‘Fiaca’, a preguiça digna
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‘Fiaca’, a preguiça digna

arielpalacios

21 de fevereiro de 2010 | 03h03

A fiaca é expansiva. Nesta ilustração de 1890, vemos um grupo de amigos contagiados pela fiaca

A fiaca é expansiva. Nesta ilustração de 1890, vemos um grupo de amigos contagiados pela fiaca

CONCEITO

No Lunfardo, denominação da gíria falada em ambas margens do Rio da Prata, a palavra “Fiaca” designa a “preguiça involuntária”. Isto é, a preguiça sem premeditação. Portanto, preguiça digna de todo respeito. Um termo que poderíamos usar a granel nestes dias de pós-Carnaval.

AFINS

Apolillar (ou Apoliyar): Verbo que origina-se no napolitano “appollaiare”, que refere-se ao “pollaio” (o galinheiro). Isto é, faz alusão às galinhas, que vão dormir cedo. Neste caso, ‘apolillar’ era usado como “descansar”. Mas, com o passar das décadas, começou a ser algo equivalente a “descansar mesmo!”.

Fiacún: O protagonista e praticante da fiaca.

Vago: Equivalente ao termo “vagal” usado no Brasil

Vagoneta: Uma derivação de vagal. Mesmo significado.

Squenum: palavra do lunfardo que provém do italiano “squena”. Mais especificamente, do dialeto lombardo, e significa “costas”. Usado em Buenos Aires no final do século XIX e primeira metade do XX. É a pessoa que não trabalha mas consegue passar desapercebido em sua preguiça pois sabe fingir muito bem que trabalha (enquanto não faz nada).

Dolce far niente: Expressão italiana perfeitamente compreendida na italianizada Argentina. Trata-se do “doce nada fazer”.

 FRASE TÍPICA, inquisitiva:

“Tenés fiaca?” (pode ser dita a alguém ao ver que boceja ou se espreguiça)

Mafalfa, a menina-filósofa de Quino, em um êxtase fiacún

Mafalfa, a menina-filósofa de Quino, em um êxtase fiacún

DEFESA DA FIACA

O escritor argentino Roberto Arlt (1900-1945), autor de “Os sete loucos”, “O brinquedo raivoso” e “Saverio o cruel” fez uma enfática defesa da “fiaca” em suas crônicas reunidas no livro “Aguafuertes porteñas”.

Segundo Arlt, “confundir a ‘fiaca’ com o ato de ‘tirarse a muerto’ (se fazer de morto) é a mesma coisa que confundir um asno com uma zebra ou um burro com um camelo. Exatamente a mesma coisa. ‘Tirarse a muerto’ supõe premeditação de não fazer algo, enquanto que a ‘fiaca’ exclui toda a premeditação, elemento constituinte de dolo, segundo os juristas. Isto é, o ‘fiacún’, ao negar-se a trabalhar não opera com premeditação, mas sim intuitivamente, fato que o torna digno de todo respeito!”.

 

Arlt, o teórico da fiaca

Arlt, o teórico da fiaca

Arlt afirma que “o ‘squenum’ (vagal) não trabalha. O homem que ‘se tira a muerto’ (se faz de morto) faz de conta que trabalha. O primeiro é um cínico da preguiça; o segundo, um hipócrita do ‘dolce far niente’. O primeiro não oculta sua tendência a ser vagal. Ao contrário. A estimula com longos banhos de sol. O segundo vai até o lugar de trabalho. Não trabalha mas faz de conta que trabalha quando vê que seu chefe está chegando perto. E logo ‘se tira a muerto’ deixando que seus companheiros se matem trabalhando”. 

Arl também sustenta que “fiaca” provém do genovês, cujo sentido original referia-se ao “esgotamento físico provocado pela falta de alimentação momentânea”. Languidez e sopor.

 FIACA, TEATRO E CINEMA

Filme retrata vida de aplicado trabalhador que um dia é tomado pela 'fiaca'

Filme retrata vida de aplicado trabalhador que um dia é tomado pela 'fiaca'

A presença da fiaca gerou uma das mais saborosas obras do teatro e do cinema argentino, “La Fiaca”.

A peça é da autoria de Ricardo Talesnik. O filme é de Fernando Ayala.

No caso do filme o ator protagonista é Norman Briski. A atriz principal é Norma Aleandro, conhecida no Brasil pelos filmes “A História Oficial” e “O filho da noiva”.

A obra trata da história de um homem – que costumava ser o protótipo do obediente trabalhador de um escritório – que um dia decide não ir ao trabalho porque tem fiaca. Sua família e colegas de trabalho tentam dissuadi-lo, sem sucesso.

Em 2005 a obra transformou-se em um musical. Mais detalhes neste artigo do jornal “La Nación”. Clique aqui:  

 PENSAMENTOS SOBRE A FIACA NA FILOSOFIA PORTENHA

– A fiaca não se cria nem se destrói, ela somente é transmitida

– A fiaca é inversamente proporcional ao trabalho e diretamente proporcional a todo o resto das coisas.

– A fiaca em um grupo de pessoas tende ao equilíbrio.

– A fiaca é uma energia que não se transforma em trabalho.

– A fiaca sempre é absoluta.

– A fiaca jamais é relativa.

– A fiaca não tem limite.

– A fiaca sempre incrementa.

– A fiaca se reproduz exponencialmente.

– A fiaca é eterna.

– A fiaca é parte da Criação. Foi criada no sétimo dia.

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