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Grécia: o risco de analisar uma crise

andreinetto

12 de abril de 2010 | 20h51

BLOOMBERG NEWS-MAXPPP

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Apostar contra a Grécia deixou de ser apenas um exercício cotidiano nos mercados financeiros da Europa. Passou a ser, também, uma prática corrente de analistas econômicos. Uma dessas avaliações me foi enviada há alguns dias por email. Título: “Greece will default, but not this year”. Seu autor, Wolfgang Münchau, o escreve para o Financial Times, de Londres, que o publicou o texto em 4 de abril. Um extrato:

“I am willing to risk two predictions. The first is that Greece will not default this year. The second is that Greece will default.”

Münchau não apenas aposta que a Grécia não irá à falência agora, como tem certeza de que irá no futuro. Para evitá-la, o autor indica que Atenas teria quatro opções. A segunda delas, afirma, seria contar com taxas de juros mais baixas em eventuais empréstimos da UE e do FMI. Logo abaixo, o próprio Münchau descarta a hipótese, argumentando: “The EU has in effect ruled out the second”.

Considero a análise de Münchau excelente e não descarto que o tempo lhe dê razão. Já li algumas previsões no mesmo sentido, amparadas em diferentes razões técnicas. Uma delas saiu na Economist da semana passada, se não estou enganado.

Só vejo na interpretação de Münchau um problema, na realidade recorrente nas interpretações econômicas que tenho lido sobre o tema: é tecnicista ao extremo. Münchau menospreza a influência da intervenção política, um dado não objetivo da crise, mas decisivo. Um exemplo prosaico: não é porque a Alemanha, diante de uma opinião pública adversa e de um pleito regional próximo, oficialmente se nega a pagar a conta da estabilidade da zona euro, que não o fará se necessário. Uma coisa é seu discurso; outra, sua prática.

No domingo, 11, Jean-Claude Juncker, primeiro-ministro de Luxemburgo e presidente do Eurogrupo – formado pelos 16 ministros de Finanças da zona euro –, anunciou em Bruxelas um plano de € 40 bilhões, entre recursos da UE e do FMI, para reestruturação da dívida grega. Detalhe: com juros abaixo dos praticados pelo mercado.

Alemanha e França são os pilares da zona euro e da União Europeia. Por trás do mercado único e da integração monetária, há uma estratégia geopolítica de longo prazo, que representa a sobrevivência das potências médias do continente. Só reunidos, esses países terão como afirmar sua voz em um mundo globalizado e transformado pela ascensão da China. Por essa razão, entre outras, na minha modestíssima avaliação dos acontecimentos, a Europa não permitirá a falência da Grécia. Nem da Grécia, nem de Portugal, nem da Espanha, nem de ninguém. O default seria a implosão de um projeto político, que é maior do que um crise econômica séria, mas conjuntural.

A Grécia vai continuar a comer o pão que o diabo amassou nos próximos cinco anos. Vai enfrentar a deflação, saída “recomendada” pela Comissão Europeia e pelo FMI para contornar a crise, e vai ficar mais pobre. Mas – é minha vez de apostar – não vai falir. Vai ficar lá, de castigo, no cantinho da União Europeia e da zona euro, servindo de exemplo.

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