou entre muitos formadores de opinião: o de que a violência não teve outra origem que não a agressividade e a perdição dos jovens de periferia.

Em entrevista realizada na última sexta-feira, o Estado ouviu dois sociólogos britânicos, Michael Rosie e Hugo Gorringe, ambos da Universidade de Edimburgo, para buscar o contraponto. Especialistas na pesquisa dos subúrbios da Europa, Rosie e Gorringe têm diagnósticos bem diferentes daqueles brandidos pelo primeiro-ministro, David Cameron, no Parlamento. Muito além de violência banal, há desigualdade crescente, falta de emprego, perspectivas de futuro. Há ainda um preocupante rompimento dos laços de confiança entre a juventude, a polícia e a Justiça, em especial no caso de jovens negros e descendentes de imigrantes, que se ressentem de um racismo muito presente, mas negado pela fachada de justiça e “multiculturalismo” tão propagada na Grã-Bretanha.

A seguir, a íntegra da conversa. 

Desde o começo dos distúrbios, parece haver um certo consenso na sociedade britânica sobre suas razões: a criminalidade, o motivo apontado nos discursos políticos de David Cameron. O que vocês pensam a respeito?

Rosie  – Eu não acredito em tal consenso, embora muitos líderes políticos estejam insistindo na visão de que a criminalidade é um fator chave. Na verdade os problemas são imensamente complexos. Mesmo que os eventos de Tottenham tenham sido a faísca que levou aos distúrbios na Inglaterra, os tumultos em diferentes locais podem ter tido diferentes causas e motivações de base. Nós vimos nos distúrbios pessoas motivadas pelas oportunidades de atacar a polícia e saquear, mas há também problemas de longa data sobre privações e falta de perspectivas concretas para jovens. O governo Cameron está fazendo populismo sobre as responsabilidades individuais. Está claro que há uma histórica abdicação da ‘responsabilidade social’ entre as elites políticas britânicas. Os últimos 30 anos têm sido marcados por um foço dramático e crescente entre ricos e pobres, e um número crescente de pessoas na Grã-Bretanha está à margem da economia, da sociedade, do sistema político. Mas este não é simplesmente um problema de pobreza, é também de marginalidade, de ser incapaz de viver os estilos de vida que são aclamados no mundo moderno, em uma sociedade exuberantemente consumista. Como diz o eminente sociólogo Zygmunt Bauman, “estas não são revoltas de fome; são as revoltas de consumidores incapazes”.

Gorringe – Enquanto políticos e a mídia estão enfatizando a criminalidade e o oportunismo dos revoltosos, há um consenso na pesquisa acadêmica que os distúrbios na Grã-Bretanha têm ocorrido em locais onde as populações têm experimentado os efeitos do declínio socioeconômico e onde as relações com a polícia são tensas. De fato, se observamos as revoltas de 1981, o relatório de Lord Scarman sublinha sérios problemas socioeconômicos e agressividade contra a polícia como fatores que contribuíram. O líder da oposição (Ed Miliband, do Partido Trabalhista) tem pedido uma investigação semelhante nas revoltas recentes.

Em suas opiniões, quais são as causas de fundo da desordem na Grã-Bretanha? O multiculturalismo, por exemplo, pode ter mostrado suas falhas, como muitos alegam?

Rosie – Uma ameaça comum é o problema da legitimidade. O modelo britânico de polícia é baseado no consentimento e no engajamento da comunidade, mas quando a polícia e o governo perdem sua legitimidade aos olhos de muitos, como tem acontecido nos últimos anos, então torna-se muito difícil manter a ordem social.

Gorringe – Eu acredito que haja diferentes causas de base em diferentes regiões. Os eventos de Tottenham foram claramente resultado de tensões crescentes entre a polícia e a comunidade local, em parte por causa de raça, em parte por causa dos esforços da polícia em combater gangues criminosas. A região também tem um histórico de revoltas – mas seria um erro pensar que as tensões em Tottenham são o espelho fiel das tensões em outros locais. O oeste de Londres, no subúrbio de Ealing, por exemplo, onde houve muita desordem, não se enquadra neste caso, nem Gloucester, uma pequena cidade do oeste da Inglaterra que também passou por problemas. Em algumas áreas, como Manchester, nós vimos gangues criminosas deliberadamente tendo como alvo lojas de luxo em grandes distritos comerciais. Em outros, como Nottingham, a polícia foi o alvo explícito. Logo há várias razões misturadas com tensões sociais entre jovens e a polícia, como em Tottenham e outras partes de Londres. Em geral, houve rebeliões contra jovens “descontentes” com as perspectivas econômicas, como em Gloucester e alguns subúrbios de Londres. Há também oportunismo criminoso, como vimos em Manchester e outros lugares. Se há uma causa singular, é a conjunção de três fatores: descontentamento com as perspectivas econômicas; níveis sérios de desconfiança entre jovens e a polícia; e a convicção de que quando se enfrenta a polícia com um grande número de manifestantes com alta mobilidade, ela é com frequência impotente para frear os saques e os incêndios criminosos. É preciso ressaltar, entretanto, que muitas partes da Grã-Bretanha que tem índices relativamente altos de privação econômica e social – como a Escócia, Gales e Nordeste da Inglaterra – não testemunharam nenhuma desordem.

 

 

Vocês tocaram de alguma forma no tema: também há tensões entre raças, etnias e nacionalidades nas explicações dos distúrbios, certo?

Rosie – Em algumas lugares isto é certamente parte do mix de razões. Os eventos em Tottenham em torno da morte de Mark Duggan mostraram que uma porção significativa de jovens negros da região perdeu profundamente a confiança na polícia. Há reclamações recorrentes de perseguição de jovens negros lá e em outras partes de Londres há várias décadas. Em outras áreas afetadas por distúrbios não há tais problemas, e a desafeição da juventude, independente da raça, tem um papel muito mais importante. Há alguns sinais preocupantes, entretanto, inclusive envolvendo tentativas do grupo de extrema direita English Defence League (EDL), que tentou construir uma presença nas ruas. A raça também pode ter desempenhado um papel proeminente em West Midlands (região do centro da Inglaterra onde se localiza Birmingham), onde homens britânicos-asiáticos foram mortos, e onde tem havido tensões não apenas entre a maioria branca e a minoria étnica, mas entre diferentes grupos minoritários também.

Gorringe – A primeira tensão social nos distúrbios, entretanto, foi a ampla desconfiança e o ódio da polícia. Os revoltosos de todos as origens, e também expectadores que condenaram a violência, manifestaram suas antipatias em relação à polícia. O relatório de Lord Scarman sobre as revoltas de 1981 recomendou que a polícia investisse mais em ligações comunitárias e em comunicação com o público. Esta recomendação seria relevante hoje se ela existisse.

Eu tive a oportunidade de visitar subúrbios de Londres nos últimos dias, onde falei com cidadãos e também com alguns vândalos. Em geral, seus temas são falta de oportunidades, desemprego, tráfico de drogas, repressão policial e discriminação. Quais são os seus diagnósticos?

Gorringe – Sua questão toca no coração do problema. Enquanto ninguém desculpa os níveis de violência que foram vistos nas ruas da Inglaterra, não há outra forma de compreender por que tantas pessoas estavam prontas a se engajar em saques, incêndios criminosos e vandalismo sem que coloquemos os elementos que você elencou como contexto. Um dos mais preocupantes aspectos das revoltas na minha opinião foi o número de pessoas que saquearam lojas e se engajaram em atos de violência sem se preocupar em mascarar seus rostos. Isso sugere várias coisas – inclusive que eles têm completa desconsideração pelas autoridades e uma completa desesperança em relação ao futuro.

Rosie – Tais problemas foram claramente importantes em muitas das áreas afetadas. Mas o que eu também considero muito importante é que a mídia britânica está agora focando naqueles que são levados aos tribunais acusados de distúrbios e de saques. Enquanto muitas centenas estão sendo processados, o foco está sobre aqueles poucos que não se encaixam na imagem de uma juventude urbana sem perspectivas. Há tanta publicidade para os saqueadores originários da classe média que a exceção parece ser a regra. A maioria envolvida era jovem, e muitos, muitos mesmo vêm de origens marcadas pelas privações e marginalidade. A polícia de Tottenham enfrenta um desafio muito difícil: como combater o tráfico de drogas e a criminalidade associada enquanto simultaneamente constrói boas relações com a comunidade.

É possível comparar de alguma forma os distúrbios na França em 2005 e 2006 com as revoltas da Grã-Bretanha em 2011? Muitos britânicos negam as diferenças, mas há semelhanças também, não?

Rosie – Certamente há similaridades no fato de que as comunidades marginalizadas não veem a intervenção da polícia como ilegítima – mesmo quando ela combate criminosos que aterrorizam as próprias comunidades. Há paralelos óbvios entre muitas centros urbanos pobres britânicos e franceses. Mas também há diferenças. As relações entre a polícia britânica e muitos negros e outras comunidades de minorias étnicas tem sido aprimorada na última década. As divergências polícias desde o assassinato racista do adolescente negro Stephen Lawrence em 1993 acentuaram as atenções para os problemas de racismo institucional na polícia e no sistema judiciário. Em parte, essa é uma das razões pelas quais as revoltas britânicas de 2011 são tão menos centradas e motivadas por tesões raciais que a onda de violência e desordem de 1981.

Gorringe – Uma das mais óbvias semelhanças entre as revoltas na França e na Inglaterra é a forma como elas foram detonadas pelas mortes de jovens em choques com a polícia. Estudos na França e na Grã-Bretanha sugerem que a maioria das revoltas em ambos os países foi detonada por incidentes particulares interpretados como provas da hostilidade policial ou indiferença em relação a certas comunidades.

Em relação à polícia, vocês veem algum tipo de erro estratégico no combate ao crime, não apenas durante os distúrbios, mas também no cotidiano? Enfrentar o crime sem usar armas continua a funcionar como estratégia?

Rosie – Com a exceção da Irlanda do Norte, simplesmente não é necessário, nem desejável por parte da opinião pública, que a polícia britânica porte armas rotineiramente. A recente desordem na verdade levanta duas questões bem diferentes sobre o policiamento. A primeira tem relação com a comunicação entre a polícia e as comunidades que elas servem – houve uma clara e admitida deficiência em Tottenham na comunicação da polícia depois da morte de Mark Duggan. Isto levou à circulação de muitos rumores falsos sobre a natureza dos disparos e alimentou as tensões crescentes. Enquanto a polícia tem construído boas linhas de comunicação com diferentes comunidades no norte de Londres, isso é menos verdade em relação à juventude, branca ou negra, de áreas pobres. Estes, claro, foram os grupos mais irados com os rumores que circulavam. A polícia precisa trabalhar mais duro para chegar aos segmentos da sociedade que perderam a confiança e a odeiam. Em segundo lugar, a polícia foi lenta ao responder de forma apropriada à desordem. A polícia britânica tem sido escrutinada de forma constante nos últimos dias sobre sua forma de lidar com protestos, e houve repetidas reclamações de que eles adotaram uma abordagem leve demais em relação aos distúrbios. Na verdade, as táticas da polícia parecem ter sido ditadas pelos recursos disponíveis – com frequência havia poucos policiais para confrontar multidões grandes e com alta mobilidade. A repressão dos distúrbios em Londres foi apenas obtida com contingentes de toda a Grã-Bretanha, o que é insustentável. Muitos agentes da polícia da Grande Manchester estavam em Londres e, logo, estavam impedidos de confrontar os saqueadores em Manchester e Salford. A polícia britânica já sofreu um corte significativo de seus recursos, e tem ainda 20% de cortes em perspectiva. Por isso estes cortes tornaram-se uma polêmica na polícia britânica.

Gorringe – Eu concordo plenamente com Michael. Adotar um táticas mais agressivas e intervencionistas poderia ter ajudado a polícia a controlar os tumultos mais cedo, mas se suas ações fossem percebidas como excessivas ela teria perdido ainda mais legitimidade. Também não está claro se canhões de água e balas de borracha poderiam ter ajudado a controlar os distúrbios porque a polícia estava enfrentando grupos de alta mobilidade e sem alvos específicos. Movê-los para uma determinada área poderia simplesmente levar o problema para outra região. Foi apenas quando a polícia teve mais agentes no terreno que se tornou apta a conter a desordem. Em lugar de armar a polícia até os dentes contra seus concidadãos, melhor seria construir vínculos com as comunidades e grupos com os quais houve perda de legitimidade e capacitá-la para obter mais e melhores informações sobre as áreas que policia.

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