“Barrabravas” – os ‘hooligans’ argentinos – surgiram na ditadura e consolidaram-se na democracia (e um pouco de Yo Yo Ma e de Borges)
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“Barrabravas” – os ‘hooligans’ argentinos – surgiram na ditadura e consolidaram-se na democracia (e um pouco de Yo Yo Ma e de Borges)

arielpalacios

12 de junho de 2010 | 09h52

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‘Barrabravas’ argentinos estão longe da atitude contemplativa e plácida dos dois famosos anjinhos de Rafaello Sanzio (1483-1520). O quadro – o “Madonna Sistina”, um óleo sobre painel, que está no Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden – é geralmente reproduzido de forma parcial. Quase sempre aparecem somente os dois celestiais guris acima. Ele foi pintado entre 1512 e 1514 por (suposta) encomenda do papa Julio II. Este, aliás, teve uma interessante interpretação por parte do ator britânico Rex Harrison no filme “Agonia e êxtase” (1965) com Charlton Heston, que fazia o papel do pintor e escultor Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni. Rex Harrison foi ‘Henry Higgings’ no filme “My fair lady” (um link de uma das melhores cenas, aqui. )

blog1dedo2bOs “barrabravas” – denominação dos “hooligans” na Argentina – estão viajando em peso à África do Sul para acompanhar de perto a seleção de seu país. Diversas estimativas do jornalismo esportivo portenho afirmam que entre 600 e 800 “barrabravas” terão desembarcado até este sábado em Pretoria, sede da concentração argentina. O primeiro grupo, composto por vinte e duas pessoas, viajou há duas semanas junto com a seleção, no mesmo avião do técnico Diego Armando Maradona.

O técnico, no entanto, nega categoricamente qualquer tipo de vínculo com os “barrabravas”. Mas, os torcedores afirmam que possuem um “arranjo direto” com Maradona e o manager da seleção, Carlos Salvador Bilardo.

O grupo que acompanhou Maradona, que autodenomina-se “a torcida oficial” da seleção, é comandado por Marcelo Aravena, que integrou a “barrabrava” do Boca Juniors nos tempos de José “El Abuelo” (O Avô) Barrita, famoso e truculento torcedor.

Aravena – que não viajou à África do Sul, mas enviou seus principais homens em seu lugar – atualmente está em liberdade condicional, já que entre 1994 e 2007 cumpriu uma parte da pena de 20 anos de prisão pelo assassinato de dois torcedores do time River Plate. Após sair da prisão fez um rejuntado de diversas torcidas de times pequenos e criou a ‘torcida oficial’.

A presença dos barrabravas na Copa está causando intensa polêmica, já que diversos grupos estão sendo vinculados com o governo da presidente Cristina Kirchner, como a Hinchadas Unidas Argentina (HUA), que engloba militantes ‘kirchneristas’.

As denúncias também apontam contra Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA) desde 1979, época em que o país era governado pelo ditador e general Jorge Rafael Videla.

Grondona, que possui boas relações com o casal Kirchner, afirmou que o assunto não constituiu um problema para a AFA: “não sei porque os barrabravas estavam no avião (de Maradona). Esse é um problema de vocês (jornalistas). Não é meu problema” (mais informações sobre Grodona, nesta postagem do ano passado, aqui. )

No ano passado Grondona fechou um suculento acordo com o governo Kirchner. Ele cancelou o contrato que a AFA e os clubes de futebol possuíam com a empresa empresa privada TyC – que pagava US$ 59 milhões por ano à associação e os clubes para transmitir os jogos de futebol – e pactuou com o governo um contrato de US$ 157 milhões anuais.

A ONG Parentes das Vítimas da Violência no Futebol Argentino (Favifa) apresentou na Justiça uma denúncia sobre a presença de “barrabravas” na África do Sul, vinculando-os a Grondona, Maradona, Bilardo, além do empresário Rudy Ulloa (íntimo amigo do casal Kirchner) e Hugo Moyano, o secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a principal central sindical do país (aliada do governo, com setores sindicais que respaldam os barrabravas).  O link do site desta ONG que denuncia a violência dos barrabravas, aqui.

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O ditador Jorge Rafael Videla, que utilizou o futebol para desviar a atenção dos problemas do país. Os barrabravas começaram a florescer em seu governo.

blog1dedo2bBARRABRAVAS SURGIRAM NA DITADURA

A Copa do Mundo de 1978, realizada na fase mais dura da última ditadura militar (1976-83) foi um divisor de águas na Argentina na violência e no esquema de poder dos “cartolas” do futebol local.

A truculência do regime – que sequestrou, torturou e assassinou mais de 30 mil civis – teve forte influência sobre a estrutura dos times e das torcidas de futebol. Vários jogadores e técnicos participaram de ações de sequestro de opositores da ditadura (um dos casos é o do ‘Gato’ Andrada, que jogou no Brasil nos anos 70. Para mais detalhes sobre seu sinistro caso, esta postagem do ano passado, aqui. )

A partir dali, os “barrabravas” – que até então eram um fenômeno de quase nulo peso – consolidaram seu crescimento e começaram a desfrutar da cumplicidade das autoridades esportivas.

A tendência de crescimento continuou apesar da volta da democracia, já que os “barrabravas” e suas estruturas de organização também passaram a ser utilizados amplamente por cabos eleitorais, especialmente nos empobrecidos municípios da Grande Buenos Aires, feudo político do partido Justicialista (Peronista), atualmente no governo.

Os integrantes dos “barrabravas” ocasionalmente trabalham como seguranças de deputados, prefeitos e vereadores. Além disso, possuem a função de causar distúrbios em comícios de opositores políticos.

De quebra, os barrabravas arrecadam substanciais fundos nos fins de semana, pois nas principais cidades do país controlam os flanelinhas que cuidam dos veículos estacionados nos arredores dos estádios, em dias de jogo. 

blog1vinheta62 KIRCHNER 2011 – O principal grupo de barrabravas está representada pela HUA – autodefinida como uma “ONG” – presidida pelo líder kirchnerista Marcelo Mallo, que desembarcou na África do Sul nesta semana.

Mallo, militante da organização kirchnerista “Compromisso K” na cidade de Quilmes – terra de Aníbal Fernández, chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina – é amigo íntimo de Rudy Ullo Igor, ex-office boy e ex-chofer do casal Kirchner, que na última década transformou-se no principal empresário do setor de mídia da Patagônia.

(Nesta entrevista feita com Mallo pelo jornal ‘Perfil’, o líder barrabrava posa na frente de um retrato do líder pacifista Mohandas Karamchand  Gandhi, o ‘Mahatma’ Gandhi. Aqui. )

Informações extraoficiais indicam que nas arquibancadas dos estádios desenrolarão faixas com os dizeres “Néstor Kirchner 2011”, antecipando a disputa presidencial do ano que vem.

O ex-presidente do time Vélez Sarsfield, Raúl Gámez – um ex-integrante de barrabravas na juventude, atualmente arrependido de seu passado – sustentou que o atual governo utiliza “a mão de obra barata dos barrabravas” para manifestações políticas.

O chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, foi sabatinado no Senado sobre o caso. No entanto, negou qualquer envolvimento do governo com os torcedores. “Não temos interesse algum que estas pessoas viagem para a África do Sul. Mas, qualquer cidadão livre pode ir, e portanto, não podemos impedir sua viagem”, admitiu.

A HUA tenta manter as aparências. Em Pretoria seus integrantes ficarão hospedados no Christian Progress College. Os “barrabravas”, em troca de obras de reformas da escola, pagarão um módico aluguel de US$ 11 diários por pessoa.

blog1vinheta62 MESSI E ‘GUSANO’ – Uma das principais figuras dos barrabravas é Ariel Pugliese, conhecido pelo nom de guerre de “Gusano” (Verme). Ele é funcionário do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), organismo sob intervenção federal. Em abril “Gusano” atacou o jornalista Gustavo Noriega na Feira do Livro. Noriega estava lançando um livro com denúncias de corrupção do governo Kirchner, mais especificamente, sobre a manipulação de estatísticas no Indec.

“Gusano” também foi o responsável da segurança de Messi durante o jogo da seleção contra o Uruguai no ano passado. No entanto, segundo o porta-voz da AFA, Ernesto Cherquis Bialo, “Messi não sabia quem era o cara. Nós tampouco sabíamos”.

O “barrabrava” também está sendo investigado pelo suposto assassinato de Marcelo Cejas, um torcedor do clube Tigre, em junho de 2007.

blog1vinheta62 FOGOS E ‘PILLÍN’ – Andrés Bracamonte, cujo nome de guerra é “Pillín” (Travesso), líder da torcida ‘barrabrava’ do time Rosario Central, suspeito de tentativa de homicídio, tentou entrar na semana passada na África do Sul. Sua partida ocorreu com a autorização da Justiça argentina. O líder dos ‘barrabravas’ foi autorizado após deixar dois carros de luxo como garantia nos tribunais.

Bracamonte está sendo investigado pela Justiça de Rosario pelos incidentes com fogos de artifício disparados durante o jogo Brasil-Argentina em setembro do ano passado no estádio do Rosario Central.

Mas, as autoridades sul-africanas não aceitaram a presença de “Pillín” no país e o deportaram para a Argentina.

Além de ‘Pillín’ – que posteriormente afirmou que havia sido ‘discriminado’ pelas autoridades sul-africanas – foram enviados de volta à Argentina um grupo de barrabravas com peculiares noms-de-guerre:

Emiliano ‘Bocón’ (Bocão) Tagliarino

Pablo “El Narigón” (O Narigão) Derrespinis (irmão de Cláudo Derrespinis, a.k.a. “El Gordo Cone”)

Pablo ‘Bebote’ (Bebezão) Álvarez

Carros de luxo recolheram este peculiar grupo quando voltou para a Argentina. Antes de entrar nos veículos, agrediram os jornalistas argentinos de plantão no lugar.

blog1vinheta71OPINIÃO PÚBLICA, CONTRA OS ‘BARRAS’ – A opinião pública está ostensivamente a favor da deportação dos barrabravas. Isso é o que indica uma pesquisa feita pelo jornal “La Nación”. Segundo os resultados, 97% dos internautas consideram que é “muito bom” que os hooligans locais tenham sido reenviados para a Argentina. Outros 2% dos internautas afirmam que, se a Justiça permitiu que saíssem do país, a África do Sul deveria ter permitido que ficassem em território sul-africano. O restante 1% indicou que não tinha opinião formada sobre o caso.

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O antes citado quadro de Sanzio, na versão completa

 

blog1dedo4UMA NOITE OFF-COPA

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O batutésimo Yo Yo Ma, que apresentou-se nesta sexta-feira no Teatro Colón, dando início ao ciclo internacional dessa casa

blog1vinheta67 Ontem (sexta-feira) à noite tive o deleite de assistir o violoncelista Yo Yo Ma no Teatro Colón. O supimpa intérprete francês (filho de chineses) interpretou o Prelúdio número 2 de George Gershwin, além de “Cristal”, do brasileiro César Camargo Mariano.

Yo Yo Ma também interpretou Johannes Brahms, com a Sonata para violoncelo e piano número 1 em Mi menor. O terceiro movimento, o Allegro, eletrizou o exigente público do Colón, que aplaudiu em pé.

Mas, o parisiense celista estava apenas ‘esquentando os tamborins’. Após o intervalo interpretou a Sonata para violoncelo e piano em Sol menor, opus 19, de Sergei Rachmaninov.

O segundo movimento, o Allegro Scherzando, foi brilhante. Mas, o quarto movimento, o Alegro Mosso, foi espetacular. O público aplaudiu em êxtase.

Yo Yo Ma saiu do palco, mas teve que retornar após insistentes pedidos de bis. Nesse instante, interpretou uma peça de Astor Piazzolla. O público urrou e pediu mais. O violoncelista teve que voltar para um segundo bis, no qual interpretou uma peça de Camile de Saint Säens.

A entrevista que Yo Yo Ma deu horas antes do concerto, no jornal “La Nación”, aqui.

E neste link, Yo Yo Ma interpreta o Prelúdio da Suíte número 1 de J.S. Bach. Aqui.

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O cosmopolita J.L. Borges, um irreverente ‘copa-fóbico’ 

blog1dedo4UM DIA OFF-COPA

O irônico escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), autor de “O Aleph” e “Ficções” protagonizou uma peculiar rebeldia cultural em 1978, quando a Copa do Mundo estava sendo disputada na Argentina, país na época controlado com mão de ferro pelo ditador e general Jorge Rafael Videla.

Borges – sem interesse algum pelo futebol – decidiu pronunciar uma conferência em Buenos Aires no mesmo minuto em que a seleção argentina iniciava seu primeiro jogo (contra a seleção da Hungria). A palestra do irreverente Borges foi encarada por diversos setores como um desafio ao “patriotismo” e à própria ditadura (que Borges havia elogiado nos primeiros meses, tal como o escritor Ernesto Sábato, mas a qual começou a criticar pouco depois). Grupos de fanáticos tentaram impedir a realização do evento.

O assunto da conferência borgiana em 1978? “A Imortalidade”.

Trinta e dois anos depois, hoje (sábado), na mesma hora em que a Argentina enfrentará a Nigéria, na cidade argentina de Rosario, na província de Santa Fe, centenas de pessoas estarão novamente focalizadas em Borges, já que será realizado o encerramento de um ciclo de conferências sobre Borges e o escritor sul-africano John Ronald Reuel Tolkien, o autor de “O senhor dos anéis”.

Os organizadores do evento, da Universidade do Centro Educativo Latino-americano (Ucel), afirmam que foi pura coincidência, pois – fiéis ao desinteresse de Borges sobre “esse esporte inglês” (tal como o chamava) – sequer haviam pensado na data em que iniciava a participação argentina na Copa.

Para aqueles que estiverem em Rosario, uma interessante chance de ver as palestras. Para mais detalhes, aqui.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ 
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

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