“Os mercados votariam em branco na eleição da França”
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“Os mercados votariam em branco na eleição da França”

andreinetto

18 de abril de 2012 | 11h25

Eleições na França 2012

ENTREVISTA Nicolas Véron, economista e observador político do Instituto Bruegel

Ex-membro do staff de Martine Aubry, secretária-geral do PS, especialista em política econômica europeia diz que mercados já “anteciparam riscos” da eleição  

Nicolas Sarkozy, presidente da França, e François Hollande, líder do Partido Socialista (PS), os dois favoritos às eleições presidenciais, promoveram no domingo, em Paris, seus dois maiores comícios de campanha, a sete dias do primeiro turno. Segundo as estimativas dos dois partidos, mais de 200 mil pessoas – 100 mil em cada – participaram das reuniões promovidas na Praça da Concórdia e no Castelo de Vincennes. Em seu discurso, Hollande voltou a pedir mobilização contra o atual chefe de Estado: “Eu exorto a todos vocês que deem um julgamento severo quanto ao mandato que acaba agora”, disse ele, ovacionado pela multidão.

Às vésperas do primeiro turno e em dificuldades nas pesquisas, que o apontam em segundo lugar, Sarkozy anunciou que, caso seja reeleito, pedirá ao Banco Central Europeu (BCE) que redirecione sua gestão para o crescimento – uma bandeira até aqui defendida por seu rival. Além disso, voltou a lançar mão da crise financeira, para atacar Hollande. Segundo o chefe do Estado, caso o candidato do PS vença as eleições a França enfrentará a fúria dos mercados financeiros. O tema revoltou a oposição nos últimos dias e fez explodir uma polêmica europeia sobre o assunto, que não resolveu a dúvida: existe de fato o risco de um ataque especulativo a França, o que destruiria o euro e ameaçaria a União Europeia?

O Estado questionou Nicolas Véron, economista francês e observador político do Instituto Bruegel, de Bruxelas, sobre o assunto. Véron tem experiência no tema: pesquisa o comportamento dos mercados e conhece por dentro a política da França, desde que foi membro do gabinete de Martine Aubry, secretária-geral do PS e cogitada ao cargo de primeiro-ministro. Para ele, o projeto político socialista não agrada, mas o que assusta os investidores e a falta de projetos claros de ambos, Hollande e Sarkozy. “A eleição tem um efeito neutro, porque nenhum dos dois candidatos traz as respostas que os mercados esperam para a crise na Europa”, diz Véron. A seguir, a síntese da entrevista.

Sarkozy provocou enorme polêmica na França e na Europa ao afirmar em sua campanha que, em caso de vitória de Hollande, o país será vítima de um ataque dos mercados. Qual é o risco real de que o ataque aconteça?

Sarkozy tem razão ao dizer que os mercados podem se voltar contra a França, mas não pelas razões que ele alega. A eleição não é um fator decisivo para que esse ataque especulativo possa acontecer eventualmente nos próximos meses. A forma como os mercados reagem às pesquisas eleitorais é muito clara: a eleição tem um efeito neutro, basicamente porque nenhum dos dois candidatos traz as respostas que os mercados esperam para a crise na Europa.

Analistas e a imprensa internacional, como a revista britânica The Economist, dizem que a eleição de 2012 mostra o quanto a França está “em negação” sobre seus problemas. O senhor concorda?

A mensagem que The Economist passou há duas semanas, de que a França está em negação quanto aos seus principais problemas, é correta. Eu compartilho da opinião. Não é apenas uma questão de candidaturas. A opinião pública do país não aceitou que será preciso mudar seu modelo social, econômico, seu lugar na Europa, a relação com a Alemanha, a arquitetura orçamentária e financeira da União Europeia. A posição da França é muito ambígua sobre todos esses temas, e os principais candidatos, Hollande e Sarkozy, refletem essa ambiguidade.

Então os mercados já “anteciparam” o resultado das eleições na França?

Os mercados têm por papel antecipar os fatos, porque é assim que se faz dinheiro. Deste ponto de vista, o que pode fazer algo mudar no curto termo é haver surpresas de vulto na eleição. O aumento das intenções de voto em Jean-Luc Mélenchon, candidato da extrema esquerda, por exemplo, não é um fator positivo para os mercados, porque indica que ele tende a ter um peso político em futuro governo Hollande. Mas o fato é que, se Hollande ou Sarkozy for eleito, não haverá uma reação intempestiva dos mercados.

Em seu maior comício, Hollande designou o mundo das finanças como seu principal “adversário”. Como os mercados interpretam esse discurso?

O paradoxo e a ironia da eleição é que Hollande demonstra uma hostilidade em relação ao dinheiro, aos patrões, aos herdeiros. Para os mercados, essa visão revela uma aversão a quem cria empregos e desenvolve o país. Mas a verdade é que os investidores se decepcionaram muito com Sarkozy e não o consideram como um presidente dos sonhos. Os mercados votam em branco nas eleições da França.

Nesta semana Sarkozy discutiu em público com o jornal britânico Financial Times, liberal por excelência. Em editorial, o FT afirmou que “também não o ama” e elogiou Hollande por defender o crescimento ao lado da austeridade.

O discurso de Hollande de que a Europa precisa de uma política de crescimento ao lado da austeridade é na verdade um fator muito positivo para Hollande na visão de muitos investidores. Há de fato um risco de círculo vicioso na Europa de austeridade e recessão. Logo, seu discurso ecoa de forma positiva no entender do Financial Times, assim como para muitos investidores e analistas econômicos. É um dos fatores pelos quais Hollande conseguiu neutralizar a preferência natural que poderia haver em torno de Sarkozy.

 

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