SARKOZY TEM POUCA MARGEM DE MANOBRA
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SARKOZY TEM POUCA MARGEM DE MANOBRA

andreinetto

24 de abril de 2012 | 08h23

Eleições na França 2012

Viradas já aconteceram no segundo turno, mas eram previstas antes do primeiro voto; História aponta favoritismo de Hollande

Às 20h de domingo, quando as emissoras de TV apresentaram o resultado das pesquisas de boca-de-urna indicando o socialista François Hollande à frente do atual presidente, Nicolas Sarkozy, no primeiro turno das eleições presidenciais da França, a reação dos militantes sarkozistas reunidos no teatro de Mutualité, em Paris, foi de decepção.

No instante seguinte, as mesmas telas mostraram a fotografia da candidata de extrema direita, Marine Le Pen, da Frente Nacional, ao lado do prognóstico de que ela se aproximava de 20% dos votos. Então, a multidão sarkozista explodiu em vibração, como se comemorasse um gol em um estádio de futebol.

Passadas 24 horas, o momento de euforia dos partidários da União por um Movimento Popular (UMP), o partido de Sarkozy, está aos poucos se transformando em um novo receio de derrota. Isso porque muitos cientistas políticos e institutos de pesquisas vêm explicando que a tendência, mesmo com o escore recorde da extrema direita, é de que Hollande seja eleito em 6 de maio o presidente da França.

Vamos aos fatos. Se observado friamente, o total de votos em favor de candidatos de partidos da direita, com Sarkozy à frente, chegou a 46,85% no domingo. Já os candidatos de esquerda, com Hollande em primeiro lugar, somaram 44%. Em uma primeira análise, alguns líderes políticos, acadêmicos e analistas se apressaram em declarar Sarkozy, autêntico representante da direita, favorito no segundo turno.

O problema é que a transferência de votos não se dá de forma mecânica. Pesquisas realizadas desde a noite de domingo com eleitores de dois candidatos, Marine Le Pen e o centrista François Bayrou, explicam por que Hollande é favorito. Em primeiro lugar, o socialista é favorecido pelo alto índice de transferência de votos de outros eleitores da esquerda. Em segundo, ele obtém cerca de um terço do eleitorado de Bayrou – índice idêntico ao de Sarkozy e o de abstenções. Em terceiro, e mais surpreendente, ele capta quase 20% do eleitorado de Marine Le Pen – uma fatia da população francesa que é profundamente “antissarkozista”.

De sua parte, Sarkozy conta com cerca de 60% dos votos de Le Pen e um terço dos de Bayrou. Mas essas reservas não são suficientes para bater Hollande. Eis por que as primeiras pesquisas de intenção de voto no segundo turno apontam o socialista com 54% da preferência, frente a 46% do atual presidente.

Isso significa que a eleição de 6 de maio está decidida? Não. Primeiro porque tudo pode acontecer no intervalo de duas semanas – o ex-diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, por exemplo, foi preso quando era o favorito. Além disso, Sarkozy é um político fora de série, líder de uma verdadeira máquina eleitoral, a UMP, é assessorado por ótimos marketeiros políticos e sabe como ninguém captar a atenção da imprensa, mobilizar sua militância e castigar o adversário com ataques precisos e rajadas de promessas. Por isso, a reversão ainda é possível.

Em favor de Hollande, além de seus talentos pessoais, pesa a tradição. A história das eleições presidenciais diretas na França, desde 1965, indica que viradas no segundo turno podem acontecer. Foi o caso de Valéry Giscard-d’Estaing em 1974 e de François Mitterrand em 1981. Mas há um detalhe importante: essas viradas já eram previstas pelo eleitorado, pelas pesquisas e pelos analistas políticos antes mesmo que o primeiro turno acontecesse.

É sempre possível argumentar que pesquisas políticas podem falhar. É verdade. Algumas falharam em parte – dentro das margens de erro, diga-se, sem desculpá-las – no domingo passado.

Mas nunca na V República, inaugurada em 1958, um candidato que estivesse à frente de todas as pesquisas eleitorais para o segundo turno no mês de abril perdeu a eleição em maio. Isso quer dizer que, embora muitos franceses se digam indecisos, a convicção da maioria se forma desde muito cedo e os indecisos se dividem de forma mais ou menos proporcional aos decididos.

Hollande é o líder em todos os cenários eleitorais desde janeiro – e continuava em primeiro lugar nessa segunda, há 14 dias das eleições. Para vencer, Sarkozy não terá só de convencer eleitores; terá de reescrever a história democrática da França.

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