“Ineptos”, “paranoicos” e “ciumentos”: assim Washington via os Kirchners, segundo Wikileaks (além de interesse pelos neurônios de Cristina e o cólon irritável de Néstor Kirchner)
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“Ineptos”, “paranoicos” e “ciumentos”: assim Washington via os Kirchners, segundo Wikileaks (além de interesse pelos neurônios de Cristina e o cólon irritável de Néstor Kirchner)

arielpalacios

01 de dezembro de 2010 | 08h12

 

Ilustração mostra Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, mestre da diplomacia no século XIX. O diplomata francês costumava dizer que “a palavra foi dada ao homem para que possa encobrir seu pensamento”. Isso valeu até o affaire Wikileaks. E, ao lado de Talleyrand, Sigmund Freud, pai da psicanálise. O autor de “Totem e tabu” entre outras obras tem a ver com as tentativas da diplomacia americana de desvendar a psique da presidente Cristina Kirchner. Além dos neurônios de Cristina, as vísceras de Kirchner também eram foco de interesse dos EUA.

“Ineptos” em política externa, “paranoicos” com o poder e “ciumentos” das atenções que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguia do governo dos Estados Unidos. Assim eram encarados pela diplomacia americana a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), segundo revelaram os telegramas entre a embaixada americana em Buenos Aires e a Secretaria de Estado dos EUA em Washington divulgados pela WikiLeaks. Os Kirchners eram denominados ironicamente pela diplomacia americana de “first couple” (o primeiro casal).

Segundo os telegramas Washington considerava que Néstor Kichner tinha “duas caras”, tal como “o Dr. Jekyll e Mr. Hyde”. A avaliação dos diplomatas americanos sustentava que o “estilo K” – denominação da forma de governar do casal – era “errático” e caracterizado pela “tensão extrema no curto prazo”. Eles também consideravam que o casal presidencial era “impermeável aos conselhos alheios e muito paranoicos em relação ao poder”.

Em várias ocasiões as fontes de informações sobre os Kirchners foram os próprios ministros do gabinete presidencial. Um deles, com opiniões cáusticas, era o ex-chefe do gabinete de ministros, Sérgio Massa, que disse à embaixada americana que Kirchner era “psicopata, um monstro e um covarde”.

Massa também teria afirmado que o governo de Cristina seria melhor sem a presença de Néstor Kirchner, que faleceu de um ataque cardíaco fulminante há um mês. Na terça-feira Massa desmentiu que tivesse feito essas declarações e ressaltou que não tinha contatos com a embaixada dos EUA.

Cérebro visto de baixo, em ilustração do século XVIII. Conexões sinápticas da presidente Cristina Kirchner despertavam curiosidade no Departamento de Estado nos EUA.

 SAÚDE MENTAL  E MEDICAMENTOS DE CRISTINA – As informações também revelam que a “saúde mental” de Cristina Kirchner era ponto de interesse para a diplomacia americana nos últimos dias de dezembro de 2009, quando nesse âmbito surgiram perguntas sobre os efeitos do estresse na mente da presidente argentina. No telegrama, assinado por “Clinton” (e portanto, atribuído à secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton), a diplomacia americana faz perguntas como “de que forma controla Cristina Kirchner seus nervos e sua ansiedade? Como afeta o estresse sua conduta com seus assessores e seu processo de decisões?” e “que medicamentos (Cristina Kirchner) toma?”.

Em Buenos Aires os comentários entre a população sobre uma eventual bipolaridade (ou situação similar com palavras, digamos, menos científicas) da presidente argentina eram comuns desde de sua posse em dezembro de 2007. 

 O CÓLON IRRITÁVEL E A POLÍTICA – A saúde do ex-presidente Kirchner, considerado em Buenos Aires o verdadeiro poder no governo da mulher, também era o foco de interesse, já que os telegramas continham perguntas sobre a magnitude de seus complicados problemas gastrointestinais, mais especificamente, sobre seu “cólon irritável”.

A resposta à inquietude americana veio do círculo mais íntimo do casal presidencial, o secretário de Assuntos Legais, Carlos Zannini, amigo dos Kirchners desde os tempos da faculdade: “Kirchner age de acordo com seu estado de saúde, que se exacerba e determina suas emoções e psicologia. Sofre há anos de irritação intestinal”.

Segundo a diplomacia americana, os problemas intestinais de Kirchner explicam uma personalidade “obsessivo-compulsiva” e provocam “a falta de atenção às longas cerimônias protocolares ou com os horários inflexíveis, que não permitiriam que Kirchner tivesse um acesso rápido aos banheiros”.

Vísceras e vizinhanças em ilustração de gravura de livro médico do século XIX. As vísceras de Kirchner, mais especifícamente seu cólon irritável, eram foco de interesse da diplomacia americana.

 A POSE É DE ESQUERDA, MAS A ATITUDE É ‘PRAGMÁTICA’ – Segundo os telegramas, Washington considera que o governo Kirchner, apesar da pose de esquerda e da proximidade com o presidente venezuelano Hugo Chávez, age de forma “pragmática”: “suas simpatias pela esquerda estão completamente subordinadas a seus interesses políticos e ambições pessoais”.

Os documentos sustentam que “a Argentina não ficará mais bolivariana, já que Cristina Kirchner procura claramente qualquer oportunidade para associar-se com o presidente Obama. A intensidade desse desejo abre oportunidades para os EUA”.

Evo Morales e Hugo Chávez, com figurino tipicamente andino durante conclave presidencial. O segundo não teria influência sobre os Kirchners, na avaliação da diplomacia americana. O primeiro poderia ser abrandado pelos Kirchners, analisavam os diplomatas em Washington, baseados em afirmações da presidente Cristina.

 BOLÍVIA: ARGENTINA OFERECE AJUDA PARA ABRANDAR EVO – O duplo discurso com os países vizinhos e as tentativas de Cristina para aproximar-se dos EUA evidenciam-se pela promessa de ajuda a Obama para conter os ímpetos revolucionários do presidente equatoriano Rafael Correa e tornar mais flexível o presidente boliviano Evo Morales. “Evo não é pessoa fácil, nos informa CFK (Cristina Fernández de Kirchner)”, indica um telegrama que também ressalta que “CFK afirma que a Argentina cooperará com os EUA na Bolívia, mas temos que ser cuidadosos para que não pareça que existe uma operação política contra o governo, devido às suspeitas de Evo”.

O governo boliviano optou por desacreditar os telegramas americanos revelados pelo WikiLeaks sobre a Bolívia. “Não levamos isso a sério, pois podem existir erros”, disse o porta-voz presidencial em La Paz, Iván Canelas.

No entanto, embora negue o conteúdo existente sobre a Bolívia, o vice-presidente Alvaro García Lineras considera como verdadeiras as informações surgidas sobre outros países. “Celebro que estas informações tenham sido publicadas. Celebro que o mundo fique conhecendo de fontes próprias aquilo que dizíamos há tempos. Tudo aquilo que denunciávamos está agora totalmente comprovado“, disse o vice.

 CRISTINA, COM CIÚMES DE LULA – Segundo os telegramas a presidente Cristina considerava que merecia mais atenção dos EUA e melindrava-se por ficar em segundo plano, atrás do Brasil. “Cristina diz que é difícil entender porque o presidente Lula obteve uma entrevista com o presidente Obama, apesar de que o Brasil votou contra no Organismo Internacional de Energia Atômica (OIEA) e de que Lula reuniu-se com (o presidente iraniano Mahmoud) Ahmadinejad, enquanto que nega uma entrevista com ela, que mantém uma forte posição contra o Irã na OIEA e na luta contra o terrorismo”.

Os telegramas indicam que o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, lamentou ao secretário de Estado adjunto dos EUA, Arturo Valenzuela, que a relação dos EUA com o Brasil e o Chile fosse encarada como mais positiva. “É especialmente doloroso, pois a presidente Cristina sempre apoiou Obama”, reclamou Fernández, segundo a WikiLeaks.

 

Falando em ciúmes, o dito cujo sentimento, representado acima neste trecho da pintura “Allegoria del trionfo di Venere” (Alegoria do  triunfo de Vênus), de Angelo Bronzino. A obra, realizada entre 1540 e 1545, está na National Gallery, Londres.

 CRISTINA, SUBMETIDA PELO MARIDO – Mais telegramas revelados pelo Wikileaks divulgados ontem (terça-feira) à noite pelo jornal “El País” indicam que o ex-chefe do gabinete de ministros, Sergio Massa – homem de confiança do casal presidencial – disse a diplomatas americanos em Buenos Aires que Néstor Kirchner comandava o governo e que a presidente Cristina Kirchner cumpria ordens”. Segundo Massa, atualmente prefeito da cidade de Tigre, a presidente estava “submetida” por seu marido.

 ARGENTINA NÃO SERÁ VENEZUELA – Massa também indicou que os Kirchners não possuíam qualquer chance de vencer as eleições presidenciais de 2011. Além disso, tentou tranquilizar os americanos ao afirmar que a Argentina não estava no caminho “bolivariano”: “apesar de todos os problemas que a Argentina tem, o país não é a Venezuela. Sua sociedade é mais educada, tem uma ampla classe média e sua economia é muito mais complexa que o monocultivo petrolífero de Caracas. Argentina, explicou (Massa), não permitirá que os Kirchners consolidem seu poder com um governo mais autocrático”.

No documento a embaixada americana indica que a esposa de Massa, Malena Galmarini, fez diversas vezes sinais para que seu marido se calasse. No entanto, não teve sucesso.

 PREFEITO MANIQUEÍSTA E BRUSCO – Os telegramas também indicam que a embaixadora dos EUA, Vilma Martínez, em novembro de 2009 relatou que o encontro que teve na época com o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, de oposição, não foi agradável. Segundo a embaixadora, Macri é “brusco”, possui uma “visão maniqueísta do mundo” e “incomoda-se com as sutilezas das comunicações interpessoais”.

A diplomata americana considerou no telegrama que Macri “compartilha essas características controvertidas com o ex-presidente Kirchner, seu rival político”.

E, um pequeno acréscimo, só de background (nada a ver com o Wikileaks): na semana passada – antes do escândalo Wikileaks – o prefeito Macri, do partido de centro-direita Proposta Republicana (PRO), foi alvo de ácidas piadas, já que durante sua festa de casamento, ao fazer uma imitação de Freddie Mercuri (o prefeito é fã de carteirinha desse cantor nascido na ilha de Zanzibar, filho de indianos) colocou um bigode postiço e, enquanto cantava uma passagem de um hit da estrela do Queen, engoliu esse artefato capilar que estava aderido a seu lábio superior. O prefeito da maior cidade argentina engasgou seriamente com o bigode, fato que assustou os convidados. Finalmente, foi salvo por um assessor.

Freddie Mercuri, apesar de sua vasta imaginação – e que nunca teve o prazer de ver este escândalo do Wikileaks – talvez nunca pensou que no extremo sul do planeta um prefeito o imitaria e quase morreria engasgado com um bigode postiço.

 SILÊNCIO – O silêncio do governo argentino foi interrompido ontem (terça-feira) de manhã pelo embaixador do país na ONU, Jorge Argüello, que afirmou que a divulgação dos telegramas diplomáticos “são um assunto muito delicado que colocará o governo dos EUA em uma situação embaraçosa”. Argüello afirmou que ainda falta conhecer “a maior parte” das informações.

Na capital argentina o ministro da Economia, Amado Boudou, não fez avaliações sobre os detalhes contidos nos telegramas sobre a Argentina. Mas, indicou genericamente que “possuem alto nível de babaquices”.

Em Buenos Aires existe expectativa de que o escândalo sobre os telegramas seja um dos principais assuntos da cúpula de chefes de Estado e de governo dos países iberoamericanos, que será realizada na sexta-feira e sábado na cidade de Mar del Plata.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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